O setor energético brasileiro é um dos pilares do desenvolvimento nacional, mas também um dos espaços onde se trava uma batalha entre modelos de comercialização da energia.
De um lado, oligopólios que insistem em manter estruturas centralizadas e narrativas técnicas que afastam a sociedade do debate. Do outro, consumidores que, graças às novas tecnologias, começam a perceber que podem ser protagonistas na produção e gestão da própria energia.
Breve histórico: da centralização ao desafio da modernização
A estruturação do setor elétrico brasileiro ganhou corpo a partir da década de 1930, com o Código de Águas de 1934, que estabeleceu regras para geração e distribuição.
Décadas depois, a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, inaugurada em 1984, simbolizou o esforço nacional em garantir segurança energética.
O projeto consumiu vultosos recursos públicos em um período em que o país ainda não dispunha de um sistema de saúde universal. A prioridade era clara: sustentar uma política desenvolvimentista e assegurar energia para a industrialização.
Esse modelo, conhecido como geração centralizada, concentra a produção em grandes usinas — hidrelétricas, termelétricas ou nucleares — e distribui energia por longas linhas de transmissão.
Embora eficiente em seu tempo, ele carrega limitações: dependência de megainvestimentos, vulnerabilidade a falhas em pontos únicos e pouca participação da sociedade nas decisões.
O consumidor como protagonista
Hoje, o cenário é outro. Tecnologias como painéis solares fotovoltaicos, pequenas turbinas eólicas e sistemas de biomassa permitem que consumidores gerem sua própria energia.
Esse modelo, chamado de geração distribuída, descentraliza a produção e aproxima o cidadão do processo. Mais do que uma inovação técnica, trata-se de um movimento de empoderamento do consumidor, que deixa de ser mero receptor e passa a ser agente ativo.
A geração distribuída é irreversível. Assim como carros modernos não poderiam trafegar em estradas precárias dos anos 1950, os recursos energéticos distribuídos exigem uma rede elétrica inteligente e modernizada.
Sem essa atualização, o sistema não suporta a integração de múltiplas fontes renováveis. É uma questão de infraestrutura: não basta ter tecnologia de ponta se a rede continua operando em padrões ultrapassados.
Narrativas que escondem interesses
Apesar das evidências, técnicos e grandes investidores insistem em narrativas pobres e retóricas que buscam semear medo. Perguntas como “Quem vai pagar?” ou “Quanto isso vai custar?” são usadas para sugerir que a transição energética encarecerá a conta de luz. A realidade, no entanto, é diferente.
A modernização da rede e a expansão da geração distribuída tendem a reduzir custos no longo prazo, ao diminuir perdas na transmissão, estimular concorrência e reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
É irônico que muitos dos que criticam esse modelo sejam os mesmos que historicamente se beneficiaram de subsídios e incentivos. Conhecem bem o jogo, mas distorcem os argumentos para manter privilégios.
O conflito dentro das renováveis
A transição energética não enfrenta apenas a resistência dos combustíveis fósseis. Dentro das próprias energias renováveis há uma disputa:
- De um lado, a geração distribuída, que busca democratizar o acesso e dar autonomia ao consumidor;
- Do outro, a geração centralizada, que insiste em manter o cidadão como mero usuário passivo, encaixado em modelos de mercado livre que favorecem grandes investidores.
Esse embate revela que a transição não é apenas tecnológica, mas também política e social. Trata-se de decidir quem terá o poder: oligopólios ou cidadãos.
O verdadeiro inimigo
Enquanto o setor se perde em disputas internas, o grande inimigo avança: os combustíveis fósseis. Petróleo, carvão e gás continuam ganhando mercado, emitindo gases de efeito estufa e agravando a crise climática.
O planeta não pode esperar por consensos artificiais. A urgência é clara: reduzir emissões e acelerar a transição para fontes limpas.
Brasil: protagonismo ou colapso
O Brasil precisa escolher se continuará preso a narrativas de medo e tecnicismo ou se avançará para um modelo que coloca o cidadão no centro das decisões. O empoderamento do consumidor não é apenas uma questão de justiça social, mas de sobrevivência ambiental e econômica.
A pergunta que fica não é retórica: queremos ser protagonistas da mudança ou espectadores de um planeta em colapso?
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