A expansão da IA (Inteligência Artificial) e da infraestrutura de data centers começou a alterar a lógica de investimentos e fusões no setor elétrico global. Segundo relatório da PwC, o aumento da demanda por energia está redefinindo a dinâmica de M&A (fusões e aquisições) nos segmentos de energia, utilities e recursos naturais em 2026.
De acordo com a consultoria, o movimento vai além de um ciclo conjuntural e passa a representar uma transformação estrutural na forma como ativos de geração, transmissão e infraestrutura energética são avaliados, financiados e negociados.
Nesse novo ambiente, investidores e operadores de M&A passaram a priorizar ativos com capacidade de geração de caixa no curto prazo, previsibilidade operacional e menor exposição a riscos de execução.
Com isso, ativos já em operação ganham espaço frente a projetos greenfield, enquanto cresce a busca por equilíbrio entre segurança energética, resiliência e descarbonização.
O relatório mostra que, em 2025, as operações globais de M&A no setor de energia, utilities e recursos cresceram 27% em valor, apesar de uma queda de 2% no volume de transações.
O desempenho foi puxado por 20 megadeals (operações acima de US$ 5 bilhões) ante apenas seis registradas em 2024. As Américas concentraram 41% do volume e 62% do valor global das transações no período, reunindo 14 dos 20 maiores negócios.
El éxito de una fusión o adquisición comienza antes de la primera propuesta
IA amplia pressão sobre infraestrutura energética
A PwC avalia que a corrida global pela expansão da inteligência artificial exigirá uma ampliação significativa da infraestrutura energética. Isso inclui não apenas geração e transmissão de energia, mas também redes de gás natural, infraestrutura logística, minerais críticos e produtos químicos.
A expectativa da consultoria é de que a demanda crescente impulsione investimentos em soluções diversificadas de geração, armazenamento por baterias (BESS), transmissão e ativos de suporte à rede elétrica.
Nesse contexto, o gás natural e o GNL voltam a ganhar relevância no mercado internacional, especialmente diante das preocupações relacionadas à segurança energética e aos riscos de abastecimento associados às tensões geopolíticas no Oriente Médio.
No caso brasileiro, a predominância de fontes renováveis amplia o papel do gás natural como fonte firme e despachável dentro das teses de investimento voltadas à expansão da demanda digital.
O relatório também destaca o avanço das transações em mineração e metalurgia. Para 2026, a expectativa é de concentração de investimentos em ouro, prata, cobre e minerais críticos utilizados em tecnologias ligadas à transição energética e à digitalização.
Segundo a consultoria, o Brasil pode emergir como alternativa relevante no fornecimento de metais raros em um mercado hoje altamente concentrado na China.
Capital privado ganha protagonismo
A consultoria aponta ainda que o financiamento da expansão energética e digital dependerá cada vez mais da atuação de capital privado, fundos soberanos e estruturas de crédito privado.
Entre os exemplos globais citados estão a iniciativa Stargate, voltada à infraestrutura de IA, com previsão de US$ 500 bilhões em investimentos apoiados por OpenAI, Oracle e SoftBank, além da AI Infrastructure Partnership, que reúne BlackRock, Global Infrastructure Partners e Microsoft.
No Brasil, um dos principais exemplos é a parceria entre o TikTok, por meio da ByteDance, a Casa dos Ventos e a Omnia para construção do primeiro data center da plataforma na América Latina. O projeto prevê investimentos estimados em R$ 200 bilhões, com início de operação previsto para 2027.
Curtailment entra no radar dos investidores
A PwC também chama atenção para os impactos do avanço acelerado das fontes renováveis no Brasil sobre as teses de investimento em geração.
Os incentivos à diversificação da matriz ampliaram os investimentos em usinas solares e eólicas nos últimos anos, aumentando a base de ativos elegíveis para operações de M&A, tanto em aquisições de ativos operacionais quanto em estratégias de rotação de portfólio.
Segundo a consultoria, o segmento de geração distribuída também começa a passar por um movimento de consolidação e reciclagem de ativos, algo já esperado após a forte corrida por novos projetos entre 2022 e 2023.
Ao mesmo tempo, o avanço acelerado das renováveis expôs gargalos estruturais no sistema elétrico brasileiro. O cenário de curtailment passou a ocupar posição central nas análises de investimento, impactando projeções de receita, retorno esperado e precificação dos ativos.
Para a PwC, embora o aumento das restrições operacionais represente um fator de risco, o ambiente também cria oportunidades para consolidação de portfólios e reestruturação de ativos.
Segundo Daniel Martins, o Brasil reúne características que o colocam em posição estratégica. “O Brasil combina uma matriz elétrica diversificada e um amplo pipeline de projetos em energia e saneamento. Somado à previsibilidade regulatória, o país se posiciona como um mercado relevante de oportunidades de fusões e aquisições”, afirmou.
Para ele, o principal desafio dos investidores será estruturar operações capazes de conciliar escala, disciplina de capital e resiliência em um ambiente ainda marcado por juros elevados e transformações regulatórias.
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