Em 2020, o engenheiro eletricista formado na Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), Alan Henn, encarou o desafio de empreender no setor elétrico em meio ao início da pandemia de Covid-19.
Após um intercâmbio na Itália – onde teve contato direto com um mercado de energia mais maduro e com forte presença da GD (geração distribuída) – passou a refletir sobre como tornar o Mercado Livre de Energia brasileiro tão acessível quanto a energia solar se tornou.
Dessa inquietação nasceu o conceito da Voltera, comercializadora criada com a missão de democratizar o acesso ao ACL (Ambiente de Contratação Livre), tornando-o simples e compreensível para qualquer empresa ou pessoa no país.
“Na Itália, tive meu primeiro contato prático com o Mercado Livre de Energia. As pessoas compravam energia para suas próprias casas, algo que eu ainda não tinha visto nem estudado no Brasil. Isso me trouxe uma bagagem importante sobre como funciona um mercado mais maduro”, relatou Henn.
“Foi também nesse período que percebi o quanto o mercado livre é eficiente, especialmente para indústrias e grandes consumidores, mas, ao mesmo tempo, extremamente complexo, pouco difundido e distante do pequeno e médio consumidor”, ressaltou ele.
Foi então que Henn decidiu fundar a Voltera no começo de 2020, em meio a pandemia da Covid-19. “Vamos completar seis anos agora em março de 2026. O modelo de geração distribuída e o net metering foram uma inspiração conceitual, principalmente pela forma como simplificaram a redução de custos para o consumidor”, explicou.
Naquele momento, havia a expectativa de abertura do mercado para consumidores de média tensão já em 2020, o que acabou sendo postergado para 2024. Ainda assim, o empresário decidiu estruturar uma empresa preparada para levar o Mercado Livre de Energia à casa das pessoas e a pequenos negócios, sem a necessidade de investimentos em ativos próprios ou de vínculo com fazendas solares.
Carteira operacional
Com o atraso da abertura do mercado varejista, a Voltera iniciou sua atuação como gestora de energia para clientes de grande porte. Hoje, atende desde grandes grupos, como Kalunga e diversas franquias do McDonald ‘s, até pequenos consumidores, como padarias e quadras esportivas.
Atualmente, a carteira operacional da empresa gira entre 30 e 35 MW médios comercializados por mês, distribuídos em cerca de 350 unidades consumidoras ativas. Segundo Henn, há ainda aproximadamente 50 unidades em processo de portabilidade.
“Em termos de economia gerada, já entregamos algo entre R$ 50 milhões em 2025. Para 2026, a meta é chegar próximo de R$ 200 milhões em economia acumulada para os clientes. Somos uma empresa enxuta: 18 colaboradores atendendo cerca de 400 unidades consumidoras, o que demonstra a escalabilidade do modelo. Já ultrapassamos 50 mil toneladas de CO₂ evitadas e atingimos o break-even operacional no meio de 2023, sendo geradores de caixa desde então”, disse o executivo.
Para mitigar riscos, a comercializadora independente não realiza operações de trade nem assume risco direcional. A atuação é baseada em contratos casados com geradores, como forma de proteção contra a volatilidade de preços.
“Alguns problemas recentes vieram de empresas mal posicionadas, que apostaram em cenários de preços estáveis após anos de baixa volatilidade. O mercado de energia é extremamente rápido e abrupto nas mudanças. Quando essas apostas não funcionam, o impacto é grande e prejudica a percepção do mercado como um todo”, avaliou.
Mercado Livre de Energia em 2026
Para 2026, diante do cenário de preços elevados da energia, Henn acredita em um cenário de menor atratividade para a migração de novos consumidores, o que tende a desacelerar o ritmo de crescimento.
“Além disso, tivemos o fim do desconto da energia incentivada no fio, que representava cerca de 50% da economia para muitos consumidores. Com preços mais altos no mercado livre e menos incentivo regulatório, a atratividade diminui. Por outro lado, vemos com muito otimismo a futura abertura da baixa tensão. Quando isso acontecer, o consumidor poderá escolher entre mercado livre. A depender do nível de preços, isso pode acelerar – ou postergar – uma nova onda de migração.”
Apesar do cenário desafiador, a empresa mantém uma visão positiva sobre o futuro do mercado livre, que deve começar a se abrir para consumidores de baixa tensão a partir de 2027. “Voltera quer fazer parte dessa transformação. Estamos investindo em tecnologia, pessoas e estrutura para acompanhar o que considero a mudança mais estrutural do setor elétrico nos últimos 20 anos, similar ao que vimos em telecomunicações e no sistema financeiro.”
“O setor elétrico é altamente regulado, mas extremamente dinâmico. A última reforma trouxe avanços importantes, como a redução de subsídios cruzados e a definição de um cronograma de abertura. Temos desafios relevantes pela frente, como o curtailment, que deve acelerar a entrada de sistemas de armazenamento no Brasil. Mas, acima de tudo, estamos caminhando para um modelo em que o consumidor passa a ser protagonista”, concluiu.
Todo o conteúdo do Canal Solar é resguardado pela lei de direitos autorais, e fica expressamente proibida a reprodução parcial ou total deste site em qualquer meio. Caso tenha interesse em colaborar ou reutilizar parte do nosso material, solicitamos que entre em contato através do e-mail: redacao@canalsolar.com.br.