Variações de tensão de curtíssima duração, que duram milissegundos, têm se tornado uma preocupação crescente entre grandes consumidores de energia elétrica no Brasil.
Segundo a Abrace Energia, entidade que representa consumidores industriais eletrointensivos, a percepção de seus associados é de que a qualidade da energia vem piorando nos últimos anos, tanto nas redes de distribuição quanto na transmissão.
De acordo com Victor Iocca, diretor de Energia Elétrica da Abrace, há uma década era raro que grandes consumidores conectados à rede básica reclamassem da qualidade da energia.
“O principal problema são as variações de tensão de curta duração. Em muitos casos, esses eventos nem sequer são medidos”, explica.
O resultado é um tipo de perturbação quase invisível do ponto de vista regulatório, mas com efeitos concretos e, muitas vezes, severos sobre processos industriais contínuos.
Prejuízos à indústria
Embora durem poucos milissegundos, essas oscilações são suficientes para provocar o desligamento de sistemas eletrônicos sensíveis, travar linhas de produção e causar perdas que se estendem por horas ou até dias.
Iocca relata que processos industriais em linha são particularmente vulneráveis. Uma falha pontual, por exemplo, pode exigir a paralisação de toda uma planta.
Entre os setores mais afetados estão as indústrias de alumínio, vidro e química. No caso do alumínio, uma variação abrupta de tensão pode travar sistemas eletrônicos e provocar o transbordamento de cubas com produtos químicos altamente perigosos, elevando não apenas o prejuízo econômico, mas também o risco humano.
Na indústria do vidro, interrupções de curtíssima duração podem levar à perda de produção e, em situações extremas, à inutilização completa de fornos industriais, cujo custo chega a milhões de reais.
Apesar da gravidade, esses eventos não aparecem nas estatísticas tradicionais do setor elétrico. “Não existe hoje um indicador nacional que mostre como estão as variações de curtíssima duração, nem na transmissão nem na distribuição”, aponta Iocca. Na opinião do executivo, trata-se de uma lacuna relevante na regulação brasileira.
Providências
Diante desse cenário, a Abrace tem buscado levar o tema aos reguladores e ao ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), defendendo avanços na forma como a qualidade da energia é monitorada e regulada.
Segundo o diretor, embora haja alguma evolução na distribuição — como o direito do consumidor de solicitar a instalação de medidores de qualidade —, ainda não existem parâmetros regulatórios que permitam penalizar concessionárias pelas microvariações de tensão.
Na transmissão, a situação é considerada ainda mais preocupante porque não há regras para a apuração desse tipo de evento. Na visão da entidade, isso cria um descompasso entre o impacto real sentido pelos consumidores e a forma como a qualidade do serviço é avaliada oficialmente.
Estudos encomendados pela Abrace, inclusive com especialistas acadêmicos, apontam “gaps” relevantes no arcabouço regulatório atual.
Mitigação
Enquanto a regulação não avança, muitas empresas têm sido levadas a buscar soluções internas para reduzir sua vulnerabilidade. Uma das estratégias é a reavaliação das proteções elétricas, tornando os sistemas mais tolerantes a oscilações muito rápidas.
Em termos práticos, isso significa ajustar equipamentos para que não desliguem automaticamente diante de variações de poucos ciclos elétricos. Outra alternativa, cada vez mais considerada, é o uso de cogeração e operação em “ilha”.
Nesse modelo, plantas industriais que possuem geração própria passam a operar de forma independente da rede pública quando ocorre uma falha externa, mantendo a produção ativa. Mais recentemente, o investimento em sistemas de armazenamento de energia, especialmente bancos de baterias, tem ganhado espaço.
Inicialmente adotadas por razões econômicas, como resposta a sinais tarifários, essas soluções vêm sendo incorporadas também como ferramentas de proteção da qualidade da energia. “As baterias têm resposta muito rápida e fazem sentido quando se avalia o custo de perder horas ou dias de produção por causa de uma variação de milissegundos”, observa Iocca.
Ainda assim, ele reconhece que há limites. Se a qualidade da rede em determinada região se deteriora de forma estrutural, não há solução interna capaz de eliminar completamente o problema.
O que diz a regulação?
No Brasil, a responsabilidade pela qualidade da energia fornecida é das distribuidoras, e as regras são definidas pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), principalmente por meio dos PRODIST (Procedimentos de Distribuição). A regulamentação distingue dois pilares: a qualidade do produto e a qualidade do serviço.
A qualidade do produto refere-se às características da eletricidade entregue, como níveis de tensão, frequência e distorções harmônicas. As distribuidoras devem manter a tensão dentro de faixas classificadas como adequadas, precárias ou críticas, além de assegurar a frequência próxima de 60 Hz.
Já a qualidade do serviço está relacionada à continuidade do fornecimento e é medida por indicadores como DIC, FIC e DMIC, que avaliam duração e frequência de interrupções.
Quando esses limites são ultrapassados, o consumidor tem direito a compensações financeiras automáticas na conta de luz. A regulação também prevê o ressarcimento por danos a equipamentos causados por falhas na rede.
No entanto, como ressalta a Abrace, essas normas não contemplam adequadamente as variações de curtíssima duração, justamente aquelas que mais afetam processos industriais sensíveis.
Para a entidade, esse é o próximo desafio do setor elétrico brasileiro: alinhar a regulação à realidade tecnológica e operacional das cargas modernas, sob pena de comprometer a competitividade da indústria nacional.
Todo o conteúdo do Canal Solar é resguardado pela lei de direitos autorais, e fica expressamente proibida a reprodução parcial ou total deste site em qualquer meio. Caso tenha interesse em colaborar ou reutilizar parte do nosso material, solicitamos que entre em contato através do e-mail: redacao@canalsolar.com.br.