O ano de 2025 expôs vulnerabilidades estruturais no mercado global de energia solar, sobretudo nos três maiores polos do setor. China, Estados Unidos e Índia enfrentaram entraves regulatórios, políticos e comerciais que afetaram diretamente o avanço de novos projetos e interromperam uma sequência histórica de crescimento acelerado.
Esse movimento ficou evidente nos indicadores globais. Em 2025, o mundo adicionou aproximadamente 655 GW de nova capacidade solar.
Para 2026, a projeção da Bloomberg NEF aponta para 649 GW em novas instalações, o que representa um recuo de cerca de 0,9% na comparação anual, aproximadamente 6 GW a menos em relação ao volume registrado no ano anterior.
Caso a estimativa se confirme, será a primeira vez em quase duas décadas que o mercado solar global deixará de apresentar crescimento anual acelerado, refletindo de forma direta a desaceleração observada nos grandes mercados.
Mas enquanto o setor solar passa por um processo de reorganização, o armazenamento de energia ganha protagonismo mundialmente.
Em 2025, o segmento ultrapassou, pela primeira vez, a marca de 100 GW de capacidade instalada, encerrando o ano com 106 GW de novas adições. Para 2026, a expectativa é de continuidade desse movimento de expansão e consolidação.
Armazenamento acelera em 2025 e mercado já projeta expansão dez vezes maior
De acordo com um relatório da Wood Mackenzie, cinco grandes tendências devem orientar os rumos da indústria de armazenamento de energia, impulsionadas pelo avanço tecnológico, pela ampliação das aplicações em escala de rede e pela necessidade crescente de flexibilidade e confiabilidade dos sistemas elétricos globais. Confira:
1) Cadeias globais passam por reestruturação
Uma das principais tendências apontadas é a reorganização das cadeias globais de fornecimento. Apesar da liderança chinesa no processamento de matérias-primas, fabricação de componentes, produção de baterias e integração de sistemas, o excesso de capacidade doméstica e as crescentes exigências de conteúdo local em outros países vêm levando fabricantes a diversificar investimentos fora da China.
Esse movimento inclui expansão produtiva no Sul e Sudeste Asiático, Oriente Médio, Norte da África, Europa e América do Norte.
Nos Estados Unidos, empresas chinesas devem anunciar em 2026, novas estruturas societárias para atender às exigências da FEoC (Declaração de Equidade de Conduta) reduzindo sua participação acionária para menos de 25% e recuperando o acesso aos incentivos fiscais. No curto prazo, entretanto, a consultoria alerta que essas restrições podem pressionar os preços até meados de 2026.
2) Armazenamento passa a ser exigência regulatória
Outra virada estrutural ocorre no campo regulatório. A Wood Mackenzie aponta que 2026 marcará a transição do armazenamento com tecnologia grid-forming de uma escolha voluntária para uma obrigação regulatória em diversos países.
Com o crescimento acelerado das renováveis, a estabilidade das redes elétricas vem sendo colocada à prova. Em 2025, cerca de 36% da capacidade global de geração já vinha de fontes variáveis, percentual que deve alcançar 56% até 2035.
Esse cenário reduz a presença de usinas síncronas tradicionais, como térmicas e hidrelétricas, historicamente responsáveis pela inércia do sistema.
Nesse contexto, os inversores grid-forming ganham protagonismo por sua capacidade de estabelecer tensão e frequência de forma independente, garantindo maior estabilidade.
A expectativa é que, a partir de 2026, países como Alemanha, Reino Unido, China, Estados Unidos e Austrália passem a exigir essas tecnologias em novos projetos.
3) Tecnologias além do lítio ganham escala
O relatório também mostra a ascensão de tecnologias alternativas às baterias de íons de lítio, como sódio-íon, baterias de fluxo e sistemas ferro-ar.
Esses modelos podem ganhar espaço por oferecerem soluções competitivas para aplicações de longa duração, especialmente diante da crescente complexidade das cadeias globais de lítio.
Entre os exemplos citados está o maior projeto planejado de baterias de sódio-íon do mundo, nos Estados Unidos, com 4,75 GWh, além da expansão dessa tecnologia na China e na Europa. A expectativa é que 2026 consolide a entrada dessas soluções em escala comercial.
4) Data centers impulsionam nova onda de demanda
O crescimento acelerado dos data centers surge como um dos principais vetores de expansão do armazenamento. Somente nos Estados Unidos, já foram anunciados mais de 230 GW em novos projetos, enquanto a Europa soma 35 GW e a China projeta demanda de 78 GW até 2030.
Diante de gargalos na conexão à rede e prazos longos para entrega de turbinas a gás, os sistemas de armazenamento vêm sendo utilizados para garantir conexão rápida, regular picos de carga, aumentar a resiliência energética e apoiar metas corporativas de descarbonização.
5) Projetos híbridos ganham força fora dos EUA
Por fim, a Wood Mackenzie destaca o avanço global dos projetos híbridos, que combinam geração renovável com armazenamento.
Em países como Austrália e Índia, mais de 50% dos novos projetos já nascem integrados a sistemas de baterias, estratégia que reduz cortes de geração, melhora a viabilidade financeira e amplia receitas.
Na Europa, esse modelo também ganha tração, impulsionado pelo aumento das horas com preços negativos e pelas dificuldades de conexão à rede, consolidando o armazenamento como pilar central da transição energética global.
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