Em 9 de janeiro o governo chinês anunciou o fim do reembolso de 9% do VAT (value-added tax) para as exportações de módulos fotovoltaicos.
Contudo, desde meados de dezembro de 2025 o mercado vem sentindo uma alta pressão para aumento nos preços dos equipamentos, resultando até o presente momento em aproximadamente 30% de incremento. Somando-se aos 9% do VAT podemos chegar até próximo de 40% de aumento em 3 meses.
Esse é um movimento de preços histórico, sem precedentes nessa indústria, que acabou se acostumando com consecutivas quedas de preços resultantes do frenético aumento de capacidade em toda cadeia produtiva originando um fenômeno que chamamos de over capacity.
Ou seja, atualmente se tem mais capacidade produtiva instalada do que demanda de mercado. Essa razão vem se mantendo em aproximadamente 3x, de 2024 para cá.
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Fatores que estão redefinindo o preço dos módulos fotovoltaicos
Diante de um cenário tão incerto e volátil a melhor abordagem que podemos ter é a de nos atermos aos dados e realizarmos uma análise multifatorial para decompormos os fatores que estão redefinindo a dinâmica de preços dos módulos fotovoltaicos.
Pressão altista
Prata
Desde o início de 2025, a prata passou por uma valorização extraordinária: depois de fechar 2025 em cerca de US$ 71,99/onça, após alta anual de aproximadamente 167%, o metal ainda avançou mais 60% entre 2 e 29 de janeiro de 2026, quando atingiu o recorde de US$ 118,45/onça na LBMA; mesmo após a forte correção recente, a prata continua muito acima dos níveis de início de 2025.
Essa escalada foi sustentada por déficits de oferta, entrada de capital financeiro e demanda industrial robusta, especialmente do setor fotovoltaico, onde a pasta de prata já representa até 30% do custo de fabricação da célula.
Cobre
Desde o início de 2025, o cobre acumulou forte valorização e se consolidou como um dos principais vetores de pressão de custo para a cadeia fotovoltaica. Após operar próximo de US$ 9 mil por tonelada no começo de 2025, o metal avançou ao longo do ciclo e chegou a superar US$ 14 mil/t em janeiro de 2026, antes de uma correção posterior; na comparação janeiro contra janeiro, isso representa uma alta superior a 55%
O movimento foi sustentado por interrupções relevantes de oferta, especialmente em minas da Indonésia, Chile e Congo, levando o International Copper Study Group (ICSG) a revisar o mercado global refinado de uma expectativa de superávit de 209 mil toneladas para um déficit de 150 mil toneladas em 2026.
Ao mesmo tempo, o próprio ICSG reduziu sua projeção de crescimento da produção de mina em 2025 de 2,3% para 1,4%, reforçando a percepção de aperto estrutural. Como o cobre é insumo crítico para cabos, barramentos, inversores, transformadores e infraestrutura de conexão, essa alta se traduz em pressão disseminada ao longo de toda a cadeia solar.
Câmbio
Além das commodities, o câmbio entre dólar e renminbi passou a exercer pressão altista adicional sobre os módulos fotovoltaicos exportados pela China. O yuan valorizou 4,5% frente ao dólar em 2025, seu melhor desempenho anual desde 2020, e seguiu ganhando força no início de 2026, acumulando alta adicional de 0,5% a 0,7% em janeiro e levando a moeda ao maior nível em 32 meses.
Em termos médios anuais, o USD/CNY saiu de 7,19 em 2025 para cerca de 6,93 em 2026, enquanto o mercado chegou a operar na região de 6,89–6,90 por dólar em fevereiro e março.
Essa apreciação cambial tem efeito direto sobre a formação de preços da indústria solar chinesa, já que grande parte de sua estrutura de custos, incluindo mão de obra, energia, despesas fabris e parcela relevante dos insumos processados localmente, é denominada em renminbi.
Assim, quando a moeda chinesa se fortalece, o custo em dólar das exportações sobe mesmo sem mudança física no custo dos insumos. Em um setor em que os fabricantes já operam com margens comprimidas, a valorização do RMB reduz a competitividade externa e aumenta a necessidade de reajustes, funcionando como mais um vetor altista para os preços internacionais dos módulos.
Pressão baixista
Polissilício
No polissilício, a dinâmica foi oposta. Matéria-prima base da cadeia solar, o insumo permaneceu em níveis historicamente deprimidos ao longo de 2025 e início de 2026, refletindo excesso de oferta, estoques elevados e competição intensa entre os grandes produtores chineses.
Segundo a Bernreuter Research, o preço spot global chegou a US$ 5,65/kg em março de 2025 e estava em US$ 6,36/kg em 18 de março de 2026, o que representa apenas uma recuperação marginal de cerca de 12,6% sobre uma base extremamente baixa e ainda muito distante dos níveis observados nos ciclos anteriores de escassez.
O pano de fundo segue sendo a expansão agressiva de capacidade em ritmo superior ao crescimento da demanda, mesmo com o mercado fotovoltaico global ainda projetado em 720 GW a 750 GW de novas adições em 2025.
Na prática, isso significa que o polissilício continuou funcionando mais como fator de alívio do que de pressão altista sobre os módulos, ajudando a amortecer parcialmente o impacto da valorização de metais e de outros componentes da cadeia.
O fiel da balança
Em 2026, o principal ponto de inflexão para o mercado fotovoltaico não está apenas dentro da própria indústria solar, mas na interação entre forças externas de custo e a intervenção do Estado chinês sobre a oferta.
De um lado, os principais vetores altistas hoje não são propriamente “criados” pelo setor solar: cobre e prata são commodities globais, com preços formados em mercados internacionais amplos, influenciados por restrições de oferta, fluxos financeiros, tensões geopolíticas, eletrificação da economia, expansão de redes, veículos elétricos, data centers e investimentos em infraestrutura energética.
Em outras palavras, trata-se de uma pressão de custo exógena à indústria fotovoltaica, com tendência de permanecer em patamares elevados ou estruturalmente mais altos mesmo que a demanda por módulos siga aquém da capacidade instalada.
Por outro lado, o setor solar continua convivendo com um desequilíbrio próprio: a oferta de módulos, células, wafers e polissilício ainda supera com folga o consumo global, o que limita a capacidade de repasse integral dessas pressões altistas aos preços finais. É justamente nesse ponto que o governo chinês se torna o fiel da balança.
Como maior centro manufatureiro da cadeia solar mundial, Pequim é hoje o único agente com escala e instrumentos para arbitrar essa contradição, seja por meio de medidas para disciplinar a concorrência predatória, seja pela indução de consolidação via M&A no upstream, seja pela retirada de incentivos que alimentavam a guerra de preços, como os ajustes no regime de VAT das exportações.
Assim, mais do que a existência de custos mais altos, que já é uma realidade, o que definirá a intensidade e a velocidade de recomposição dos preços dos módulos será o grau de intervenção chinesa sobre a oferta e sua disposição de acelerar a racionalização de um mercado ainda estruturalmente super ofertado.
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