A abertura oficial da Consulta Pública nº 001/2026, realizada pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) na última terça-feira (27), sobre a modernização dos sistemas de medição no Brasil, representa um passo relevante para o setor elétrico.
No entanto, para José Wanderley Marangon Lima, conselheiro do INEL (Instituto Nacional de Energia Limpa) e integrante da diretoria da área de Recursos Energéticos Distribuídos da ABGD (Associação Brasileira de Geração Distribuída), a iniciativa ainda é insuficiente diante das reais necessidades de transformação da relação entre o consumidor e a rede elétrica.
Para o especialista, a digitalização do consumo já é uma realidade no dia a dia das pessoas, com a crescente presença de eletrodomésticos conectados.
“Começamos a interagir com equipamentos inteligentes, no caso residencial, geladeira inteligente, ar-condicionado inteligente, máquina de lavar inteligente. Toda essa inteligência se comunica com o medidor. Eu entendo que o medidor vai ser o futuro, o grande centro de interface entre o consumidor e a rede”, explicou.
Na análise de Marangon, apesar da possibilidade de conexão à internet e atualização de software, o modelo atualmente proposto ainda carece de funcionalidades mais avançadas.
Para ele, o verdadeiro potencial dos smart meters está na capacidade de gerenciar recursos energéticos de forma integrada, permitindo uma gestão mais eficiente da carga, com impactos diretos no conforto e no perfil de consumo.
“O medidor poderá fazer a gestão dos recursos de uma residência, de um comércio, de uma pequena indústria, buscando uma maior eficiência no uso da energia, mas também controlar melhor a curva de carga”, destacou.
“A ideia é que, ao se instalar esse medidor, o consumidor consiga atender os seus requisitos de conforto, com o mínimo de perturbação do seu hábito de consumo”, acrescentou.

Para que esse modelo funcione plenamente, no entanto, Marangon ressalta a importância de sinais econômicos mais claros ao consumidor, especialmente por meio de estruturas tarifárias mais dinâmicas.
“Se eu estou querendo botar um medidor horário, ou de um quarto de hora, ou de meia hora, eu preciso ter sinais de preço adequados. Essa estrutura de sinal de preço aqui ainda tem muitos passos a serem dados no Brasil”, afirmou.
Na visão do especialista, tanto a tarifa branca quanto a proposta atual de medição avançam em ritmo inferior ao necessário. “Acho que, assim como a tarifa branca está atrasada, o medidor proposto também está atrasado. O Ministério quer que a cada ano 2% de medidores sejam trocados por medidores inteligentes. Isso não existe, ou faz ou não faz”, apontou. Diante desse cenário, Marangon defende uma transformação estrutural mais ampla no modelo do setor elétrico.
“Ou estudamos um novo modelo do setor, para fazer uma grande revolução e oferecer essas ferramentas para o consumidor, com uma comunicação boa, ou esse processo vai continuar muito lento”, comenta. Apesar disso, ele reconhece a importância do debate aberto pela ANEEL e pelo MME.
“A iniciativa é importante, é louvável, porém l temos que sentar, conversar com a sociedade, com as associações, e propor uma coisa realmente efetiva e compatível com a cultura brasileira. Esse processo não é simples, mas precisa ser tratado com maior seriedade”, concluiu.
Entenda a consulta pública
Segundo a ANEEL, a iniciativa tem como objetivo reunir contribuições que subsidiem decisões sobre a necessidade e o formato de uma eventual intervenção regulatória, avaliando os impactos técnicos, econômicos e operacionais para consumidores, distribuidoras e para a própria transição energética.
Com a consulta pública aberta, as distribuidoras de energia e os consumidores terão a oportunidade de discutir as melhores práticas para a adoção dos medidores inteligentes em todo o território nacional. As contribuições podem ser enviadas de 29 de janeiro a 16 de março de 2026, pelo e-mail cp001_2026@aneel.gov.br.
Diretrizes para implantação
Esta abertura ocorre em paralelo a um novo movimento do MME (Ministério de Minas e Energia) para acelerar a digitalização do setor elétrico.
Por meio da Portaria Normativa nº 126/2026, a pasta redefiniu as diretrizes para a implantação dos sistemas de medição inteligente no país, estabelecendo, pela primeira vez, uma meta mínima obrigatória de expansão no curto prazo.
De acordo com a nova norma divulgada pelo MME, as concessionárias de distribuição deverão assegurar a implantação adicional de sistemas de medição inteligente no percentual de 2% ao ano das unidades consumidoras, pelo prazo de 24 meses, a partir de 1º de março de 2026.
Desta forma, a nova diretriz obriga as distribuidoras a acelerar a modernização do parque de medição até março de 2028.
