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Artigo de Opinião

Energy as a Service: quem vai capturar o valor dos novos serviços energéticos?

Artigo analisa como a expansão solar e do mercado livre intensifica a competição por financiamento, tecnologia e consumidores

Energy as a Service: quem vai capturar o valor dos novos serviços energéticos?

Foto: Magnfic

O mercado brasileiro de energia solar está passando por uma transformação que vai além do crescimento da capacidade instalada. A venda de equipamentos e a instalação de sistemas fotovoltaicos representam apenas parte das oportunidades de negócios.

Segundo levantamento da Greener divulgado pelo Canal Solar em setembro de 2026, 53% dos integradores pesquisados já oferecem serviços de O&M (operação e manutenção), ante 45% no primeiro semestre de 2025. O movimento revela a diversificação das atividades e a busca por relacionamentos comerciais mais duradouros. Mas existe uma diferença importante entre ampliar o portfólio e transformar o modelo de negócios.

É nesse contexto que ganha relevância o Eaas (Energy as a Service), ou Energia como Serviço: um modelo no qual o consumidor pode contratar infraestrutura, tecnologia, operação e desempenho, muitas vezes com o investimento inicial realizado pelo prestador ou por parceiros financeiros.

Para os fornecedores, surgem oportunidades de contratos de longo prazo e receitas recorrentes. Ao mesmo tempo, aumentam as responsabilidades financeiras, técnicas e operacionais.

A questão central passa a ser: quem terá capacidade de financiar os projetos, administrar os riscos e capturar o valor econômico desses serviços?

Um mercado que vai além dos painéis solares

Segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética), o Brasil consumiu 566,7 TWh de eletricidade em 2025. A indústria respondeu por 199,3 TWh e o comércio por 104 TWh. Juntos, esses segmentos representaram aproximadamente 53,5% do consumo nacional.

A fonte solar também avançou, alcançando 64,8 GW de capacidade instalada ao final de 2025, sendo 44,7 GW de geração distribuída e 20,1 GW de geração centralizada.

Os números mostram a dimensão do mercado consumidor e a expansão da infraestrutura energética. Entretanto, o consumo nacional de eletricidade representa um indicador de escala, e não uma estimativa de faturamento do EaaS.

A oportunidade depende das necessidades dos consumidores e da capacidade de oferecer soluções técnica e financeiramente viáveis.

Uma indústria pode precisar de refrigeração, vapor e ar comprimido. Um supermercado depende da conservação de alimentos. Um centro logístico pode combinar geração solar, armazenamento e infraestrutura de recarga.

O cliente busca eficiência, previsibilidade financeira e continuidade operacional. A energia é um recurso essencial para alcançar esses resultados.

Da venda de equipamentos à contratação de resultados

No modelo convencional, o consumidor adquire equipamentos, financia sua instalação e assume os custos de operação e manutenção, diretamente ou por meio de contratos específicos.

No EaaS, uma empresa especializada pode estruturar o projeto, financiar os ativos, executar a instalação e administrar seu desempenho ao longo do contrato.

A remuneração pode estar vinculada à disponibilidade da infraestrutura, à utilização ou às economias efetivamente verificadas.

Esse conceito pode ser aplicado à geração solar, eficiência energética, climatização, armazenamento e mobilidade elétrica. As condições variam conforme a tecnologia, o perfil do consumidor e a distribuição de responsabilidades entre as partes.

A ausência de desembolso inicial pelo cliente também exige atenção: os custos de financiamento, operação, manutenção e riscos precisam estar incorporados à estrutura contratual.

Para os prestadores, a recorrência pode ampliar a previsibilidade das receitas, mas exige capacidade financeira, gestão de crédito, governança e administração de riscos.

Quem já está atuando nesse mercado?

O Brasil conta com empresas que oferecem diferentes modalidades de serviços energéticos. A GreenYellow utiliza o modelo Utility as a Service, integrando soluções de eficiência energética e infraestrutura, com contratos que podem incluir financiamento, aquisição e instalação dos ativos.

Em fevereiro de 2024, anunciou R$ 14,5 milhões em investimentos para modernização da iluminação de 38 lojas supermercadistas e um centro de distribuição, envolvendo aproximadamente 50 mil lâmpadas.

A EDP possui experiência em geração solar distribuída como serviço. Em divulgação institucional de 2023, informou que aproximadamente 0,9 GWp dos 1,6 GWp de capacidade solar distribuída instalados globalmente pelo grupo utilizavam o modelo As-a-Service, com investimento inicial assumido pela companhia e contratos de longo prazo.

A Comerc Energia desenvolve soluções de eficiência energética nas quais assume os investimentos e a implantação dos projetos, enquanto a remuneração ocorre por meio de parte das economias obtidas pelo consumidor.

Seu portfólio inclui aplicações em refrigeração, climatização, compressores, motores, caldeiras e infraestrutura elétrica.

A Enel X também apresenta modelos de energia solar como serviço. Em material institucional, a empresa descreve uma modalidade destinada a instalações fotovoltaicas acima de 1 MW, na qual assume o investimento, a operação e a manutenção, com pagamentos mensais realizados pelo consumidor.

Essas experiências demonstram a existência de diferentes estruturas comerciais, cada uma com características próprias de financiamento, remuneração e responsabilidade operacional.

