A dinâmica de negócios registrada pela BBCE em dezembro de 2025 traz um sinal claro ao mercado: diante da escalada dos preços de energia, agentes aceleraram o fechamento de contratos como estratégia de proteção contra uma exposição ainda maior no mercado livre ao longo de 2026.
Tradicionalmente marcado por menor liquidez, em razão das festas de fim de ano e da desaceleração da atividade econômica, o mês de dezembro destoou do padrão. A BBCE encerrou o período com um recorde histórico de negociações mensais: foram 6,2 mil contratos fechados, um avanço de 211,6% na comparação com dezembro de 2024 e de 32,9% em relação a novembro de 2025.
Em termos financeiros, o volume transacionado alcançou R$ 7,7 bilhões – alta de 159,7% na base anual e de 65,4% frente ao mês anterior. O volume de energia negociado também cresceu de forma expressiva, com aumento de 35,6% no comparativo anual.
Segundo Eduardo Rosseti, diretor-executivo Comercial, de Produtos, Marketing e Comunicação Externa da BBCE, o principal fator dessa pressão de preços é o cenário hidrológico desfavorável. “Estamos vivendo um período úmido bem abaixo da média. Hoje, por exemplo, o nível dos reservatórios do Sudeste está em torno de 43%, o que é muito baixo para essa época do ano.”
Os dados de preços da segunda semana de janeiro reforçam essa leitura. A BBCE apurou uma variação positiva entre 5,28% e 8,02% no produto do primeiro trimestre de 2026. Já para os contratos com vencimento no segundo trimestre, as altas foram significativamente mais intensas, oscilando entre 19,31% e 21,30%.
De acordo com Rosseti, a menor variação no primeiro trimestre reflete uma volatilidade que já vinha sendo parcialmente precificada pelos agentes. O movimento mais abrupto no segundo trimestre, por sua vez, indica uma expectativa de preços estruturalmente mais elevados ao longo de 2026.
“Essa alta de cerca de 20% que destacamos está muito concentrada em abril, que foi o mês que mais subiu. O mercado já esperava preços elevados para janeiro, fevereiro e março, que ainda estão dentro do período úmido. Isso já estava meio precificado. O problema é quando você mantém uma ENA [Energia Natural Afluente) ruim por mais tempo em um modelo tão sensível, a perspectiva passa a ser de preços elevados por um período mais longo, possivelmente ao longo de todo o ano”, disse o executivo.
A ENA mede o volume de chuvas com potencial de conversão em energia nas hidrelétricas. O submercado Sudeste é referência para o setor por concentrar cerca de 70% da capacidade de armazenamento de energia do país.
No Sudeste, em dezembro de 2024, a ENA atingiu 97% da MLT (Média de Longo Termo), percentual que caiu para 71% no mesmo período de 2025. Em janeiro de 2025, o indicador chegou a 98% da MLT, contra apenas 56% em janeiro deste ano, segundo dados do ONS (Operador Nacional do Sistema).
O quadro de deterioração hídrica também se reflete no nível dos reservatórios do SIN (Sistema Interligado Nacional). Em janeiro de 2025, a energia armazenada no Sudeste estava em 62,03%. Neste ano, o índice recuou para 43,03%, mesmo durante o período úmido, evidenciando um sistema mais pressionado.
A comparação de preços ajuda a dimensionar a mudança de patamar. No segundo trimestre de 2025, a energia convencional era negociada em torno de R$ 110/MWh. Para o mesmo período de 2026, o valor já se aproxima de R$ 330/MWh, segundo a BBCE. O spread da energia incentivada está na casa de R$ 30/MWh.
“Normalmente o segundo trimestre reage com atraso, porque quando o reservatório termina o período úmido mais cheio, os preços tendem a cair em março. O que estamos vendo agora é uma correção desse trimestre, e de forma mais acelerada”, afirmou Rossetti.
Na avaliação do executivo, o cenário exige uma postura mais ativa por parte dos agentes. “Quando a gente olha para a curva que está sendo publicada agora, o cenário é preocupante. Com esse nível de reservatórios e um modelo muito sensível, o sistema pode estressar facilmente. Se você é consumidor, faz sentido começar a proteger sua posição para não ficar exposto a um estresse maior no futuro. É um cenário macro ruim: demanda alta, reservatórios baixos, calor persistente e um modelo muito volátil. A proteção passa a ser uma estratégia”, concluiu.
O ONS projetou a ENA para o período de janeiro a junho de 2026 em patamares historicamente baixos. No cenário mais favorável dentro da faixa de incerteza, a estimativa é de 76% da MLT, nível que, se confirmado, representará o sexto pior resultado da série histórica de 96 anos. Já no cenário pessimista, a projeção recua para 49% da MLT – o pior patamar já registrado em toda a série histórica.
Todo o conteúdo do Canal Solar é resguardado pela lei de direitos autorais, e fica expressamente proibida a reprodução parcial ou total deste site em qualquer meio. Caso tenha interesse em colaborar ou reutilizar parte do nosso material, solicitamos que entre em contato através do e-mail: redacao@canalsolar.com.br.