Já a escolha das unidades consumidoras deverá seguir critérios técnicos e operacionais, priorizando regiões com infraestrutura disponível, áreas contíguas e, principalmente, locais com maiores índices de perdas não técnicas e elevados custos de operação.
A expectativa é que essa abordagem maximize os benefícios econômicos e regulatórios da implantação dos medidores inteligentes.
A norma também autoriza a adoção de soluções alternativas à instalação direta dos smart meters — dispositivos capazes de monitorar e controlar o consumo de energia elétrica de forma precisa e em tempo real, trazendo benefícios tanto para consumidores quanto para distribuidoras.
Nesses casos, as concessionárias deverão comprovar vantagens concretas para os usuários e direcionar investimentos equivalentes à digitalização da rede ou à modernização dos serviços, assegurando ganhos operacionais, eficiência e qualidade no atendimento.
O texto define um conjunto mínimo de funcionalidades obrigatórias, como leitura remota, registro de interrupções, alarmes antifraude, mecanismos de segurança cibernética, interoperabilidade e possibilidade de tarifação horária.
Do ponto de vista regulatório, os medidores inteligentes passam a ocupar posição estratégica no combate às perdas, à inadimplência e às fraudes, ao permitir ações como corte e religamento remotos, além de maior rastreabilidade das operações.
Outro avanço relevante é a priorização da fatura digital para consumidores atendidos por esses sistemas, preservado o direito de solicitação do envio físico. A medida reforça o movimento de digitalização dos serviços e busca ampliar a transparência na relação entre distribuidoras e usuários.
No médio e longo prazos, a principal mudança estrutural está na exigência de que as distribuidoras apresentem à Aneel, até fevereiro de 2028, uma Análise de Custo-Benefício detalhada, considerando horizonte mínimo de 10 anos.
O estudo deverá quantificar os impactos econômicos, operacionais e regulatórios da implantação dos smart meters.
A partir de março de 2028, a expansão dos sistemas deverá ser orientada diretamente pelos resultados dessas análises, cabendo à ANEEL reconhecer na base regulatória apenas os investimentos considerados eficientes e prudentes, consolidando seu papel como árbitra técnico-econômica do processo.
Além disso, a Portaria nº 126/2026 institui a obrigação de apresentação anual ao MME de um Plano de Investimentos com horizonte de cinco anos, contemplando aportes em digitalização, modernização da rede, comunicação com consumidores, redução de perdas e inclusão energética.
Apesar do avanço regulatório, especialistas apontam que o modelo de medição inteligente proposto ainda apresenta limitações técnicas e conceituais frente ao potencial de transformação do setor elétrico.
Segurança cibernética dos medidores inteligentes
Nesse contexto de expansão acelerada da medição inteligente e de maior digitalização das redes de distribuição, um dos pontos que ganha centralidade no debate é a segurança cibernética dos sistemas.
À medida que o Brasil se prepara para a instalação de milhões dos novos medidores inteligentes, cresce também a preocupação com a proteção de dados, a integridade das informações e a resiliência das infraestruturas digitais do setor elétrico.
Com o aumento das interações digitais entre consumidores e distribuidoras, as redes elétricas inteligentes também se tornam mais vulneráveis a ataques.
Yanael Medeiros, engenheira da CS Consultoria, mencionou que os medidores inteligentes estão sendo projetados com múltiplas camadas de segurança, incorporando as melhores práticas de proteção de dados e normas internacionais.
“Entre as principais tecnologias aplicadas estão a criptografia de dados, a autenticação entre dispositivos, o uso de protocolos seguros de comunicação, a segmentação lógica da rede e a implementação de sistemas de detecção de intrusão”, explicou.
“Além disso, esses equipamentos contam com atualização remota segura, que permite corrigir eventuais falhas sem comprometer a integridade do sistema. É importante destacar que os protocolos de segurança podem variar conforme o fabricante do medidor. Por isso, sempre que possível, é fundamental consultar as especificações técnicas do fabricante para compreender de forma mais detalhada os mecanismos de proteção adotados e garantir que o dispositivo esteja configurado de acordo com as exigências de segurança da concessionária e do setor elétrico”, enfatizou.
Redução de perdas técnicas na rede elétrica
Uma das grandes promessas dos medidores inteligentes é a capacidade de reduzir perdas na rede elétrica. As distribuidoras de energia têm enfrentado perdas tanto técnicas, relacionadas à resistência dos componentes do sistema, quanto não técnicas, como furtos de energia.
A engenheira destacou que os dispositivos são fundamentais para distinguir essas duas categorias, proporcionando dados precisos de consumo, tensão e corrente.
Abertura do mercado livre tende a impulsionar a expansão da medição inteligente
Com essa informação detalhada, as distribuidoras conseguem identificar áreas com desequilíbrios ou sobrecargas e tomar ações corretivas de maneira rápida e eficaz.
