Empresas que investem em transição energética podem melhorar suas condições de financiamento e aumentar sua atratividade no mercado de capitais. No entanto, mais recentemente, esse efeito só se materializa quando as iniciativas resultam em ganhos econômicos concretos.
A avaliação é do economista José Augusto Ruas, presidente do IPEES (Instituto de Pesquisa e Estudos Econômicos e Sociais) e professor do Curso de Ciências Econômicas da FACAMP (Faculdades de Campinas), em entrevista ao Canal Solar.
Segundo ele, a redução de custos e a maior previsibilidade operacional são os fatores cruciais para potencializar a valorização das empresas. Para o especialista, após um crescimento intenso da disponibilidade de recursos para ESG no início da década, o mercado atual passou a ser mais cauteloso e não precificar apenas práticas ambientais em si, mas o impacto mais palpável que elas têm sobre os resultados atuais e futuros das companhias.
Em outras palavras, iniciativas ligadas à transição energética, por si só, não são suficientes para impulsionar o valor de mercado se não vierem acompanhadas de uma estratégia consistente de implementação e geração de resultados.
“O que o mercado avalia é a perspectiva de resultados. Práticas de sustentabilidade podem contribuir para isso, especialmente quando geram ganhos imediatos de custo ou preparam a empresa para exigências ambientais futuras”, afirma.
O economista ressalta ainda que a relevância da eficiência energética depende da estrutura de custos e da intensidade do progresso tecnológico associado aos investimentos de cada segmento. Setores intensivos em consumo de energia, como mineração, siderurgia, papel e celulose e data centers, tendem a se beneficiar mais diretamente dessas iniciativas.
“Quando analisamos a correlação entre indicadores de sustentabilidade energética, valor de mercado ou capacidade de financiamento não é possível comparar empresas de setores distintos, porque a importância da energia nos custos operacionais varia muito”, explica Ruas.
“Além disso, fatores como histórico ambiental, regulação, tendências políticas globais e condições de mercado também influenciam a percepção dos investidores”, ressalta o professor.
ESG perdeu força, mas não relevância
Ruas lembra que, entre 2020 e 2022, os critérios ESG (Environmental, Social and Governance), que avaliam práticas empresariais sustentáveis além do retorno financeiro, ganharam grande peso nas decisões de investimento, impulsionados principalmente por grandes fundos internacionais.
Ele lembra que esse movimento favoreceu empresas com políticas ambientais mais avançadas e chegou a gerar uma euforia financeira em mercados de crédito de carbono. No entanto, a partir de 2024, houve redução na importância desses critérios.
“Parte do mercado percebeu que muitas iniciativas tinham caráter mais reputacional do que econômico. Grandes fundos de investimento global abandonaram práticas de precificação de ESG e, de modo geral, os investidores voltaram a priorizar resultados financeiros concretos”, destacou.
Apesar desse contexto, o economista avalia que a ligação entre sustentabilidade e valorização das ações não desapareceu, apenas se tornou mais restrita a projetos capazes de gerar retorno econômico mensurável.
“Hoje, há menos entusiasmo com indicadores ambientais genéricos, mas iniciativas que demonstram ganhos financeiros continuam sendo valorizadas (…) Quando uma empresa consegue reduzir custos de forma clara por meio de tecnologia e gestão energética, isso melhora margens e previsibilidade, o que pode se refletir na avaliação do mercado”, conclui Ruas.
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