No primeiro dia de 2026, o SIN (Sistema Interligado Nacional) registrou um comportamento incomum que tende a levar a uma alteração na percepção sobre a dinâmica energética do Brasil, do ponto de vista da produção de eletricidade.
Por volta das 8h10, para uma carga total de 66,2 GW, a geração solar já produzia um montante superior ao das hidrelétricas. Foram 26 GW provenientes da fonte fotovoltaica contra 25 GW da hídrica.
O fato de a solar ultrapassar a principal fonte da matriz brasileira antes das 10 horas da manhã é um detalhe inédito e representa uma mudança expressiva, embora esperada, no comportamento da oferta de energia, segundo aponta análise publicada nesta quinta-feira (1º), em uma rede social, pelo consultor Edvaldo Santana, ex-diretor da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) e atual diretor executivo da NEAL (Negócios de Energia Associados).
Apenas duas horas após esse marco, descreve Santana, a produção solar saltou para 31 GW, passando a suprir mais de 45% da carga total do País naquele momento.
Dominância
Dados comparativos, destaca a análise, mostram que o potencial de expansão é ainda mais arrojado. No dia 30 de dezembro último, no horário das 11h20, a fonte solar chegou a produzir 40 GW.
Caso esse desempenho tivesse se repetido no feriado de 1º de janeiro, cerca de 65% de toda a carga nacional teria sido atendida exclusivamente pela luz do sol, destaca Edvaldo Santana.
Essa dominância solar forçou as usinas hidrelétricas a uma retração brusca, avalia, resultando no que pode ter sido a maior rampa negativa de geração já registrada na história do sistema brasileiro. Ou seja, em apenas três horas, a produção hídrica despencou de 54,5 GW (às 5h10) para apenas 24,3 GW (às 8h10).
O efeito visual dessa queda, se colocada em um gráfico, seria “chocante”, qualifica Santana, evidenciando o esforço do sistema para acomodar a intermitência e o crescimento da fonte solar.

Novo padrão
Segundo a visão do profissional, o Brasil está entrando em um período onde o “Senhor da Luz” (Apolo) começa a ganhar disputas sistemáticas contra o “Senhor das Chuvas”. Santana destaca que, desde meados dos anos 1980, as hidrelétricas não geravam um volume tão baixo de energia durante o período úmido.
No entanto, ele pondera que, embora o setor pareça estar de “ponta-cabeça” com apenas 24 GW de produção hídrica em plena época de chuvas, este é o padrão que deve ser esperado de agora em diante, especialmente em feriados.
Para o ex-diretor da ANEEL, a frequência com que a geração solar atingirá a marca de 40 GW ou mais exige atenção total do ONS (Operador Nacional do Sistema), que já monitora essa transição.
Santana observa que, com a solar em patamares tão elevados, as hidrelétricas acabam operando em níveis mínimos (por vezes gerando no máximo 20 GW) devido à necessidade de manter a produção das usinas nucleares e a inflexibilidade das usinas termelétricas.
Essa nova configuração, ressalta Santana, reafirma que o protagonismo solar não é mais um evento isolado, mas a base do novo modelo operacional brasileiro.
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