Os consecutivos e expressivos aumentos da conta de luz estão mudando a forma como as empresas brasileiras enxergam a energia elétrica. Antes tratada como uma despesa operacional inevitável, ela passou a integrar decisões sobre competitividade, fluxo de caixa e gestão financeira, impulsionando uma mudança na relação entre empresas e o setor elétrico.
“Estamos vendo uma mudança na forma como as empresas enxergam energia, porque durante muitos anos ela acabou sendo tratada como uma despesa praticamente inevitável, algo que simplesmente era pago no final do mês e pronto. Mas, hoje, com os reajustes tarifários e aumento da pressão sobre as margens, ela (energia elétrica) passou a fazer parte de uma decisão estratégica das empresas, principalmente para pequenos empresários.”
A avaliação é de Bruno Poljokan, sócio da Liora, uma fintech de energia que atua com soluções e serviços financeiros para o mundo corporativo, em entrevista concedida ao Canal Solar.
O cenário regulatório ajuda a explicar essa mudança de cenário citada pelo executivo: somente em 2026, a ANEEL já aprovou reajustes tarifários em 23 distribuidoras, quase todos eles com elevações acima da inflação e que afetaram mais de 70 milhões de consumidores.
A Roraima Energia, por exemplo, teve reajuste médio aprovado pela Agência de 24,13%, enquanto a Copel registrou alta de 20,51%. Outras concessionárias também tiveram elevações expressivas, como é o caso da CPFL Santa Cruz (18,89%), RGE Sul (16,06%), Enel Rio (15,60%), Cocel (14,58%), Sulgipe (12,87%) e muitas outras.
Para o setor empresarial, a pressão pode ser ainda maior. Na área de concessão da RGE Sul, por exemplo, a tarifa aplicada aos consumidores de alta tensão (grupo que engloba indústrias e grandes empresas) subiu 19,02%.
Nesse contexto, Poljokan afirma que a energia passou a ocupar espaço nas decisões estratégicas das empresas. “Hoje, quando um empresário ou um diretor financeiro senta para discutir competitividade, a minha visão é que a energia entra na mesma conversa de folha de pagamento, preço e capital de giro. Deixou de ser um tema simplesmente operacional e virou um tema financeiro”, disse ele.
Energia como plataforma de serviços
Para o executivo, a previsibilidade e a recorrência da conta de energia também criam oportunidades para novos modelos de negócio, que, segundo ele, vão além da simples redução da fatura.
“Isso acontece porque a conta de energia é uma despesa recorrente, ou seja, é super relevante e extremamente previsível. Então, ela pode ser utilizada não apenas para gerar economia, mas como uma plataforma para oferecer outros serviços”, comentou.
Na avaliação de Poljokan, essa mudança representa uma nova forma de enxergar a energia dentro das empresas. “Na prática, a conversa deixa de ser simplesmente como reduzir a conta de energia e passa a ser como usar uma despesa que a empresa já teria para melhorar a sua gestão financeira”.
Segundo ele, essa tendência deve ganhar força à medida que o mercado amadurece e os consumidores passam a demandar soluções cada vez mais integradas. “Acho que esse acaba sendo o movimento que vai definir a próxima fase do mercado de energia”, afirmou.
“Ou seja, no futuro, a diferença entre empresas não vai ser quem oferece alguns pontos percentuais a mais, de desconto na tarifa, vai ser quem consegue transformar a energia em uma plataforma de serviço financeiro, de relacionamento com o cliente. Acho que essa é a mudança que a gente está começando a enxergar e que a gente acredita de longo prazo”, concluiu Poljokan.
Todo o conteúdo do Canal Solar é resguardado pela lei de direitos autorais, e fica expressamente proibida a reprodução parcial ou total deste site em qualquer meio. Caso tenha interesse em colaborar ou reutilizar parte do nosso material, solicitamos que entre em contato através do e-mail: redacao@canalsolar.com.br.