O mercado brasileiro de energia solar e armazenamento via baterias caminha para um ano de grandes mudanças em 2026. De um lado, pressões internacionais devem elevar os custos de equipamentos.
De outro, o avanço da geração distribuída, o fortalecimento do modelo behind the meter (BTM) e a crescente demanda por backup energético reforçam a relevância dos sistemas BESS (Battery Energy Storage System) na matriz elétrica nacional.
A análise é de Harry Neto, Diretor de Negócios Solar, BESS & Building da WEG, que compartilhou uma visão estratégica por meio de um vídeo nas redes sociais. Segundo ele, a conjuntura internacional, especialmente envolvendo a China, será determinante para o comportamento de preços já a partir do segundo trimestre do ano.
“Já vemos um aumento nos preços dos módulos fotovoltaicos desde o final do ano passado. Agora, com o governo chinês suspendendo a isenção de 9% na tarifa de exportação, esses painéis passarão a ser tributados integralmente a partir de abril”, afirmou.
A medida também afeta os inversores solares e sistemas de armazenamento, com tributação de 3%. Ainda assim, os módulos devem sentir o maior impacto.
“No segundo trimestre já deve ter, no mínimo, um aumento de 9%, além do aumento que está vindo desde o ano passado”, reforçou o especialista.
Geração distribuída ganha força no residencial; usinas desaceleram
A GD (geração distribuída) continua como o motor do setor fotovoltaico nacional, com destaque para o segmento residencial, que demonstra forte tração, em contraste com a redução no ritmo de novos projetos de usinas de maior porte.
“Essas usinas estão mais paradas, com poucos projetos em GD0 e GD1 que exigem reforço de rede. Ao mesmo tempo, há uma competição com usinas já prontas e uma sobreoferta no mercado de alto consumo remoto”, explicou Harry.
Com isso, investidores têm optado por soluções mais próximas do consumo, aproveitando o movimento de migração para o mercado livre de energia, no qual consumidores podem negociar diretamente seus contratos.
“Vemos um aquecimento da migração para o mercado livre junto à carga, o chamado modelo Behind the Meter. Trata-se de conectar a geração solar diretamente à carga, complementando com sistemas BESS para operar fora da ponta e servir de backup”, analisou.
Demanda por baterias cresce com foco em segurança e economia
Um dos pontos centrais da análise está na crescente valorização das baterias como sistema de backup e gestão energética, um reflexo direto de falhas recentes no fornecimento elétrico em diversas regiões do país.
“Depois dos apagões que vimos no ano passado, há uma forte adesão à ideia de agregar bateria tanto no residencial quanto no comercial. Elas atuam como backup e ainda permitem economia com a migração de energia de ponta para fora da ponta.”
Harry destaca que a elevação das tarifas de energia, impulsionada por encargos regulatórios, tende a manter a atratividade dos sistemas de GD com armazenamento.
“O custo da energia vai continuar subindo. Isso mantém a viabilidade de projetos em geração distribuída com BESS, especialmente agora com inversores híbridos no mercado residencial”, acrescentou.
No setor comercial, Harry observa um amadurecimento técnico na utilização das baterias.
“O segmento comercial está indo além. Já trabalha com empilhamento de receita, ou seja, usa a bateria para várias finalidades ao mesmo tempo, como backup, economia em horários de pico e até suporte à demanda”, comentou.
Usinas de grande porte travadas, mas leilão de BESS pode destravar mercado
No segmento de usinas de grande porte, o cenário é de estagnação. Um dos entraves é o curtailment, fenômeno em que parte da geração é desconectada da rede devido a restrições estruturais.
“O mercado está bastante devagar, principalmente pelos problemas de curtailment. Isso trava muitos projetos e traz insegurança”, pontuou.
Como resposta, o setor aguarda com expectativa o leilão de BESS anunciado para abril de 2026, voltado justamente para viabilizar sistemas de armazenamento em larga escala que aliviem a sobrecarga da rede elétrica.
“Esse leilão será fundamental para resolver esse gargalo. Deve abrir novas frentes e preparar a rede para um novo ciclo de expansão da energia solar centralizada”, afirmou.
Perspectivas: solar mais cara, mas mais estratégica
Apesar do aumento nos custos dos equipamentos, a percepção de Harry Neto é de que o setor caminha para um amadurecimento técnico e estratégico, com novos modelos de negócio ganhando força e mais sinergia entre geração e consumo.
“O mercado não vai desacelerar. Pelo contrário, vamos ver uma transição. Menos projetos especulativos e mais soluções integradas com baterias, backup, mercado livre e eficiência”, projetou.
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