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Início / Notícias / Mercado & Investimentos / Armazenamento não é geração, consumo nem transmissão, diz diretor da UCB Power

Armazenamento não é geração, consumo nem transmissão, diz diretor da UCB Power

Fabricante brasileira se associou com a chinesa Vision de olho no potencial de crescimento do mercado de baterias de grande porte
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  • Foto de Wagner Freire Wagner Freire
  • 12 de março de 2026, às 10:15
6 min 39 seg de leitura
Fabricante brasileira se associou com a chinesa Vision de olho no potencial de crescimento do mercado de baterias de grande porte
Vinicius Berná, diretor comercial e de novos negócios da UCB Power. Foto: Linkedin/Reproução

Impulsionadas pela queda de preços das tecnologias, pela expansão das renováveis e pelas necessidades operacionais do sistema, as baterias vêm se consolidando como uma solução para lidar com desafios de flexibilidade do setor elétrico e gestão do consumo de energia.

Para Vinicius Berná, diretor comercial e de novos negócios da UCB Power, o armazenamento de energia começa a ganhar tração no setor elétrico brasileiro, marcado pela diversificação de aplicações e pelo surgimento de novas oportunidades para agentes como geradores, transmissores, comercializadores e consumidores.

A UCB passou recentemente por uma mudança societária que busca posicionar a empresa para essa nova etapa do mercado de armazenamento. O fundo de investimento GEF Capital Partners assumiu o controle da companhia ao adquirir uma participação relevante no capital.

Mais recentemente, a empresa também recebeu um investimento estratégico da Vision, fabricante chinesa de baterias. Segundo Berná, a entrada da empresa asiática vai além do aporte financeiro.

“Eles trazem capacidade de pesquisa e desenvolvimento dentro da China e uma escala produtiva muito grande. Hoje a Vision possui mais de 12 GWh de capacidade instalada de produção de baterias”, explica.

Segundo o executivo, a parceria também abre espaço para ganhos de eficiência na cadeia de suprimentos, com possibilidade de consolidação de fornecedores, redução de custos logísticos e acesso a novas tecnologias.

Família fundadora permanece como acionista minoritária

A UCB atua em dois segmentos principais: baterias portáteis, usadas em eletrônicos como celulares e notebooks, e baterias estacionárias, voltadas para aplicações energéticas. Hoje, segundo Berna, as duas áreas possuem participação semelhante no negócio da empresa.

“O peso é praticamente meio a meio. Dependendo do ciclo de projetos, o segmento estacionário pode até ultrapassar o portátil”, afirma.

Enquanto o mercado portátil acompanha a dinâmica da indústria de eletrônicos, o crescimento das baterias estacionárias está diretamente ligado às necessidades de gestão de energia.

Segundo Berna, o negócio de baterias estacionárias no Brasil começou principalmente em programas de universalização da energia elétrica. Projetos como o Luz para Todos e o Mais Luz para a Amazônia passaram a utilizar sistemas híbridos, combinando painéis solares e baterias, para atender comunidades remotas onde a expansão da rede de distribuição não seria economicamente viável.

“Muitas dessas comunidades ficam em regiões isoladas ou até em casas flutuantes em rios da Amazônia. Nesses casos, instalar um sistema solar com bateria é muito mais eficiente do que levar a rede até lá”, explica Berná.

Outra frente importante de negócio foi a substituição de baterias de chumbo por baterias de lítio. Embora o investimento inicial seja mais elevado, o lítio apresenta maior vida útil e melhor desempenho em diferentes condições operacionais, o que reduz o custo total ao longo do ciclo de vida do equipamento.

Queda nos preços

A expansão do mercado de armazenamento também passa por uma forte redução nos preços das baterias. Nos últimos anos, a indústria global passou por uma transformação tecnológica e industrial que acelerou a curva de queda de custos. “Desde 2021 vimos reduções superiores a 60% em alguns segmentos”, afirma Berná.

Um dos principais fatores foi a adoção em larga escala da tecnologia LFP (lítio-ferro-fosfato). Montadoras passaram a substituir baterias baseadas em níquel, manganês e cobalto por essa química, considerada mais estável e menos dependente de minerais críticos. Além disso, o aumento da escala de produção reduziu significativamente os custos da tecnologia.

