Com colaboração de Manoel Mário
A transição energética global entrou em uma nova fase: menos retórica, mas porém, com mais “carga agregada”.
Os dados recentemente divulgados pela BloombergNEF no âmbito do Energy Transition Scenario deixam claro que o vetor dominante da próxima década não será apenas a descarbonização, mas a eletrificação acelerada da economia, impulsionada pela mobilidade elétrica, digitalização e inteligência artificial.
Até 2050, a demanda global por eletricidade deverá crescer 75%, movimento sustentado por quatro forças estruturais:
- Crescimento econômico;
- Eletrificação dos transportes;
- Aumento da necessidade de resfriamento; e
- Rápida expansão dos data centers, que passam a ocupar um papel central na equação energética global.
Data centers: de carga marginal a vetor sistêmico de demanda
Os data centers deixam de ser uma externalidade setorial e passam a representar um risco sistêmico de planejamento energético, uma vez que a demanda incremental associada a data centers alcança 1.200 TWh em 2035 e 3.700 TWh em 2050.
Já em 2035, eles já responderão por 4,5% da demanda final global de eletricidade, quase dobrando para 8,7% em 2050 e, que mesmo ainda abaixo da demanda dos veículos elétricos (11,2% em 2050), os data centers já superam o consumo combinado de ar-condicionado e bombas de calor (7,1%).
Essa dinâmica impõe um desafio claro: os data centers exigem energia firme, previsível e contínua, pressionando sistemas elétricos que historicamente foram desenhados para atender cargas mais estáveis ou sazonais.
Capacidade instalada
O paradoxo da transição: para atender apenas a demanda adicional dos data centers até 2035, será necessária a adição de 362 GW de capacidade instalada globalmente, sendo 47% de fontes renováveis; 9% de armazenamento; 44% ainda baseados em combustíveis fósseis.
O dado mais sensível, porém, está na geração efetiva. Apesar do avanço das renováveis na capacidade, 64% da geração incremental até 2035 virá de fontes fósseis, contra 36% de renováveis. (dados da BloombergNEF)
Isso não sinaliza um retrocesso climático, mas sim um desalinhamento temporal entre crescimento da demanda, maturidade tecnológica, infraestrutura de armazenamento e segurança energética. A geração renovável, ainda assim, cresce de forma robusta: +84% até 2030 e mais que dobra novamente até 2050.
Eletrificação do transporte
A mobilidade elétrica consolida-se como vetor estrutural e as vendas globais de veículos elétricos irão subir de 17,2 milhões (2024) para 42 milhões em 2030, chegando a 80 milhões em 2050.
Em meados do século, cerca de 2/3 da frota global (1,5 bilhão de veículos) será elétrica, contra apenas 4% atualmente. Isso deslocará o centro de gravidade do setor energético: menos combustíveis líquidos, mais eletricidade — e, sobretudo, mais redes, mais flexibilidade e mais regulação eficiente.
O Brasil no centro da encruzilhada regulatória
Para o Brasil, esses números não são apenas estatísticas globais, são uma sinalização estratégica, pois nosso país reúne vantagens competitivas raras como uma matriz elétrica majoritariamente renovável; com potencial hídrico, solar e eólico complementar e um crescente interesse internacional em data centers verdes e contratos de energia limpa.
Mas, por outro lado, também carrega riscos regulatórios relevantes: gargalos de transmissão e conexão; incertezas sobre armazenamento, hidrogênio e serviços ancilares; modelos contratuais ainda pouco adaptados a cargas intensivas, inflexíveis e de longo prazo; tensão crescente entre modicidade tarifária, expansão da oferta e segurança do sistema.
A experiência internacional demonstra que a transição energética não é linear. Ela exige convivência temporária com fontes fósseis, decisões regulatórias pragmáticas e instrumentos contratuais sofisticados para alocar riscos corretamente entre geradores, consumidores intensivos e o sistema elétrico.
A transição energética é, antes de tudo, uma governança regulatória e contratual, enquanto a eletrificação massiva da economia, via veículos elétricos e infraestrutura digital, transformará a energia elétrica em insumo estratégico da economia digital e industrial. Nesse contexto, o desafio central deixa de ser apenas tecnológico e passa a ser jurídico, regulatório e econômico.
Para o Brasil, o sucesso desta transição dependerá menos de discursos e mais de: planejamento regulatório consistente; segurança jurídica para investimentos de longo prazo e uma forte integração entre política energética, industrial e digital.
A transição avança. Mas quem não alinhar regulação, economia e estratégia corre o risco de ficar com a demanda, e sem a capacidade adequada e inteligente de energia.
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