“O cruzamento das medições em baixa tensão com os dados de fronteira da média tensão permite calcular indicadores de eficiência energética em tempo real, o que aprimora as estratégias de manutenção preventiva e auxilia na priorização de investimentos nas regiões com maior índice de perdas”, justificou.
A modernização e os benefícios para consumidores e distribuidoras
Companhias como Cemig, Copel e CPFL Energia já estão investindo na substituição de medidores tradicionais por modelos mais avançados.
A Cemig, por exemplo, já substituiu mais de 2 milhões de medidores em Minas Gerais, e projeta a instalação de 400 mil novos dispositivos só em 2025.
Além do envio de dados em tempo real para as distribuidoras, os medidores modernos enviam aos consumidores um controle mais preciso sobre seu consumo energético, com a promessa de uma relação mais transparente e eficiente com a empresa fornecedora.
A Copel, no Paraná, havia implementado um programa de grande escala, com a meta de instalar 2 milhões de medidores inteligentes até o final de 2025, cobrindo 155 municípios.
Com mais de 1,7 milhão de dispositivos já em operação, a distribuidora se destaca pela integração dos medidores com aplicativos móveis, permitindo que os clientes monitorem e ajustem seu consumo de energia de maneira simples e direta
A CPFL Energia, por sua vez, prevê a substituição de 1,6 milhão de medidores convencionais até 2029, com investimento total de R$ 1,2 bilhão.
O projeto, que será implantado em cidades do interior de São Paulo, também visa a integração das tecnologias de smart grids, colocando o cliente no centro da transformação e permitindo um acompanhamento detalhado e em tempo real do consumo.
Qualidade da energia e estabilidade da rede
A qualidade da energia é outro aspecto crucial em uma rede elétrica inteligente. Os medidores inteligentes desempenham um papel importante na detecção precoce de distúrbios elétricos, como variações de tensão e desequilíbrios entre fases, problemas que podem comprometer a continuidade do fornecimento.
A engenheira ressaltou que esses dispositivos permitem identificar e corrigir falhas antes que elas se tornem problemas maiores, impactando diretamente na estabilidade da rede.
As distribuidoras, por sua vez, estão investindo fortemente em dispositivos que oferecem monitoramento detalhado em tempo real.
A Copel, por exemplo, integra esses medidores com aplicativos móveis, permitindo que os consumidores acompanhem e ajustem seu consumo de energia diretamente do celular.
Essa transparência e controle são vistos como uma vantagem para os consumidores, que agora têm mais autonomia para gerenciar seu consumo e evitar surpresas na fatura.
Além disso, quando os medidores inteligentes são integrados a sistemas de automação e análise preditiva, eles podem detectar padrões de degradação e otimizar a manutenção da rede.
Esse tipo de tecnologia ainda pode melhorar os indicadores de continuidade do fornecimento, como o DEC (Duração Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora) e o FEC (Frequência Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora).
Em um exemplo prático, a engenheira mencionou a importância desses medidores na avaliação da qualidade da energia, especialmente em regiões com MMGD (micro e minigeração distribuída), onde os inversores de baixa qualidade podem gerar harmônicos prejudiciais à rede.
“É importante observar que alguns fabricantes especificam uma distância mínima entre o inversor e o medidor, tanto para assegurar a precisão das medições quanto para garantir a conformidade com as normas da concessionária e a segurança da instalação. Portanto, ao adquirir e instalar um medidor inteligente, é fundamental consultar o manual técnico do fabricante e seguir as recomendações de instalação, garantindo o pleno funcionamento e a confiabilidade dos dados medidos”, completou.
A visão dos fabricantes
Fabricantes de medidores inteligentes também estão de olho nas oportunidades trazidas pela consulta pública. Empresas como Eletra Energy e Nansen destacam a importância de um ambiente regulatório claro e estável para fomentar novos investimentos.
A Eletra Energy, com sua fábrica no Ceará, aposta em medidores com alta robustez, segurança cibernética e interoperabilidade entre diferentes protocolos de comunicação.
Para Ronaldo Lucas, diretor comercial da empresa, a substituição de medidores tradicionais por modelos inteligentes impõem benefícios para as distribuidoras e também para os consumidores, ao garantir maior transparência e controle sobre o uso da energia.
A Nansen, com sede em Manaus e presença em diversas regiões do Brasil, já é outra que participa da implantação de milhões de medidores no país.
Ciro Lima, CMO da Nansen, aponta que a maior transparência e a previsibilidade no setor elétrico são fundamentais para garantir uma adoção mais rápida e eficiente das novas tecnologias.
Ele afirma que os medidores inteligentes são a chave para transformar o setor em um modelo mais sustentável e eficiente, reduzindo perdas e promovendo a integração de fontes renováveis.
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