Com colaboração de Guilherme Pereira
Os acontecimentos recentes envolvendo a Venezuela reacenderam um debate que, no Brasil, ainda costuma ser tratado de forma fragmentada ou excessivamente ideológica: a relação direta entre energia, infraestrutura e soberania nacional.
Ao revisitar O Novo Mapa, de Daniel Yergin, à luz desse contexto, fica evidente que a transição energética não pode ser compreendida apenas como uma agenda ambiental ou tecnológica. Trata-se, antes de tudo, de uma agenda estratégica de poder, segurança e autonomia decisória.
A experiência venezuelana demonstra que soberania deixou de ser um conceito estritamente de política internacional. No mundo contemporâneo, ela passou a depender diretamente da capacidade de um país se organizar, proteger, financiar e atualizar suas infraestruturas críticas.
Estados que perdem essa capacidade tornam-se funcionalmente vulneráveis, abrindo espaço para intervenções externas que não se justificam por discursos ideológicos, mas por critérios materiais: eficiência, controle e capacidade operacional.
Historicamente, toda grande potência consolidou sua posição a partir do domínio de uma fonte energética central. O carvão sustentou o Império Britânico e sua marinha industrial.
O petróleo estruturou o século americano, viabilizando mobilidade, industrialização em larga escala e projeção geopolítica. No século XXI, o eixo do poder desloca-se para a energia elétrica, o armazenamento, os dados e a capacidade computacional.
Não se trata de uma ruptura histórica, mas de uma atualização do mesmo princípio: quem controla energia controla crescimento, estabilidade e capacidade de decisão.
A transição energética, portanto, não elimina a geopolítica da energia. Ela a amplia e a torna mais sofisticada. Além do petróleo e do gás, passam a integrar o núcleo da estratégia nacional os sistemas elétricos resilientes, o armazenamento em escala, os minerais críticos, a digitalização das redes e a integração entre energia, mobilidade e infraestrutura urbana. O discurso ambiental existe, mas a lógica predominante das grandes potências é estratégica.
A economia digital, frequentemente percebida como imaterial, é profundamente física. Data centers, computação em nuvem, telecomunicações, inteligência artificial e serviços públicos digitais dependem de grandes volumes de eletricidade, de forma contínua, previsível e confiável.
Grandes modelos de inteligência artificial já consomem energia equivalente à de cidades médias. O limite da transformação digital não é apenas tecnológico. É energético.
Nesse contexto, a disputa global entre Estados Unidos, China e outras potências deve ser lida como uma disputa por capacidade energética organizada.
Quem consegue ofertar eletricidade abundante, barata e soberana torna-se o território natural da economia digital avançada. Quem não consegue fica restrito ao papel de consumidor de tecnologia, importando soluções, dados processados e decisões estratégicas.
A eletromobilidade ilustra de forma clara essa mudança estrutural. Veículos elétricos não são apenas meios de transporte mais eficientes ou menos emissores.
Eles representam a convergência entre o setor elétrico, a indústria de baterias, os sistemas de dados e a economia urbana. Cada veículo elétrico é, simultaneamente, um ativo de mobilidade, uma unidade móvel de armazenamento de energia e uma plataforma de geração de dados.
Tratar a eletromobilidade apenas como substituição de motores a combustão é um erro estratégico. O verdadeiro debate envolve o domínio das cadeias produtivas de baterias, a infraestrutura de recarga, os sistemas de gestão energética, a integração com redes inteligentes e o controle dos dados gerados pela mobilidade.
Sem esse domínio, a eletrificação da frota pode criar novas dependências externas. Com ele, torna-se instrumento de reindustrialização, eficiência logística, redução de custos urbanos e soberania tecnológica.
O armazenamento de energia ocupa posição central nesse novo arranjo. Não há expansão consistente de fontes renováveis sem soluções de armazenamento que garantam estabilidade, flexibilidade e segurança ao sistema elétrico.
Tampouco há soberania energética sem domínio tecnológico e industrial dessas soluções. Armazenamento é a espinha dorsal da transição energética.
O Brasil encontra-se diante de uma combinação rara de atributos estratégicos: matriz elétrica majoritariamente limpa, escala continental, mercado interno relevante, liderança consolidada em biocombustíveis, potencial significativo em minerais críticos e reservas relevantes de petróleo. Essa pluralidade deve ser encarada não como uma contradição a ser resolvida, mas como vantagem competitiva a ser organizada.
O erro histórico recorrente é cair na lógica da escolha excludente: petróleo versus renováveis, eletrificação versus biocombustíveis. Nenhuma grande potência realizou sua transição energética abandonando abruptamente suas fontes existentes. Todas utilizaram os ativos do presente para financiar o futuro, preservar estabilidade social e manter capacidade de investimento.
Explorar recursos com tecnologia avançada, rigor ambiental e reinvestimento nacional não é retrocesso, é realismo estratégico.
Vantagens naturais, contudo, não se convertem automaticamente em soberania. Sem coordenação entre política energética, política industrial, inovação tecnológica e desenvolvimento territorial, o país corre o risco de continuar exportando atributos naturais e importando soluções estratégicas de alto valor agregado.
Por isso, a transição energética no Brasil precisa ser tratada como política de Estado. Isso implica planejamento de longo prazo, previsibilidade regulatória, fortalecimento de cadeias produtivas locais, investimento consistente em redes elétricas, armazenamento e digitalização, além de governança clara sobre ativos estratégicos.
A transição energética é inevitável. O protagonismo, no entanto, continua sendo uma escolha. No novo mapa da energia, soberania não é discurso nem narrativa. É construção material, cotidiana e estratégica.
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