As recentes mudanças regulatórias no setor elétrico brasileiro ampliam a competitividade das soluções de energia solar associadas a baterias para comércio e indústria. Nesse contexto, o mercado brasileiro pode movimentar até 50 milhões de euros – cerca de R$ 314 milhões, segundo a avaliação de Marcelo Xavier, CEO da GreenYellow Brasil.
De acordo com o executivo, a companhia pretende investir 20 milhões de euros nos segmentos de eficiência energética e armazenamento de energia no país.
Desde meados de 2024, a GreenYellow vem ajustando sua estratégia no Brasil, com a reciclagem de ativos de geração solar distribuída de maior porte e o redirecionamento do foco para soluções off-grid, eficiência energética e armazenamento voltados ao mercado de C&I (comércio e indústria).
Atualmente, a empresa opera 160 MW em usinas solares e planeja colocar em operação mais 30 MW até o meio do ano. Esses projetos, no entanto, correspondem a contratos firmados há mais de um ano e não refletem a nova estratégia adotada pelo grupo.
A principal aposta da companhia está na expansão das soluções behind-the-meter, modelo que reúne geração, armazenamento e gestão de energia no lado do consumidor, sem conexão direta com a rede de distribuição.
“Em termos de crescimento, o Brasil é onde a gente vê mais possibilidade de colocar essa plataforma. Aqui dá para fazer muito projeto híbrido, combinando eficiência energética, fotovoltaico e armazenamento”, afirmou o executivo.
A seguir, confira os principais trechos da entrevista.

Marcelo, vou direto ao ponto. Quais são as prioridades da GreenYellow Brasil para 2026 e para os próximos anos?
A gente fez uma mudança importante de portfólio a partir do meio de 2024, principalmente por conta das mudanças regulatórias na geração distribuída. Falando de fotovoltaico, que é uma das nossas principais linhas de negócio, a gente deixou de buscar novos projetos de GD tradicional e passou a focar em PV para Comércio e Indústria, o que a gente chama de behind-the-meter.
São usinas de solo, carports e telhados, todas net-zero, não conectadas à rede. A gente acredita muito nesse mercado, porque com a nova regulação e com as mudanças em curso, ele tem um potencial de crescimento bastante grande no Brasil, especialmente no B2B. Esse é um dos principais pilares depois dessa mudança estrutural que a gente fez.
Outro negócio que a gente continua apostando forte é eficiência energética. Eficiência energética, basicamente, é a troca de equipamentos e sistemas autoconsumidores de energia — iluminação, ar-condicionado, ar comprimido, vapor, caldeiras, refrigeração. A gente atua em várias verticais: shoppings, indústria, hotéis, varejo alimentar e não alimentar, logística.
E agora entramos também no armazenamento. Em 2025, a gente conseguiu colocar o pé nesse mercado, formando parcerias e trazendo alguns clientes. A expectativa é crescer e alavancar essa linha em 2026. O BESS funciona muito bem como solução híbrida, junto com eficiência energética ou fotovoltaico.
O Brasil continua sendo um mercado prioritário para o grupo? Por quê?
Continua, sim. Em termos de crescimento, o Brasil é onde a gente vê mais possibilidade de colocar essa plataforma. Aqui dá para fazer muito projeto híbrido, combinando eficiência energética, fotovoltaico e armazenamento.
A GreenYellow aposta muito em soluções de cross selling e up selling. Além disso, a nossa experiência com armazenamento no Brasil foi muito positiva. Hoje, o maior pipeline de BESS do grupo está aqui. O Brasil foi o país que mais avançou nesse tema, então a gente vê um potencial grande de conversão desses projetos.
Você pode compartilhar números relacionados às vendas de BESS?
A gente fechou dois projetos, mas tem um potencial de algo entre 40 e 50 milhões de euros em projetos que podem surgir no Brasil.
Como vocês avaliam o mercado brasileiro após as mudanças regulatórias mais recentes?
As mudanças ajudaram a clarificar bastante o cenário. Clarificaram como a gente pode atuar com BESS e tiraram algumas indefinições. A gente vê, por exemplo, a possibilidade de reduzir capex com o REIDI para armazenamento.
Além disso, uma energia mais cara e menos subsidiada favorece o nosso modelo behind- the-meter. Essas mudanças caminham muito na direção da nossa estratégia e acabam corroborando o que a gente quer fazer.
