Fundada em 2017 e com sede em Curitiba, a COGECOM se apresenta como a primeira cooperativa de geração distribuída do país. Atualmente, a cooperativa administra 480 MW em usinas e atende mais de 60 mil unidades consumidoras, com atuação nos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás e São Paulo.
Em 2025, a COGECOM investiu cerca de R$ 5 milhões em tecnologia e estrutura operacional, e encerrou o ano com crescimento de 40% na base de clientes. Para 2026, a expectativa é ampliar essa base em 38%, além de incorporar 20 MW adicionais em novas usinas já no primeiro semestre.
O Canal Solar conversou com Rafael Fontes, Gerente Comercial da cooperativa, que faz um balanço de um ano marcado por incertezas regulatórias, detalha os ganhos de eficiência com o uso de inteligência artificial e comenta as perspectivas para 2026. Confira os principais trechos da entrevista.
Para começar, como foi o ano de 2025 para a COGECOM?
Foi um ano fantástico para nós. Mesmo diante de muitas incertezas e movimentos regulatórios bastante complexos, conseguimos crescer e alcançar aquilo que havíamos projetado, não só em termos de números, mas principalmente em construção de negócio, personalização e aprimoramento dos nossos processos.
As incertezas regulatórias nos obrigaram a adaptar produtos, fluxos comerciais, parcerias e a própria estrutura da cooperativa. Isso acabou sendo uma oportunidade. Melhoramos muito o que entendemos como cooperativismo, como parceria comercial e como construção de um ecossistema cooperativista. Foi, de fato, um ano incrível.
Cogecom: usinas solares gerenciadas mais que dobram em apenas 1 ano
Quais números ajudam a dar materialidade a esse resultado?
Encerramos o ano com cerca de 480 MW de potência instalada sob gestão, com uma geração mensal próxima de 86 GWh, dentro do previsto. Chegamos a 60 mil unidades consumidoras ativas, distribuídas em oito estados e atendidas por 12 concessionárias.
Esse volume trouxe uma demanda enorme de processamento e gestão. Nosso sistema operacional precisou ser revisto várias vezes ao longo do ano. Hoje ele é muito mais robusto para captura, processamento e gestão de energia. Isso traz segurança não só para os clientes, mas também para investidores e parceiros comerciais.
Além disso, houve uma mudança importante de visão: passamos a tratar a energia solar não apenas como uma solução tecnológica, mas como um instrumento de inclusão econômica. A GD sempre teve esse papel, mas em 2025 ela passou a ser tratada como um lastro econômico para fortalecer cooperados, investidores e parceiros.
Esses 60 mil clientes representam qual crescimento em relação aos anos anteriores?
Tínhamos uma meta de crescimento de cerca de 40% na base ativa, e alcançamos 40,2%. As 60 mil unidades consumidoras ativas refletem exatamente esse crescimento. Temos ainda unidades em processos de migração, desligamento ou transição de segmento, que ficam na base, mas não entram como ativas.
E em termos de consumo?
O consumo mensal gira em torno de 70 a 72 GWh. Trabalhamos sempre com um pequeno excedente de geração para garantir atendimento em momentos de pico. Atuamos em oito estados e atendemos desde grandes redes de farmácias, restaurantes e varejo até consumidores menores.
Em 2025, também ampliamos nossa atuação para clientes em alta tensão. Além da solar, contamos com fontes hídricas e térmicas, o que permite compensação inclusive em horário de ponta.
Quantas usinas estão hoje sob gestão da cooperativa?
São cerca de 1.600 usinas ativas. Em quantidade, aproximadamente 80% são solares, e os outros 20% se dividem entre hídricas e térmicas. Em termos de geração, a solar responde por algo em torno de 60%, enquanto as hídricas e térmicas têm produção mais contínua e volumes maiores.
As térmicas utilizam quais combustíveis?
Principalmente biomassa, resíduos de madeira, cavaco. Temos duas unidades a biogás, mas ainda com desempenho limitado. Em larga escala, o biogás ainda enfrenta desafios técnicos importantes.
Você citou incertezas regulatórias. Pode detalhar?
