Há um dado que merece ser celebrado — e entendido. Foi publicada no dia 12 de fevereiro, para consulta pública pelo Ministério de Minas e Energia, a minuta do PDE 2035 (Plano Decenal de Expansão de Energia 2035), e o planejamento oficial do setor elétrico passou a tratar a geração distribuída (energia solar nos telhados e pequenos sistemas conectados à rede de distribuição) como premissa, não como rodapé.
O documento, elaborado pela EPE, projeta forte expansão dessa energia próxima do consumo na próxima década e indica que o resultado depende do desenho regulatório. Em linguagem direta: o Brasil reconhece que a energia produzida “na ponta”, perto de onde é consumida, já é parte estrutural do sistema.
No mundo, isso ainda é raro. Na maioria dos países, por desenho de mercado, contratação e incentivos, a expansão é dominada por grandes projetos centralizados — mais fáceis de financiar, contratar e operar sob uma lógica tradicional de utilities.
Há exceções (Austrália e partes dos EUA) onde a geração distribuída ganhou escala e obrigou a rede a evoluir. O Brasil entra nessa conversa com um agravante positivo: é um país continental, e o valor social de produzir energia perto do consumo — com menos exposição a gargalos e prazos longos — tende a ser maior.
Chegar aqui foi fruto de disputa e persistência. O marco legal da geração distribuída, sancionado no governo Bolsonaro, trouxe previsibilidade regulatória a um mercado em expansão e reduziu incertezas.
A partir dali, o tema ganhou espaço em audiências públicas e no debate nacional. O INEL participou dessa trajetória de advocacia técnica: insistiu que geração distribuída não é “moda”, é infraestrutura distribuída — com potencial de ampliar autonomia do consumidor, acelerar a transição energética e reduzir vulnerabilidades do sistema.
Mas comemorar não significa ignorar a próxima etapa. Quando a geração distribuída chega a dezenas de gigawatts, a pergunta deixa de ser “instala ou não instala?” e vira: como o sistema opera com isso?
A rede foi desenhada para energia indo “da usina para a casa”. Agora precisa aprender a funcionar com energia também indo “da casa para a rede”. Isso exige regras para qualidade de energia, coordenação de proteção, medição, dados e sinal econômico — para evitar improviso e conflito.
É aqui que o debate fica realmente importante para quem vive nas cidades. O passo decisivo é destravar armazenamento e coordenação: baterias atrás do medidor e soluções agregadas podem deslocar consumo, reduzir picos, aumentar resiliência e tornar a geração distribuída mais útil ao sistema.
O ponto não é “substituir a rede”, mas fazer a rede funcionar melhor, remunerando atributos (flexibilidade, redução de pico, serviços) e criando mecanismos para empilhamento de receitas, de forma transparente.
O consumidor percebe isso na conta e no serviço: tarifa mais racional, previsível e fornecimento mais confiável. Telhado, bateria, medidor inteligente e tarifa bem desenhada podem virar um pacote de eficiência e segurança — em vez de um motivo recorrente de briga.
Se o Brasil acertar esse desenho regulatório e técnico, tem chance real de virar referência global de planejamento energético descentralizado em país continental — com o cidadão, e não apenas o megaprojeto, no centro da política energética.
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