Uma grande parte das usinas solares fotovoltaicas (UFVs) estão com um patamar de geração muito abaixo do esperado. Premissas do PVsyst erradas, erros de projeto, erros de instalação, erros no comissionamento e equipamentos com defeito geram um resultado financeiro abaixo do esperado.
Em alguns casos (não raros) mais da metade do retorno projetado fica na mesa, é jogado no lixo. Erros ocultos e nem sempre fáceis de serem identificados, drenam pelo ralo os MWh e os R$.
Paradas de inversores por baixa isolação de cabos, trackers fora de posição, degradação dos painéis fotovoltaicos acima do previsto, diodos de by-pass defeituosos, proteção da cabine mal parametrizada, inversores desclassificando potência por temperatura, e pior ainda , o sistema de monitoramento não funciona.
Infelizmente a realidade citada está presente em vários ativos de geração espalhados pelo Brasil, sejam eles grandes usinas de geração centralizada com centenas de MW de potência, usinas de geração distribuída de até 5 MW e geradores fotovoltaicos de 300 kW ou mais instaladas em telhados de indústrias e grandes comércios (C&I).
Quando falamos de O&M em usinas fotovoltaicas, o “básico bem feito” é deixado de lado. Equipamentos baratos que não medem corretamente (muitas vezes descalibrados), falta de metodologia nas análises e principalmente falta de pensamento crítico da equipe técnica, tiram do foco o que realmente importa e o que precisa ser resolvido agora, não amanhã ou daqui a um mês.
Este artigo resume benefícios concretos entregues pela equipe técnica da CS Consultoria e Serviços, em uma usina de 5 MW, na área de concessão da CPFL Paulista em São Paulo, onde a nossa atuação elevou a disponibilidade da usina e trouxe ganho de geração relevante no período analisado.
Resultado prático: disponibilidade e energia recuperada
Disponibilidade: de 71% para 96%
A disponibilidade da usina foi aumentada de 70% para 97%, reduzindo falhas que impactavam diretamente a geração
- Geração: 22,3% a mais e +735 MWh em 9 meses
- Retorno financeiro (8 meses): R$ 440 mil
- Retorno financeiro anual projetado: R$ 586,7 mil
Como esses ganhos foram gerados?
Diagnóstico inicial e ataque ao gargalo nº 1: monitoramento
O trabalho começou no primeiro trimestre de 2025. O primeiro mês foi dedicado ao diagnóstico do ativo, com identificação de problemas e classificação por criticidade.
Após ações imediatas — como a substituição de equipamentos de comunicação, manutenções corretivas no sistema e demais ajustes necessários para restabelecer o monitoramento — as intervenções deixaram de ser reativas e aleatórias, passando a ocorrer de forma mais ágil, direcionada e com ordem de prioridade.
A indisponibilidade do sistema de monitoramento impedia a identificação e a quantificação das perdas que de fato eram as mais relevantes, uma vez que diversas falhas de geração permaneciam ocultas sem a correção necessária.
Entre os problemas que impactavam significativamente a produção de energia destacam-se as falhas de isolamento em cabos CC, fusíveis CA queimados, disjuntores com falhas intermitentes, defeitos na bucha de um dos transformadores.





Recalibragem de metas: premissas superestimadas viram “metas inalcançáveis”
Outro ganho crítico foi tirar a usina do modo “promessa” e colocá-la no modo “realidade”. Além dos problemas físicos reais do ativo fotovoltaico, as premissas de geração do PVsyst estavam super estimadas.
Foram identificadas premissas superestimadas e corrigidas posteriormente, incluindo:
- perdas em cabos CC e CA “boas demais para ser verdade”;
- perdas dos transformadores inferiores em desacordo com o datasheet;
- consumo de equipamentos auxiliares não considerados;
- degradação de módulos incorreta;
- ausência de modelagem 3D e sombreamento mal previsto;
- ângulos máximo e mínimo de inclinação dos trackers incorreto.

Resultado: premissa de geração 5,69% acima do real.
Isso é mais relevante do que parece: em termos econômicos, esse desvio de premissa representa aproximadamente R$ 350 mil por ano. A meta irreal, gerava um desgaste da equipe operacional frente ao conselho da empresa proprietária da usina.
No fim, o ponto é que a diferença entre uma “usina operando” e uma “usina performando” está na governança de performance.
Premissas de simulação e perdas de projeto coerentes, medições rastreáveis (monitoramento e SCADA calibrados), indicadores corretos (PR, disponibilidade, taxa de falhas por subsistema, etc), e um processo disciplinado com agilidade → levantamento de hipóteses → pensamento crítico → diagnóstico → intervenção → documentação, fazem toda a diferença. Quando esse loop é executado com rigor, as perdas deixam de ser “ruído” e passam a ser tratadas como o que são: não conformidades com impacto direto na geração (MWh) e na receita (R$).
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