A comparação entre elas exige observar o escopo dos contratos, a propriedade dos ativos e os riscos efetivamente assumidos.

Mais importante do que a denominação comercial utilizada é compreender quem financia a infraestrutura, quem responde pelo desempenho e como o valor econômico será distribuído.

Oportunidades para integradores e comercializadoras

Para os integradores solares, a expansão dos serviços representa uma oportunidade de desenvolver receitas além da instalação.

Monitoramento, manutenção, gestão de desempenho e eficiência energética podem ampliar o relacionamento com os consumidores.

Entretanto, oferecer O&M é apenas uma das possibilidades dentro de uma cadeia de serviços mais abrangente. Contratos que envolvem financiamento e garantias de desempenho exigem competências financeiras, técnicas e contratuais adicionais. A formação de parcerias pode facilitar essa evolução.

Integradores, fabricantes, comercializadoras, desenvolvedores e instituições financeiras podem assumir diferentes responsabilidades na mesma solução, compartilhando engenharia, financiamento, operação e relacionamento comercial.

A abertura do mercado livre amplia esse universo de oportunidades. Segundo a EPE, o ACL (Ambiente de Contratação Livre) respondeu por 253,7 TWh em 2025, equivalentes a 44,8% do consumo nacional.

A CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) registrou 21.707 migrações naquele ano, das quais 17.495 ocorreram sob representação de comercializadoras varejistas.

O Decreto nº 13.097, de 12 de agosto de 2026, estabeleceu a abertura do mercado livre para consumidores comerciais e industriais atendidos em tensão inferior a 2,3 kV a partir de 25 de novembro de 2027. Para os demais consumidores, a abertura está prevista para 25 de novembro de 2028, observadas as condições regulatórias aplicáveis.

Esse movimento amplia as possibilidades de integrar contratação de energia, inteligência de consumo, eficiência e serviços complementares, respeitando as regras específicas de cada modalidade, inclusive as do SCEE (Sistema de Compensação de Energia Elétrica).

Baterias e digitalização ampliam as possibilidades

O armazenamento representa outra frente de desenvolvimento do EaaS. Sistemas de baterias podem contribuir para a gestão da demanda, a flexibilidade do consumo e a continuidade operacional, dependendo das características de cada instalação.

A Lei nº 15.269, de 24 de novembro de 2025, estabeleceu diretrizes para a regulamentação do armazenamento de energia elétrica no Brasil, ampliando as condições para o desenvolvimento de novos serviços.

O Baas (Battery as a Service), ou Bateria como Serviço, permite estruturar contratos nos quais o consumidor utiliza sistemas de armazenamento com financiamento e operação organizados por prestadores especializados.

A viabilidade dependerá do perfil de consumo, das tarifas aplicáveis, dos custos financeiros, da vida útil dos equipamentos e dos benefícios efetivamente capturáveis.

A digitalização complementa essa evolução. Medição inteligente, automação e análise de dados permitem identificar desperdícios, acompanhar equipamentos e aprimorar decisões operacionais.

O desafio está em transformar essas tecnologias em resultados econômicos mensuráveis. Quem vai capturar o valor? O crescimento do EaaS abre oportunidades, mas exige atenção à rentabilidade dos contratos.

Quando uma empresa financia equipamentos e disponibiliza infraestrutura por longos períodos, precisa administrar custo de capital, inadimplência, manutenção, desempenho e recuperação do investimento.

Receitas recorrentes oferecem previsibilidade contratual. A sustentabilidade financeira depende da capacidade de transformar essas receitas em geração de caixa e retorno adequado sobre o capital investido.

Para investidores, indicadores como rentabilidade, qualidade da carteira contratual e gestão de riscos serão fundamentais.

Para integradores, comercializadoras e desenvolvedores, a principal decisão será definir em quais etapas da cadeia de valor desejam atuar e quais competências precisam desenvolver. A especialização e as parcerias poderão ser tão relevantes quanto a oferta de soluções integradas.

O avanço da geração solar, a abertura do mercado livre e o desenvolvimento do armazenamento criam condições para a expansão desses modelos no Brasil. Entretanto, seu crescimento dependerá da capacidade de oferecer soluções competitivas e resultados verificáveis.

Uma indústria precisa produzir com eficiência. Um supermercado precisa conservar alimentos. Um hospital precisa manter seus equipamentos funcionando. A energia participa dessas atividades, mas o interesse do consumidor está nos resultados que ela permite alcançar.

O Energy as a Service representa justamente essa mudança: a possibilidade de transformar tecnologia, financiamento e gestão energética em soluções que contribuam diretamente para a competitividade das empresas.

A questão que passa a orientar o mercado é quem estará preparado para entregar esses resultados com eficiência, rentabilidade e segurança.

As opiniões e informações expressas são de exclusiva responsabilidade do autor e não obrigatoriamente representam a posição oficial do Canal Solar.

Silla Motta
Sobre o autor
Silla Motta

Administradora de Empresas com MBA em Marketing pela PUC RJ, atua desde 1997 no setor elétrico brasileiro. É fundadora e CEO da Donna Lamparina e participante do Pacto Global da ONU, promovendo a adesão das empresas aos Princípios Universais e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

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