As mudanças regulatórias e a disparada dos preços de energia vêm desacelerando o crescimento do mercado livre, movimento que deve ganhar ainda mais intensidade ao longo de 2026.
O último balanço divulgado pela CCEE mostra que 20.586 consumidores deixaram o mercado cativo entre janeiro e novembro de 2025 – uma queda de 13,13% na comparação com o mesmo período de 2024.
Em novembro de 2025, apenas 915 cargas migraram para o mercado livre, cerca de um terço do fluxo registrado em janeiro do mesmo ano, quando o movimento ainda seguia aquecido.
O contraste com 2024 é evidente. Naquele ano, o número de consumidores no mercado livre cresceu 236% em 12 meses, com 26.834 cargas migradas. O fluxo recorde foi impulsionado pela combinação de preços historicamente baixos de energia e pela flexibilização das regras do mercado livre, que, a partir de janeiro de 2024, passou a permitir o acesso de todos os consumidores de alta tensão.
Já 2025 começou em ritmo forte, com 3.020 cargas migrando apenas em janeiro, mas os meses seguintes registraram um fluxo gradualmente decrescente.
Segundo Vinícius Ragazi, especialista de estudos de mercado da consultoria Envol, a desaceleração é consequência direta do novo patamar de preços. Entre 2022 e 2024, os valores no mercado à vista giravam em torno de R$ 50,00 a R$ 60,00/MWh, o que estimulava a migração.
A partir de setembro de 2024, porém, os preços avançaram de forma expressiva, superando a faixa de R$ 300/MWh.
Entre os fatores que contribuíram para esse movimento está o aumento da percepção de risco no setor, após a quebra de duas comercializadoras – a 2W Energia e a Golden Energia.
Além disso, desde janeiro de 2025, o setor passou a operar com mudanças relevantes nos modelos computacionais de formação de preços, como a entrada do Newave híbrido e a atualização do CVaR.
O efeito prático foi um viés mais conservador, pressionando o PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) para cima e reduzindo as margens de economia geradas pela diferença de custos entre o mercado cativo e o mercado livre.
“Assim, quando há aumento do preço do PLD, somado à aproximação desse valor aos preços praticados pelas principais distribuidoras e a um cenário de maior aversão ao risco por parte do mercado como um todo, o resultado é a redução do potencial de migração de novos consumidores”, analisou Ragazi.
Ano desafiador para o mercado livre
O especialista avalia que 2026 será ainda mais desafiador em função das mudanças nas regras de contratação de energia incentivada. Com a publicação da Lei 15.269/2025, novos consumidores passaram a ficar impedidos de acessar os descontos na TUSD (Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição) associados à energia incentivada, reduzindo ainda mais a atratividade econômica do mercado livre.
A esse cenário se soma a frustração das expectativas climáticas. Desde a abertura do período úmido, em outubro, o regime de chuvas ficou abaixo do padrão histórico, especialmente no Sudeste, reforçando a perspectiva de preços elevados em 2026.
Essa leitura é corroborada por análises da Dcide e da BBCE. Segundo a BBCE, a conjuntura climática levou a uma alta superior a 20% nos preços de energia, com destaque para os ativos mensais de abril (+21,30%) e maio (+19,31%), além do produto do primeiro semestre de 2026 (+16,68%) e do contrato anual de 2026 (+15,60%).
Já a Dcide aponta que o preço da energia convencional para o período de fevereiro a abril está na faixa de R$ 340/MWh, com variação semanal de 21,74%, mensal de 28,89% e alta acumulada de mais de 301% no ano. No caso da energia incentivada, os preços para o mesmo intervalo giram em torno de R$ 270/MWh, com avanço anual de 218,68%.
Maior competição entre comercializadoras
Apesar do ambiente adverso, Ragazi avalia que a migração não deve estagnar completamente em 2026. A expectativa é de maior competição entre comercializadoras, com ajustes de estratégia.
“O que enxergamos é que algumas casas devem, sim, abrir mão de parte das suas margens. Seja pela retomada de contratos antigos, seja no caso das varejistas que contam com parques geradores em sua estrutura, a tendência é uma flexibilização maior das margens em relação ao PLD ou aos preços de mercado, como estratégia para ganhar participação. Esse movimento já considera, inclusive, a perspectiva de abertura do mercado para consumidores de baixa tensão.”
Dados da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) reforçam que o interesse pelo ambiente livre segue relevante: pelo menos 7 mil cargas já comunicaram às distribuidoras a intenção de migrar em 2026.
Além disso, o especialista projeta um aumento da migração entre comercializadoras varejistas. Com maior maturidade, os consumidores tendem a comparar contratos, avaliar riscos e buscar melhores condições comerciais.
“A migração do mercado regulado para o mercado livre tende a perder fôlego. Em contrapartida, pode crescer a troca de varejistas. A experiência recente já mostra um volume significativo desse movimento, que pode se intensificar ao longo de 2026”, concluiu Ragazi.
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