Há frases que não são apenas infelizes; são reveladoras. Quando o CEO global da Enel afirmou que “só Jesus” poderia evitar apagões em São Paulo, a intenção pode ter sido traduzir a força da natureza.
Mas o subtexto que chega ao consumidor é outro: como se a falha fosse inevitável, quase um destino. Só que energia elétrica não é catecismo. É serviço público essencial, regulado, medido e contratualmente exigível.
Ninguém sério nega que tempestades derrubam árvores. A questão é: por que isso ainda vira colapso prolongado com frequência suficiente para entrar no calendário da cidade?
Em infraestrutura, evento climático é variável; apagão recorrente é sintoma. E sintoma se trata com método: manejo de vegetação com prioridade real, automação de rede, religadores, redundância em circuitos críticos, equipes dimensionadas, logística de pronta resposta, planos de contingência testados, comunicação transparente e metas auditáveis. Milagre não tem SLA. Operação tem.
O “só Jesus” funciona como uma cortina confortável: desloca o debate do que é mensurável para o que é incontestável. Porque contra o divino não há auditoria. Contra o vento não há prazo. Contra a árvore não há penalidade.
Mas contra o descumprimento de padrão de continuidade há, sim, instrumentos: fiscalização, sanção e, no limite, caducidade. Não como espetáculo — como mecanismo de governança quando a prestação degrada e a confiança social se rompe.
E aí entra a parte mais constrangedora: a caducidade, no Brasil, frequentemente aparece como fantasma retórico — assusta na fala, desaparece na prática, e reaparece depois do próximo apagão.
O consumidor ouve a palavra, respira aliviado por cinco minutos e, quando vem a próxima chuva, volta ao rito conhecido: lanterna carregada, geladeira em risco, comércio parado, rotina suspensa.
O Estado sinaliza, o sistema repete, a cidade paga. Se consequência nunca chega, a mensagem que fica é simples e perigosa: o contrato vira papel sem efeito prático.
A frase do CEO também exporta um retrato pouco digno do país. Uma metrópole global não pode parecer refém de justificativas que soam como resignação. O problema não é a ironia religiosa; é o que ela sugere sobre padrão de exigência. Quando a liderança máxima de um grupo dá a entender que a solução humana é insuficiente, a pergunta inevitável é: insuficiente para quem? Para a meteorologia, talvez. Para o contrato, não.
La Fontaine ensinou que, na fábula, o lobo sempre encontra um motivo para culpar o cordeiro — o importante não é a causa, é o desfecho já decidido.
Na versão elétrica, a árvore vira o cordeiro perfeito: sempre disponível, sempre convincente, sempre absolvente. Só que concessão não é fábula. E o consumidor não deveria ser personagem condenado ao mesmo final, capítulo após capítulo.
Se a Enel acredita que o problema é “natureza”, ótimo: que apresente um plano público com entregáveis verificáveis e data marcada — não uma metáfora com margem infinita. Percentual de circuitos automatizados por trimestre.
Cronograma de manejo de vegetação por área crítica. Padrões de recomposição por bairro. Capacidade de mobilização de equipes em crise. Transparência em indicadores e execução. Isso é o que separa azar de incompetência, tempestade de descontrole, evento de rotina.
Do lado do poder concedente, a cobrança é ainda mais básica: menos retórica e mais consequência. Se a prestação melhora, reconheça. Se não melhora, corrija. Se não corrige, substitua. A credibilidade do setor não nasce da promessa de rigor — nasce do rigor aplicado. Caducidade não é palavrão; é o nome institucional do “chega”.
Se para manter a luz acesa São Paulo precisa de milagre, então não tem concessão — tem crença. E crença não se fiscaliza: se cobra.
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