A Abraceel (Associação Brasileira de Comercialização de Energia Elétrica) manifestou preocupação com a escalada dos preços no Mercado Livre de Energia, sobretudo com os fatores estruturais que vêm sustentando esse movimento.
Segundo a entidade, há um “desarranjo setorial” que tem afastado novos investimentos em geração, especialmente diante de inconsistências observadas nos modelos de formação de preços.
No Ambiente de Contratação Livre, os valores estão fortemente atrelados ao PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), indicador calculado a partir de modelos matemáticos, mas também influenciado por decisões operacionais do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e diretrizes do CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico).
Desde janeiro de 2025, a adoção do chamado Newave híbrido (modelo utilizado no planejamento da operação do sistema) tornou a precificação mais conservadora e sensível ao risco, pressionando o PLD.
Na prática, isso tem resultado em maior volatilidade e preços mais elevados, mesmo em cenários com níveis confortáveis de reservatórios. Em momentos de incerteza hidrológica, os modelos tendem a sinalizar escassez, elevando os valores da energia.
Os dados da Abraceel refletem esse movimento. Entre janeiro de 2024 e março de 2026, os contratos de longo prazo registraram alta de 59%, passando de R$ 147/MWh para R$ 233/MWh.
No curto prazo, a escalada foi ainda mais intensa: os preços trimestrais subiram 121%, de R$ 143/MWh para R$ 317/MWh. Já o PLD avançou 84% no período, saindo de R$ 129/MWh para R$ 236/MWh.
Além das mudanças nos modelos, a entidade aponta outros fatores de pressão, como a redução da oferta de energia, episódios de curtailment (cortes de geração renovável) e uma mudança de estratégia por parte dos geradores.
Segundo a associação, algumas empresas têm priorizado a venda no mercado de curto prazo, aproveitando preços mais elevados, em vez de firmar contratos de longo prazo. Ao mesmo tempo, casos recentes de quebra de comercializadoras tornaram os geradores mais seletivos na escolha de clientes.
“Cerca de um terço dos contratos de consumidores têm prazo de dois a seis anos e, com esse patamar de preços, associado à crise de oferta e à escassez de energia nova, esses consumidores livres ficarão expostos a preços potencialmente impagáveis”, afirma Rodrigo Ferreira, presidente da Abraceel.
Segundo ele, é preciso um olhar atento, inclusive da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), para “evitar artificialidades na formação de preços, como exercício de poder de mercado e sobrecustos operativos”, ressalta.
O tema ganhou ainda mais relevância após reportagem da CNN Brasil indicar que comercializadoras independentes avaliam acionar o Cade diante da deterioração das condições de liquidez no mercado livre.
O alerta ocorre em um momento decisivo para o setor. A abertura do mercado prevê a entrada de milhões de novos consumidores a partir de 2027 e 2028. Nesse contexto, a manutenção de preços elevados pode comprometer a atratividade do ambiente livre justamente no momento de sua expansão.
Segundo Ferreira, com o mercado livre já respondendo por cerca de 42% da demanda nacional e com a perspectiva de universalização do acesso, prevista na Lei 15.269/2025, o debate sobre formação de preços ganha ainda mais relevância.
“É fundamental que governo e sociedade acompanhem de perto a dinâmica dos preços de energia, sob risco de inviabilizar tanto o setor produtivo quanto a própria política de abertura do mercado, com impactos diretos sobre a inflação”, conclui.
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