As MPs 1300 e 1304 trouxeram muitas dúvidas. Houve pontos sensíveis sobre compensação, tarifas, subsídios e abertura antecipada do mercado. Isso afeta diretamente investidores, cooperados e a previsibilidade dos contratos.
Outro ponto crítico é a capacidade da rede de distribuição. A MMGD cresce rapidamente – há projeções de até 64 GW até 2030 – e a rede ainda não está preparada. Faltam capacidade, processos e agentes para lidar com listas de rateio, compensações e operações. Tudo isso torna a escalabilidade um grande desafio.
Com as MPs avançando, como vocês enxergam 2026?
A MP 1304 ainda gera apreensão enquanto não passa por todo o processo de sanção. Existe um déficit claro de investimentos em rede de distribuição, e isso precisa ser endereçado.
Mesmo assim, 2026 é um ano fundamental para nós. O foco é fortalecer ainda mais o ecossistema cooperativista, conectando cooperados, investidores e parceiros comerciais. A energia deixou de ser apenas um produto de economia e passou a ser um vetor de desenvolvimento econômico.
Há expectativa de crescimento em número de clientes?
Sim. Nossa prioridade é retenção e educação do cliente. Investimos muito em conscientização sobre consumo, produção e impacto econômico da energia. Esperamos crescer cerca de 38%, variando entre 35% e 38% conforme o estado, com possível expansão para São Paulo.
Vocês devem adicionar novas usinas à gestão?
Temos contratos de conexão até 2032, que entram automaticamente conforme as usinas são conectadas. Mesmo com incertezas como fio B e TUSD, o mercado solar continuou crescendo, impulsionado por redução de custos de equipamentos e logística. Devemos adicionar com tranquilidade cerca de 20 MW de potência já no primeiro semestre.
Como evoluiu o perfil dos cooperados ao longo dos anos?
Temos mais CPFs em quantidade, mas o CNPJ concentra o maior volume de consumo. Nos últimos anos, houve um movimento natural de grandes clientes buscando autoprodução, mercado livre ou soluções próprias, o que torna esse perfil mais escasso.
O mercado, e nós junto com ele, caminha para o consumidor de menor porte, especialmente residencial. Isso exige mais automação, velocidade e segurança operacional. Em 2025, tivemos uma entrada muito grande de clientes de baixo consumo, mantendo os grandes.
Quais setores se destacam entre os clientes CNPJ?
É bastante variado: tecnologia, combustíveis, alimentação, varejo, medicamentos, hotéis, condomínios, contabilidade, panificadoras, mercados. Temos mais de 180 CNAEs registrados. Farmácias, por exemplo, representam centenas de unidades para um único CNPJ.
Quanto vocês têm investido para melhorar a gestão?
Entre 2023 e 2024, investimos alguns milhões no desenvolvimento do nosso software. Em 2025, foram investidos cerca de R$ 5 milhões, entre plataforma, desenvolvedores e serviços complementares.
Apesar da automação, mantemos um atendimento fortemente humanizado. Temos mais de 120 pessoas dedicadas à experiência do cliente. Tentamos automatizar totalmente no passado, mas não funcionou. O cliente quer falar com pessoas.
E o papel da inteligência artificial?
A IA tem um papel gigantesco no nosso negócio. A IA analisa listas de rateio, faturas, identifica erros de compensação e tributação, faz pré-atendimento, pré-venda e até fechamento em alguns canais. O maior ganho foi no billing, faturamento e projeções de produção. Ela permite identificar erros rapidamente e tomar decisões muito mais ágeis.
Como vocês estão se preparando para a reforma tributária?
Desde o anúncio, adaptamos sistemas de faturamento, emissão de recibos e notas. A locação passou a ser tratada como serviço tributável, exigindo mudanças profundas no layout de faturas, plataformas de pagamento e controles internos. Ainda bem que há um período de transição.
Como a padronização das faturas pelas distribuidoras ajuda no negócio de GD?
Para nós, é excelente. Sempre defendemos isso. Internamente, já criamos identificadores únicos. Com a padronização oficial, a expectativa é de maior organização. O receio é o período de transição, para evitar erros de faturamento e compensação, mas no médio prazo é um avanço enorme.
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