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Utilities passam a enxergar o clima como variável central de negócios

Pesquisa da PwC revela como pensam os CEOs de grandes empresas de energia e serviços de utilidade pública
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  • Foto de Wagner Freire Wagner Freire
  • 26 de fevereiro de 2026, às 15:30
4 min 20 seg de leitura
Utilities passam a enxergar o clima como variável central de negócios
Foto: Freepik

As empresas de energia e de utilities (EU&R) vêm avançando na incorporação do risco climático às decisões estratégicas. O movimento, no entanto, ainda é parcial e concentrado em processos específicos, segundo a 29ª edição da Global CEO Survey, divulgada nesta quarta-feira (25) pela PwC.

O levantamento ouviu 4.400 executivos em 95 países, incluindo o Brasil, e mostra que 37% das companhias do setor já estruturaram processos formais para considerar riscos e oportunidades climáticas nas decisões de negócio.

O percentual supera a média brasileira (25%) e a global (24%), sinalizando que a agenda climática começa a influenciar diretamente escolhas relacionadas a portfólio, tecnologias e soluções energéticas.

Segundo Daniel Martins, sócio e líder do setor de energia e serviços de utilidade pública na PwC Brasil, a indústria elétrica está no centro do debate climático e os CEOs demonstram maior maturidade na discussão dos impactos sobre suas operações. Ainda assim, ele avalia que o setor está apenas no início da jornada de preparação para esse novo contexto.

Para o executivo, os 37% refletem mais um aumento de consciência do que, necessariamente, uma transformação estrutural. “Quando a gente olha para países mais desenvolvidos, estamos há cerca de dez anos atrasados”, afirmou durante coletiva de imprensa.

Clima ainda pouco integrado ao capital e à operação

Quando a análise avança para a alocação de capital, a integração do risco climático perde força. Apenas 29% das empresas globais de EU&R declaram adotar processos estruturados nessa dimensão.

No Brasil, embora o índice supere a média nacional (18%) e a global (20%), ainda é considerado limitado diante do potencial impacto das mudanças climáticas sobre o retorno de investimentos de longo prazo – especialmente em ativos intensivos em capital.

Na cadeia de suprimentos e compras, o padrão se repete: 27% dos CEOs brasileiros do setor afirmam incorporar fatores climáticos de forma estruturada. O percentual é superior à média nacional (18%), mas inferior ao registrado globalmente em EU&R (31%).

Para a PwC, isso indica que a maioria das decisões operacionais ainda não internaliza o risco climático de forma sistemática.

Pressão do curto prazo domina a agenda

A pesquisa também revela um desequilíbrio na agenda dos executivos. No setor de energia, 56% do tempo dos CEOs é consumido por temas de curto prazo (menos de 12 meses), enquanto apenas 11% é dedicado a estratégias de longo prazo.

No Brasil, o cenário é influenciado por incertezas regulatórias e políticas que afetam diretamente o planejamento de expansão, contratação de energia e decisões de investimento.

Entre as principais ameaças para os próximos 12 meses, a instabilidade macroeconômica lidera (33%), seguida por disrupção tecnológica (27%) e escassez de talentos (23%). As mudanças climáticas aparecem com 23%, acima da média brasileira (18%) e da global (13%), reforçando a percepção de que o tema já ocupa espaço relevante na matriz de riscos do setor.

Por outro lado, conflitos geopolíticos (17%) e tarifas comerciais (13%) permanecem em segundo plano. Apenas 17% dos CEOs relatam preocupação de stakeholders com segurança e uso responsável de inteligência artificial – percentual bem abaixo da média nacional (48%).

Inovação ainda distante do core business

Apesar de 47% das empresas brasileiras de energia e utilities classificarem a inovação como elemento crítico da estratégia, apenas 20% contam com centros formais de inovação e somente 3% testam novas ideias de forma ágil com clientes e usuários finais.

Na avaliação de Martins, o setor ainda opera sob uma lógica processual semelhante à de duas décadas atrás. As inovações são majoritariamente incrementais – automação, digitalização de processos, eficiência operacional – enquanto as rupturas estruturais avançam lentamente.

Para ele, a consolidação de redes inteligentes (smart grids) pode representar o verdadeiro divisor de águas, ao transformar a gestão de ativos, a relação com consumidores e a integração de recursos energéticos distribuídos. “Vejo muitos movimentos de criação de ecossistemas e hubs de inovação, mas ainda distantes do core business. Há recursos de P&D disponíveis, porém os projetos frequentemente permanecem acadêmicos e pouco conectados à operação”, observou.

Fronteiras setoriais mais difusas

A pesquisa também aponta que 50% dos CEOs do setor passaram a competir em novos mercados nos últimos cinco anos. O avanço tecnológico e a transição energética reduziram barreiras tradicionais entre indústrias.

Empresas de biocombustíveis transitam entre agro e energia; companhias de óleo e gás ampliam presença em renováveis; bancos e varejistas ingressam na comercialização de energia; e utilities exploram soluções digitais e serviços energéticos integrados.

“As barreiras entre as indústrias estão menores. Hoje há muitas oportunidades de criar valor combinando competências e especialidades”, afirmou Martins.

O cenário indica um setor em transição: mais atento aos riscos climáticos, pressionado por agendas de curto prazo e ainda desafiado a integrar inovação e sustentabilidade ao centro da estratégia.

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Foto de Wagner Freire
Wagner Freire
Wagner Freire é jornalista graduado pela FMU. Atuou como repórter no Jornal da Energia, Canal Energia e Agência Estado. Cobre o setor elétrico desde 2011. Possui experiência na cobertura de eventos, como leilões de energia, convenções, palestras, feiras, congressos e seminários.
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