Imagine uma avenida de bairro onde, todo fim de semana, funciona uma grande feira. Cada feirante faz sua parte: melhora a barraca, capricha na limpeza, treina o atendimento, faz promoção, cria combos, amplia o mix.
A rua enche. As vendas acontecem. E, aos poucos, muitos passam a achar que a feira “se sustenta sozinha”, apenas pelo esforço individual de vender mais.
Até que um dia chega um aviso da prefeitura: o alvará vai mudar. Novas exigências, novas taxas, novas regras de funcionamento — algumas razoáveis, outras discutíveis, mas todas com um efeito imediato: sem previsibilidade, a feira vira um risco.
E aí aparece a lição que o mercado costuma esquecer: feira boa não sobrevive só de marketing e vontade de vender; feira boa precisa de ambiente institucional estável.
O setor solar viveu algo parecido em 2025. Foi um ano conflituoso, de pressão regulatória e legislativa, em que a discussão deixou de ser apenas tecnológica e passou a ser, de forma explícita, política e institucional.
E 2026 tende a ser ainda mais exigente, porque o mercado entra com sinais mistos: de um lado, projeções apontam desaceleração na expansão total da fonte solar; de outro, há expectativas de crescimento da geração distribuída — mas condicionadas a um ambiente mais previsível e funcional.
Nessa hora, vale voltar à metáfora: não adianta ter a melhor barraca da feira se a avenida perde o alvará — ou passa a operar sob incerteza.
O macro (regras, ritos, governança, segurança jurídica e custo de capital) é o chão em que o micro (vendas, eventos, treinamento, marketing) pisa. Quando o macro se degrada, o micro vira espuma: muito esforço, muita energia, pouca conversão sustentável.
O episódio mais didático de 2025 foi a tramitação da MP 1.304. Em versões iniciais do debate, discutiu-se uma cobrança adicional associada à energia compensada na geração distribuída — um desenho que, na prática, teria reprecificado investimentos e colocado insegurança no mercado.
No dia decisivo, a Câmara derrubou o dispositivo por ampla maioria (233 a 148), e o texto seguiu sem essa cobrança. Independentemente das leituras políticas do episódio, a lição é objetiva: o “alvará” do setor pode ser reescrito rapidamente — e é a presença institucional que evita que a avenida feche.
É nesse ponto que entra uma agenda de maturidade para 2026: o setor precisa tratar Brasília como parte do negócio. Não é “política” no sentido pejorativo; é política pública, com ritos, arenas, custo de oportunidade e necessidade de coordenação.
Um exemplo concreto de capilaridade institucional é a FREPEL (Frente Parlamentar Mista da Energia Limpa), coordenada pelo deputado federal Lafayette de Andrada (Republicanos-MG). Segundo o Portal da Câmara, a FREPEL tem hoje 189 deputados signatários e 9 senadores listados.
E aqui vale um registro pedagógico: desde a instalação da FREPEL, há um arranjo institucional pelo qual o INEL (Instituto Nacional de Energia Limpa) atua como parceiro técnico estruturante da Frente, sendo também, na prática, quem sustenta o esforço orçamentário necessário para viabilizar estudos, eventos e produção de subsídios qualificados ao longo do ano — um custo permanente que raramente encontra compartilhamento no setor.
Outras iniciativas, como o Movimento Solar Livre (MSL), cumprem um papel relevante de mobilização e representação com ampla capilaridade e foco na microgeração distribuída, estando mais distantes de outros temas, como armazenamento e curtailment que exigem interação.
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