Nos anos 1980, uma frase ecoou por todo o país e mudou o imaginário brasileiro: “Eu quero a minha Caloi”. Mais do que um slogan publicitário, foi um marco cultural que popularizou a bicicleta, criou um mercado e consolidou a força de uma indústria nacional.
Hoje, quatro décadas depois, um novo desejo começa a ganhar corpo nos lares brasileiros: “Eu quero a minha bateria.”
Se antes o símbolo de autonomia era pedalar livremente pelas ruas, agora o apelo é por autonomia energética, segurança e continuidade dentro de casa. A bateria residencial deixou de ser um experimento tecnológico para se tornar uma necessidade familiar emergente.
Enquanto o Brasil ultrapassa 3,6 milhões de telhados solares, um enorme potencial de resiliência, inteligência e valor sistêmico permanece subaproveitado, aguardando o próximo passo decisivo.
Esse passo já não é teórico. A experiência da Austrália, onde uma em cada três casas com solar opera com bateria, e a inovação de modelo da Octopus Energy no Reino Unido, que transforma consumidores em provedores de serviços à rede, mostram que esse futuro não é distante.
Ele já está em operação. São provas concretas de que um desejo individual (“eu quero a minha”) pode se converter em uma transformação coletiva que fortalece todo o sistema elétrico.
Este artigo propõe que o Brasil não apenas acompanhe essa transição, mas a lidere na América Latina. Para isso, será preciso ir além do produto e construir um ecossistema completo: regulação moderna, tecnologia amigável ao usuário, modelos de negócio inovadores e uma cadeia de valor preparada para escalar.
É o mesmo espírito que inspirou iniciativas como “Sempre Luz” na Amazônia, empoderar famílias enquanto se fortalece a infraestrutura nacional.
A era do consumidor passivo terminou. A era do prossumidor — aquele que gera, armazena e gerencia sua energia, já começou.
O benchmark internacional: o futuro que já chegou
Austrália: massificação por regulação inteligente e necessidade concreta. A Austrália construiu o ecossistema mais maduro de armazenamento residencial do mundo. Impulsionado por incentivos estaduais, uma indústria local dinâmica e eventos climáticos extremos, o país saiu praticamente do zero para mais de 250 mil sistemas de baterias instalados em 2025.
O ponto-chave não foi apenas o apoio inicial, mas criar um mercado que reconhece valor sistêmico. Programas de Virtual Power Plants (VPPs), como os do governo da Austrália do Sul, agregam milhares de baterias domésticas para fornecer serviços essenciais de estabilidade à rede, mostrando que o armazenamento distribuído pode ser parte estruturante do sistema elétrico.
Reino Unido e Octopus Energy: reescrevendo as regras do jogo
Enquanto a Austrália priorizou a difusão do hardware, o Reino Unido inovou no modelo de negócio. A Octopus Energy identificou que a principal barreira não era apenas o custo da bateria, mas sua complexidade operacional para o consumidor médio.
A resposta foi o Octopus Powerloop, um modelo de Bateria como Serviço (BaaS). O cliente acessa a bateria por meio de um modelo simplificado; a Octopus opera o ativo via software inteligente, agrega os sistemas em uma VPP e utiliza essa capacidade para apoiar o equilíbrio do grid nacional. O consumidor passa a ser parte ativa do sistema, sem precisar gerenciar a operação técnica.
É a consolidação do papel do prossumidor no centro do novo desenho energético.
O potencial brasileiro: uma oportunidade única e urgente
O Brasil reúne condições excepcionais para liderar essa transição: alta radiação solar, um parque robusto de geração distribuída e uma necessidade crescente de resiliência elétrica. Mas o verdadeiro potencial vai além das casas com telhado solar.
Escala com impacto sistêmico
Estudos da ABSolar indicam que equipar 20% da frota atual de GD com armazenamento poderia criar mais de 10 GWh de capacidade distribuída, equivalente a múltiplas usinas hidrelétricas reversíveis, porém descentralizada, rápida de implantar e próxima aos centros de consumo.
O grande mercado oculto: mais de 7 milhões de apartamentos
Milhões de brasileiros vivem em edifícios residenciais verticais, sem possibilidade de instalar painéis solares individuais. Para esse público, a bateria deixa de ser “acessório do solar” e passa a ser um kit antiapagão: um ativo doméstico capaz de garantir iluminação, conectividade, refrigeração e funcionamento de equipamentos essenciais durante interrupções de energia.
Em cidades densas, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, esse mercado representa uma das maiores oportunidades de resiliência energética do país.
Resiliência com valor tangível:
Para famílias e pequenos negócios, a bateria significa continuidade operacional para home offices, clínicas, escolas, comércios e serviços essenciais, além de proteção contra crises hídricas e eventos climáticos extremos. Deixa de ser luxo e passa a ser infraestrutura crítica do lar.
O verdadeiro desafio: construir o ecossistema, não apenas vender o produto
A barreira para um “Brasil com baterias” não é tecnológica. É sistêmica. Cinco frentes precisam avançar em paralelo:
Mentalidade
Superar a visão da bateria como “custo extra no projeto solar” e reconhecê-la como infraestrutura doméstica e ativo de resiliência.
Regulação visionária
ANEEL e MME devem avançar em três pilares:
- Regras claras para VPPs e agregação de recursos distribuídos.
- Reconhecimento formal do valor do armazenamento para o sistema elétrico.
- Processo de conexão e homologação padronizado, digital e ágil para baterias residenciais e comerciais.
Tecnologia e experiência do usuário:
Sistemas plug-and-play, com apps intuitivos que mostrem em tempo real autonomia disponível, tempo de backup e contribuição para a estabilidade da rede.
Modelos de negócio inovadores:
O futuro passa por:
- Assinaturas (BaaS);
- Financiamento verde de longo prazo;
- Modelos de compartilhamento de valor via VPPs.
Cadeia de valor preparada:
Capacitar instaladores e integradores não só tecnicamente, mas na venda de valor e no pós-venda desse novo modelo.
Conclusão: o momento de dar o próximo passo é agora
Assim como a campanha da Caloi nos anos 80 transformou um desejo individual em um movimento nacional, o Brasil tem diante de si a oportunidade de transformar “Eu quero a minha bateria” em um marco para a transição energética.
A diferença é que, desta vez, o impacto vai além do comportamento do consumidor: envolve estabilidade do sistema elétrico, resiliência urbana, descentralização de infraestrutura e fortalecimento da indústria nacional, incluindo fabricantes brasileiros capazes de liderar essa nova etapa.
O sempre luz foi a visão. agora, é hora de execução. A fronteira está aberta. O primeiro passo é mudar a mentalidade: deixar de ver a bateria como produto acessório e entendê-la como a chave de um novo mercado de energia, mais democrático, resiliente e inteligente.
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