A crise geopolítica entre Estados Unidos e China segue impactando o comércio global e, nos últimos 12 meses, provocou uma queda expressiva no custo do frete marítimo internacional.
O valor para embarcar um contêiner, que variava entre US$ 2.900 e US$ 3.200 em janeiro de 2025, caiu para cerca de US$ 1.400 em janeiro deste ano. A expectativa do mercado é de que o frete possa atingir US$ 900 em fevereiro.
O movimento chama atenção porque ocorre justamente em um período que, historicamente, registra alta nos preços, em função do feriado do Ano Novo Chinês. Como explica Eudes Silveira, diretor da Port Trade, o cenário atual foge completamente ao padrão observado em anos anteriores.
“No momento, a gente está vivendo uma situação bem atípica em relação ao que normalmente acontece nos anos anteriores. Se a gente parar para pensar que estamos praticamente às vésperas do feriado chinês – que começa em 17 de fevereiro – o normal seria ver uma pressão alta nos fretes. Mas o que estamos experimentando agora é uma redução muito abrupta dos preços”, disse ele.
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Segundo Silveira, o frete marítimo é um produto de mercado e responde diretamente à lógica de oferta e demanda. Atualmente, o setor convive com uma oferta elevada de navios e espaço disponível, enquanto a procura caiu de forma significativa por diferentes fatores.
Um deles é a reorganização logística promovida pela China nos últimos anos. O país modernizou seus portos e conseguiu mitigar um problema de congestionamento de contêineres. Antes, as cargas ficavam retidas por longos períodos à espera de embarque. Hoje, esse gargalo praticamente deixou de existir.
Durante a pandemia, o custo do frete chegou a patamares entre US$ 15.000 e US$ 16.000 por contêiner. Além dos preços elevados, os atrasos logísticos eram grandes, com prazos de entrega que chegavam a 90 dias e cobrança de taxas adicionais para garantir o embarque.
“Atualmente, se você precisar embarcar dez contêineres na semana seguinte, existe capacidade disponível. Isso acontece porque a oferta está bem maior do que a procura, e essa diferença é o que está derrubando o preço do frete”, disse o diretor.
Outro fator relevante é a guerra tarifária promovida pelos Estados Unidos. A adoção de tarifas elevadas sobre produtos de diversos países, como forma de proteger a indústria norte-americana, reduziu o fluxo global de mercadorias e impactou diretamente o volume de cargas transportadas.
“É importante lembrar que a China não é apenas um país – ela é a fábrica do mundo, o coração produtivo da economia global. É praticamente impossível pensar em uma cadeia produtiva hoje sem a China. O que aconteceu foi que essa grande fábrica produziu esperando uma demanda elevada, que não veio”, disse ele.
“Com menos produtos para colocar no mercado, os navios ficam mais vazios, não há congestionamento nos portos – e isso já acontece desde dezembro – e o frete tende a cair ainda mais”, complementou Silveira.
Queda não deve reduzir preço dos equipamentos
Apesar de, à primeira vista, a queda no custo do frete parecer uma boa notícia para o setor fotovoltaico, esse movimento não deve se traduzir em equipamentos solares mais baratos para o consumidor brasileiro.
Alberto Silva, gerente de importação da Bluesun, explica que praticamente todos os painéis e inversores fotovoltaicos importados pelo Brasil utilizam contêineres de 40 pés high cube, que oferecem maior cubagem e se ajustam melhor às dimensões dos módulos.
“Em dezembro a gente vinha nesse patamar de 1.600 a 1.500 dólares. Em janeiro, caiu para algo entre 1.300 e 1.200. Agora, para fevereiro, já na primeira semana, a gente está falando em 900 dólares. Então, assim, caiu cerca de 40% o custo do frete nos últimos três meses”, confirmou o distribuidor.
“No inversor, por exemplo, essa redução é quase insignificante. A gente está falando de um contêiner que custa aproximadamente entre 330 mil e 350 mil dólares em mercadoria. Esses 600 dólares a menos no frete não aparecem, não mudam nada no preço do inversor. No painel, sim, tem algum efeito. Em relação a dezembro, isso dá mais ou menos um centavo de dólar por watt-pico. Em valores absolutos, algo entre 6 e 7 reais por painel”, explicou.
O problema é que os preços dos módulos fotovoltaicos vêm seguindo uma trajetória de alta, pressionados pelo aumento do custo de insumos estratégicos, como prata e alumínio.
“O grande problema que a gente está sofrendo hoje é com a alta do painel na China. Cerca de 60% da célula é feita de prata, e a commodity da prata subiu no mundo inteiro. De dezembro para cá, por exemplo, o preço praticamente dobrou. Então, a gente está tendo aumentos nos painéis lá na fábrica, na China, muito maiores do que o desconto que o frete está trazendo. Embora exista essa tendência de redução do frete, esse movimento não vai se traduzir em preços menores para o consumidor. Muito pelo contrário, deve se traduzir em aumento, por causa do custo do painel na origem”, alertou Silva.
Na última terça-feira (27), o preço da prata atingiu um patamar histórico, alcançando US$ 108,17 por onça (1 onça equivale a 28,35 gramas). Já nesta quarta-feira, a commodity chegou a ser negociada a US$ 116,01 por onça, estabelecendo um novo recorde. Em um intervalo de 12 meses, o insumo acumula valorização superior a 260%.
Apesar do cenário desafiador nos custos de fabricação, Silveira destaca que a maior eficiência logística nos portos chineses trouxe ganhos relevantes para a cadeia de suprimentos. Se antes o prazo de entrega dos equipamentos podia chegar a 90 dias, hoje esse período foi reduzido para cerca de 18 dias.
“Isso ajuda muito na gestão de estoque e no fluxo de caixa. Antes, a gente precisava pagar para começar a produzir três meses antes do embarque. Hoje, a gente paga para começar a produzir 18 dias antes de o navio sair da China. Isso reduz a necessidade de capital empatado. Se o dinheiro for emprestado, custa menos. Menos juros significa, no fim das contas, impacto menor no custo para o cliente final”, concluiu.
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