Apesar da tendência estrutural de queda, o mercado enfrenta neste momento um aumento conjuntural nos preços. Dois fatores principais explicam o movimento: a valorização do carbonato de lítio no mercado internacional e a elevação dos custos logísticos globais.

Com isso, o preço de baterias de baixa tensão voltou a subir no mercado brasileiro, passando de cerca de R$ 1.100 por kWh para aproximadamente R$ 1.500 por kWh.

Ainda assim, a expectativa é que o movimento seja temporário. “Não vemos isso como uma mudança estrutural de preços, mas como um choque conjuntural.”

O desafio regulatório

A consolidação do armazenamento no Brasil também depende de avanços regulatórios. Para Berna, uma das dificuldades é que a tecnologia não se encaixa perfeitamente nas categorias tradicionais do setor elétrico.

“O armazenamento não é geração, não é consumo e não é transmissão. Então a regulação precisa se adaptar para incorporar essa nova figura.”

Nos últimos anos, no entanto, o debate evoluiu significativamente. A discussão iniciada com a Consulta Pública 39 da ANEEL abriu caminho para a construção de um marco regulatório mais claro para o setor. Entre os temas ainda em análise estão a cobrança das tarifas de uso da rede e a remuneração adequada por serviços adicionais fornecidos pelas baterias.

O governo federal pretende realizar neste ano o primeiro leilão de capacidade com baterias no Brasil, com previsão inicial de contratação de 2 GW de potência. Para Berna, a iniciativa representa um passo importante para dar escala ao mercado.

Estudos do ONS (Operador Nacional do Sistema), conta ele, indicam que o Brasil pode enfrentar nos próximos anos um desequilíbrio entre geração e demanda ao longo do dia. “Existe um cenário em que podemos ter até 35 GW de energia renovável sendo cortada ao meio-dia e, ao mesmo tempo, um déficit de cerca de 5 GW de potência no início da noite”, afirma.

Nesse contexto, as baterias poderiam armazenar parte da geração excedente durante o dia e liberá-la nos horários de maior consumo. Mesmo assim, o executivo defende cautela no início do processo. “Um primeiro leilão menor faz sentido. É uma tecnologia que ainda está sendo integrada ao sistema e todos os agentes estão aprendendo.”

O papel das comercializadoras

Além dos projetos em larga escala, o armazenamento também abre espaço para novos modelos de negócio no mercado livre de energia. Segundo Berná, as comercializadoras podem se tornar um dos principais motores de crescimento desse mercado.

As baterias permitem realizar a arbitragem de preços, deslocando o consumo de energia para horários mais baratos. “Se você desconecta o cliente do sistema no horário em que a energia está cara e consome quando está barata, isso tem um valor enorme”, afirma.

Em alguns cenários analisados pela empresa, esse mecanismo poderia gerar economias de R$ 3 a R$ 4 por MWh. Além disso, as baterias podem oferecer serviços adicionais ao consumidor, como backup de energia e melhoria na qualidade do fornecimento.

Produção nacional de BESS depende de escala

A UCB possui atualmente duas fábricas no Brasil, localizadas em Extrema (MG) e Manaus (AM), onde já produz baterias de lítio para aplicações de menor tensão. Porém, a fabricação de sistemas maiores, utilizados em projetos de armazenamento em rede, ainda depende de escala de mercado.

A realização de leilões e o crescimento do mercado de armazenamento podem ser fatores decisivos para estimular a produção local. “A produção industrial está diretamente ligada ao volume. Para justificar uma fábrica de baterias de maior porte precisamos de previsibilidade de demanda”, afirma Berná.

Enquanto isso, a empresa busca ampliar sua atuação em toda a cadeia de valor do armazenamento, incluindo engenharia de aplicação, instalação, comissionamento e serviços de operação e manutenção.

“Entregar um sistema de baterias vai muito além do equipamento. Existe toda uma camada de engenharia e suporte ao longo do ciclo de vida do projeto.”

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Wagner Freire
Wagner Freire é jornalista graduado pela FMU. Atuou como repórter no Jornal da Energia, Canal Energia e Agência Estado. Cobre o setor elétrico desde 2011. Possui experiência na cobertura de eventos, como leilões de energia, convenções, palestras, feiras, congressos e seminários.
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