O Chile é frequentemente citado como um dos países com o setor elétrico mais liberalizado da América Latina. Desde as reformas iniciadas nos anos 1980, o país adotou um modelo baseado em ampla participação privada, competição na geração e comercialização e um arcabouço regulatório estável.
Ao longo das últimas duas décadas, esse modelo facilitou uma rápida transformação da matriz elétrica, com forte crescimento das fontes renováveis, especialmente solar e eólica.
Em 2025, solar e eólica responderam por aproximadamente 38% da energia injetada no sistema, enquanto o conjunto das renováveis, incluindo hidrelétricas, alcançou cerca de 66% da geração total, consolidando recorde histórico de participação.
Sistema historicamente isolado e hoje integrado
Por muitos anos, o Chile operou com sistemas elétricos separados, o que limitava a eficiência do despacho e a segurança do fornecimento. Essa fragmentação foi superada com a interligação dos principais sistemas do país, formando o SEN (Sistema Eléctrico Nacional), operado de forma centralizada.
A integração permitiu melhor aproveitamento das fontes renováveis e maior equilíbrio entre regiões geradoras e centros de consumo.
Matriz em rápida transição
Historicamente dependente de combustíveis fósseis importados, o país acelerou investimentos em energias renováveis nos últimos anos. Atualmente, o parque gerador é composto por:
- Usinas solares e eólicas em larga escala;
- Hidrelétricas;
- Usinas termelétricas a gás natural e carvão (ainda relevantes, mas com participação em declínio).
A abundância de radiação solar no deserto do Atacama posicionou o Chile como líder regional em geração fotovoltaica.
Geração competitiva
A geração de energia é realizada quase integralmente por empresas privadas, que competem no mercado. Não há empresa estatal dominante no segmento de geração.
Os geradores comercializam energia por meio de contratos de longo prazo (PPAs) e no mercado de curto prazo (spot), conforme regras regulatórias vigentes.
Coordinador Eléctrico Nacional
A operação do sistema elétrico e a coordenação do mercado ficam a cargo do Coordinador Eléctrico Nacional, entidade técnica e independente responsável por:
- Despachar as usinas;
- Garantir a segurança e continuidade do fornecimento;
- Administrar o mercado de curto prazo;
- Planejar a operação do sistema.
O órgão atua de forma estritamente técnica, sem função comercial.
Transmissão aberta e regulada
A transmissão é tratada como serviço regulado, com acesso aberto às redes. As linhas são operadas por concessionárias privadas sob regime tarifário definido pelo regulador.
O planejamento da expansão é centralizado, com foco em acompanhar o crescimento das renováveis e reduzir gargalos que hoje provocam restrições operacionais.
Distribuição para consumidores regulados
A distribuição é feita por concessionárias privadas, responsáveis pelo atendimento aos consumidores finais. O mercado é dividido entre:
- Consumidores regulados, atendidos pelas distribuidoras;
- Consumidores livres, que negociam diretamente seus contratos de fornecimento.
Regulação e política energética
A política energética é definida pelo Ministério de Energia do Chile. A regulação econômica e tarifária é responsabilidade da CNE (Comisión Nacional de Energía), que estabelece metodologias de preços, tarifas e normas do setor.
Formação de preços e tarifas
As tarifas refletem os custos de geração, transmissão e distribuição. No segmento de geração, os preços são influenciados pela dinâmica de mercado, o que reduz a necessidade de subsídios diretos e aumenta a previsibilidade para investidores.
Desafios e perspectivas
Apesar da liderança renovável, o setor enfrenta desafios estruturais relevantes:
- Curtailment de energia solar, especialmente no norte do país, devido a limitações de transmissão;
- Necessidade de expansão e modernização da rede;
- Integração de sistemas de armazenamento em larga escala;
- Adequação do mercado para maior flexibilidade operacional.
O Chile mantém a meta de ampliar ainda mais a participação das renováveis na matriz até 2030, o que exigirá investimentos contínuos em infraestrutura e soluções de armazenamento
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