Fundador e presidente-executivo da ABGD (Associação Brasileira de Geração Distribuída), Carlos Evangelista anunciou nesta quinta-feira (22) que deixará o comando da entidade após quase uma década à frente da associação.
Em entrevista ao Canal Solar, ele abriu os bastidores dessa decisão, detalhou os fatores centrais que o levaram a encerrar o ciclo, comentou os novos rumos de sua trajetória profissional e tranquilizou o mercado quanto ao processo de transição na liderança da entidade.
Confira abaixo a entrevista completa:

Carlos, por que você decidiu deixar a presidência da ABGD?
Não foi uma decisão repentina. Eu já vinha refletindo sobre isso desde o início do semestre passado. Meu mandato como presidente eleito se encerrou em 16 de dezembro. Eu apenas aguardei a primeira reunião do conselho deliberativo de 2026, que aconteceu ontem (quinta-feira), para comunicar formalmente que não tinha mais interesse em continuar à frente da associação.
Se eu fosse estruturar os motivos, eu diria que foram quatro principais razões. A primeira é que, depois de dez anos, esse é um encerramento natural de um ciclo institucional. Uma década à frente da ABGD, desde a fundação, passando pela consolidação e posicionamento da entidade, foi um processo que considero bem-sucedido. Hoje, é reconhecida nacionalmente, tem estabilidade suficiente para seguir com uma nova liderança, preservando seus valores e identidade.
E quais seriam os outros motivos?
O segundo é a sensação real de missão cumprida na consolidação da geração distribuída no Brasil. Hoje temos cerca de 44 GW instalados, mais de 7 milhões de unidades consumidoras recebendo créditos e algo em torno de 21 milhões de pessoas beneficiadas. São números extremamente relevantes para o setor elétrico brasileiro.
A ABGD cumpriu seu papel histórico no debate técnico, regulatório e institucional da GD, contribuindo diretamente para a construção dos marcos regulatórios. O principal deles foi a Lei 14.300/2022, mas também fortalecemos muito o diálogo com agentes públicos e privados, sempre defendendo o protagonismo do consumidor. No início, eu precisava explicar o que era geração distribuída e quais vantagens para o setor elétrico. Hoje, isso não é mais necessário.
O terceiro motivo é pessoal e profissional: a busca por novos desafios estratégicos. Quero direcionar minha energia – sem trocadilhos – para projetos ligados à transição energética, inteligência artificial, inovação e novos modelos de negócio. Tenho uma trajetória ligada à tecnologia, telecomunicações e energia, então esse movimento faz muito sentido.
E o quarto ponto é a visão de futuro. Alternar a liderança é sinal de maturidade institucional. Minha saída abre espaço para renovação dentro da ABGD. Vou ajudar no processo de transição, inclusive na escolha da nova liderança, para que seja algo fluido e saudável.
Essa mudança deve gerar receio no mercado? Os associados da ABGD podem ficar tranquilos?
Podem, sim. Toda troca de liderança gera expectativa. É como trocar o técnico de uma seleção campeã: a pressão sobre quem entra é enorme. Mas isso é injusto. Quem assume não precisa fazer mais, precisa manter o que já foi construído. Isso, por si só, já é um enorme desafio.
O mercado é dinâmico, e qualquer pessoa que venha vai enfrentar pressão. Isso acontece em qualquer segmento. O importante é manter o crescimento, o protagonismo e o acompanhamento das necessidades regulatórias do setor. A ABGD tem uma estrutura sólida para isso.
Olhando para trás, quais foram os momentos mais desafiadores e os que mais te orgulham?
Um dos momentos mais marcantes foi a defesa oral da Resolução 687, em 2015, quando foram introduzidos os modelos de geração compartilhada por consórcios e cooperativas; e geração remota. Sem isso, a GD não seria o que é hoje.
Mas, sem dúvida, o maior desafio – e também o maior orgulho – foi a construção da Lei 14.300, em 2022. Foi um processo extremamente complexo, com vários projetos de lei em debate. Trabalhamos diretamente com governo, Aneel, associações e agentes do setor para construir um texto equilibrado, que desse segurança jurídica e regulatória.
Foram meses discutindo artigo por artigo, até chegar a um marco legal que permitiu ao consumidor gerar sua própria energia, injetar o excedente na rede de forma segura e viabilizar os investimentos que nos levaram aos 44 GW atuais.
Depois disso, vieram outros desafios: inversão de fluxo, manifestação do TCU contra GD, abusos nos prazos de conexão, reforma tributária, manutenção da isenção do ICMS – hoje IBS e CBS – sobre energia injetada, medidas provisórias do governo com emendas contra GD, além do intenso debate sobre curtailment. Todos esses temas continuam permeando o setor elétrico e exigem atenção constante.
E agora, quais são seus planos profissionais?
Tenho recebido convites para comandar outras associações, mas não quero fazer mais do mesmo. Eu já tenho uma empresa aberta há mais de 20 anos, atuei na criação da primeira indústria nacional de módulos solares em 2010 e sigo muito conectado ao mercado.
Tenho sido bastante procurado por empresas que querem vender ativos, usinas, fábricas ou até a empresa inteira. Também por investidores interessados em aquisições, vejo uma oportunidade clara de atuar com assessoria em M&A.
Posso ajudar as empresas a entenderem o verdadeiro valor de seus ativos, evitando que vendam seus negócios por preços muito abaixo do que valem. Além disso, há uma demanda enorme ligada a data centers, conexão de grandes cargas e destravamento de projetos que já estão prontos, mas não conseguem se conectar à rede. Tenho pensado bastante nisso também, com algumas demandas reais já acontecendo.
Podemos dizer que o senhor vai atuar como uma espécie de assessor estratégico?
Acredito que sim. Uma assessoria estratégica em M&A é uma boa definição para isso. Mais do que consultoria tradicional, é colocar experiência, relacionamento e visão de mercado a serviço de operações que façam sentido para todos os lados.
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