O avanço do curtailment no sistema elétrico brasileiro tem intensificado o debate sobre qual tecnologia deve ser priorizada para garantir potência adicional ao país.
Para José Wanderley Marangon, integrante e Conselheiro da ABGD(Associação Brasileira de Geração Distribuída) e Membro Honorário da ABSAE (Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia), o cenário exige uma avaliação mais ampla sobre os caminhos adotados nos leilões de capacidade.
Ele questiona se a contratação de novas usinas termelétricas a gás natural é a alternativa mais eficiente. Segundo ele, embora o governo no passado tenha sinalizado que não indicaria previamente uma tecnologia, este leilão acabou direcionando a contratação para térmicas.
“A solução definindo a priori a tecnologia acaba trazendo indiretamente uma preferência por determinado segmento, o que pode caracterizar um subsídio”, afirmou.
Na avaliação de Marangon, a escolha também esbarra em entraves estruturais ligados ao setor de gás natural. Ele lembra que o Brasil não consolidou uma política consistente para o segmento, em parte devido ao histórico do monopólio exercido pela Petrobras, o que resultou em lacunas de infraestrutura.
“Montar esta estrutura agora para resolver o problema de potência não tem sustentação econômica com o advento da nova tecnologia de armazenamento eletroquímico”, pontuou.
Para Marangon, o armazenamento apresenta vantagens operacionais relevantes, diferentemente das térmicas, que dependem de combustível e levam tempo para atingir o despacho pleno. As baterias podem utilizar como insumo a própria energia excedente do SIN (Sistema Interligado Nacional) nos horários de alta geração solar. Esta energia tem sido desperdiçada pelo ONS (Operador Nacional do Sistema) através de cortes mandatórios de geração, conhecidos como curtailment.
“Além disto, no campo operacional, as térmicas para serem mais eficientes precisam de tempo para alcançar o despacho requerido, o que as torna mais caras e prejudicando até o ‘curtailment’”, explicou.
Ele reconhece que ainda existem desafios técnicos, que normalmente são colocados como entraves para a inserção das baterias conhecidas como BESS. Num sistema dominado por máquinas síncronas, os inversores não conseguem responder satisfatoriamente a distúrbios dinâmicos relacionados com a estabilidade do sistema.
Esta discussão tem sido conduzida pelo ONS que é o responsável pela operação do SIN e que está elaborando os requisitos necessários para a conexão do BESS no sistema.
“O maior problema hoje do SIN é o colapso de tensão e não as oscilações eletromecânicas que podem ser resolvidas mesmo com a tecnologia ‘grid-following’ já presente nos geradores solares e eólicos. Uma nova versão ‘grid-forming’ está sendo testada em vários países e que se bem ajustado pode contribuir para o amortecimento das oscilações eletromecânicas”, concluiu.
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