Recentemente vocês venderam 23 usinas fotovoltaicas. Como está hoje o portfólio de usinas e os investimentos?
A gente tem alguns projetos aguardando conexão, praticamente todos já construídos. Hoje operamos cerca de 160 MW em GD. Fizemos duas operações de M&A, uma em 2023 e outra concluída em 2025. A reciclagem de capital é algo normal dentro do grupo.
Hoje, basicamente, a gente só está construindo projetos que já tinham contratos assinados há cerca de um ano.
Quantas usinas devem entrar em operação e quando?
Devem entrar em operação até o meio do ano. São usinas no Mato Grosso, uma no Ceará e outras no Piauí. No total, quatro ou cinco usinas, todas de GD, com potência máxima de 5 a 6 MWp. Estamos falando de algo em torno de 30 MW.
Quais pontos da regulação mais impactaram os investimentos em energia solar?
Principalmente a redução dos subsídios no fio para novos entrantes no mercado livre. Quem entra agora não vai ter os mesmos benefícios de quem já tem contrato vigente.
Isso, por outro lado, abre uma janela de competitividade para a gente. Quando a gente monta um combo, e acoplando armazenamento, consegue chegar a um número bastante razoável para reduzir a tarifa do cliente final.
No modelo behind-the-meter, a gente instala o sistema fotovoltaico dentro da instalação do cliente e consegue gerar uma redução significativa. O ponto de atenção é que toda mudança regulatória traz algum nível de insegurança jurídica, tanto para nós quanto para o cliente, então a gente precisa acompanhar muito de perto.
Como está o mercado de eficiência energética hoje?
É um mercado em crescimento contínuo para nós. Já são quatro ou cinco anos seguidos em que um ano supera o outro. No passado, a gente fazia muito projeto dentro do GPA, quando o Casino era acionista. Hoje, a gente atua de forma muito mais ampla no mercado.
O empresário vai se acostumando com esse modelo de não ser dono do equipamento, mas sim da utilidade. Ele não precisa ser dono do sistema de ar-condicionado, ele precisa da disponibilidade. O mesmo vale para iluminação, refrigeração, ar comprimido.
Ele não usa linha de crédito, não capta no banco. A gente financia o equipamento ao longo da vida útil, o cliente paga quando o sistema já está operando. Isso libera capital para o core business e tira dele o ônus da manutenção. Muitos clientes acabam se tornando recorrentes.
No negócio de eficiência energética, vocês compartilham os ganhos com o cliente?
Não exatamente. A gente faz o diagnóstico, desenha a solução, compra o equipamento e o ativo fica sendo nosso. O cliente só começa a pagar quando o equipamento está disponível e gerando.
A ideia é equilibrar a fatura mensal de forma que a economia gerada pelo equipamento mais eficiente cubra boa parte do custo. Muitas vezes a gente consegue isso, mas não é um modelo de compartilhamento de ganho.
Como está o negócio de instalação de pontos de recarga para veículos elétricos?
A gente saiu desse negócio no Brasil. É um movimento global do grupo. A gente entendeu, há cerca de um ano e meio, que a adoção do carro elétrico não viria na velocidade esperada. Isso se confirmou.
Além disso, o modelo de negócio de recarga não encaixava no nosso modelo de infraestrutura. Para evitar riscos, a decisão foi sair.
Existe interesse em atuar na abertura do mercado livre para baixa tensão?
A gente tem expertise no varejo, mas é um mercado bem diferente do nosso foco. Temos uma comercializadora dentro do grupo, mas a estratégia principal continua sendo geração junto com a carga no C&I.
Você pode compartilhar números sobre a expectativa de crescimento no C&I?
Hoje temos um pipeline de cerca de 400 MW. A meta é fechar pelo menos 40 MW este ano, mas acredito que dá para fazer mais. Isso só em C&I.
Em termos de investimento, a gente pretende chegar a algo em torno de 20 milhões de euros somando eficiência energética e BESS.
Tem algo que eu não perguntei e que você gostaria de destacar?
O principal é que a gente está imprimindo um ritmo de crescimento bem estruturado, com muita disciplina de capital e alocação de recursos. A expectativa é que 2026 seja um ano ainda mais acelerado que 2025.
A palavra de ordem na GreenYellow é fazer mais com menos: ser uma empresa enxuta, mas com aceleração de crescimento. E esse crescimento passa muito por parcerias com integradores, instaladores, tanto em eficiência energética quanto em BESS e fotovoltaico.
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