Empresa alega que mudanças regulatórias, curtailment e expansão da geração solar modificaram as condições mercadológicas no setor elétrico, prejudicando sua operação.
A Tradener protocolou um pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperação Judicial da Comarca de Curitiba (PR), em um processo que envolve um passivo estimado em R$ 1,7 bilhão.
A medida marca um dos episódios mais relevantes já registrados entre comercializadoras do Mercado Livre de Energia e evidencia os impactos que mudanças regulatórias e operacionais vêm impondo às empresas do setor.
Na petição, a companhia sustenta que a deterioração econômico-financeira foi provocada por uma combinação de fatores que alteraram profundamente a dinâmica do mercado nos últimos anos.
Entre eles, a empresa cita as mudanças metodológicas na formação do PLD horário, o descolamento entre submercados, o avanço da geração solar, eventos de curtailment e os descasamentos entre as curvas horárias de geração e consumo nos contratos de compra e venda de energia.
Segundo a Tradener, a recuperação judicial tornou-se necessária para evitar que medidas individuais de credores inviabilizem as negociações em curso e comprometam a continuidade das operações.
A empresa afirma que vinha conduzindo um processo de recuperação extrajudicial e já havia obtido adesão superior a 20% dos credores às propostas apresentadas para adequação das curvas de entrega de energia. Havia expectativa, inclusive, de alcançar o quórum mínimo necessário para homologação do plano.
No entanto, a companhia relata que parte das contrapartes passou a adotar medidas consideradas mais agressivas, incluindo notificações de rescisão contratual, vencimento antecipado de obrigações e exigência de garantias adicionais.
Na avaliação da comercializadora, essas iniciativas provocaram retenção de recursos essenciais à operação e aceleraram o agravamento da crise financeira.
Disputa judicial sobre curvas horárias
Outro ponto central do pedido envolve a disputa judicial relacionada às curvas horárias de entrega de energia. A Tradener havia conseguido decisão favorável na Justiça do Paraná autorizando o cumprimento das entregas conforme as curvas horárias efetivas de geração, e não de acordo com os perfis originalmente contratados.
Credores e contrapartes, porém, recorreram da decisão. Com isso, segundo a empresa, surgiu o risco de aplicação de multas diárias milionárias, mesmo diante da alegada impossibilidade operacional e econômica de cumprir integralmente os contratos nos moldes originais.
A comercializadora afirma que o cenário a obrigou a rescindir determinados contratos. As rescisões, somadas às restrições financeiras e operacionais enfrentadas ao longo dos últimos meses, elevaram de forma significativa o passivo da companhia.
“O ajuizamento da recuperação judicial passou a constituir a única medida capaz de resguardar a continuidade das operações”, argumenta a empresa no processo.
PLD horário e volatilidade
No pedido, a Tradener dedica parte relevante da argumentação aos impactos estruturais provocados pela evolução do modelo de formação de preços no setor elétrico.
A empresa afirma que, até 2024, sobras e déficits energéticos ao longo do dia tendiam a se compensar financeiramente, uma vez que o PLD horário apresentava comportamento mais estável.
Esse equilíbrio, segundo a companhia, foi rompido após alterações regulatórias implementadas nos últimos anos, especialmente a introdução do PLD horário, em 2021, e mudanças em 2025 nos parâmetros de aversão ao risco utilizados nos modelos computacionais de formação de preços.
Na visão da Tradener, as alterações tornaram o modelo mais conservador, incentivando despacho termelétrico preventivo e preservação de reservatórios mesmo em cenários de baixa probabilidade de escassez hídrica.
Como consequência, o PLD passou a registrar oscilações durante o dia muito mais intensas, com preços elevados no período noturno e valores reduzidos durante o dia.
Esse movimento atingiu diretamente empresas expostas a descasamentos horários entre compra e venda de energia.
Segundo a comercializadora, nos horários em que havia sobra de energia, os preços baixos reduziram os créditos recebidos na liquidação da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica). Já nos períodos de déficit, os valores elevados do PLD ampliaram de forma expressiva os débitos financeiros.
“Na prática, a Tradener passou a receber menos pela energia excedente e pagar mais pela recomposição da energia faltante”, afirma a companhia.
Geração solar e curtailment ampliaram exposição
A empresa também atribui parte relevante da deterioração financeira ao avanço acelerado da geração solar no país. Como a produção fotovoltaica se concentra principalmente durante o dia, houve aumento estrutural da oferta de energia nos horários diurnos, pressionando os preços para baixo justamente nos períodos em que a empresa possuía excedentes energéticos.
Além disso, a Tradener aponta os efeitos do curtailment como outro fator relevante para a crise. Segundo a companhia, o problema afetou especialmente o submercado Nordeste, região onde historicamente a empresa concentra parte relevante da compra de energia.
A comercializadora afirma que tentou recompor sua carteira ao longo de vários meses. Entre junho de 2025 e fevereiro de 2026, foram realizadas 17 chamadas públicas envolvendo mais de 440 empresas em busca de energia compatível com as curvas de carga da carteira da companhia.
Ainda assim, segundo a empresa, não houve liquidez suficiente para viabilizar operações capazes de reduzir adequadamente a exposição.
Perdas milionárias
Os números apresentados pela Tradener indicam o tamanho da deterioração financeira. De acordo com a companhia, apenas em março de 2026 a liquidação das diferenças na CCEE, considerando o PLD horário e as curvas originalmente contratadas, poderia gerar perda de aproximadamente R$ 47 milhões em um único mês.
A empresa afirma ainda que, desde 2024, já desembolsou cerca de R$ 180 milhões em decorrência dessas distorções operacionais e regulatórias. Segundo a petição, os valores superaram a capacidade de absorção financeira da companhia e comprometeram severamente sua liquidez.
“A crise enfrentada decorre da combinação extraordinária de múltiplos fatores: alterações regulatórias e metodológicas na formação do PLD; aumento da volatilidade intradiária; crescimento acelerado da geração solar; fenômenos de curtailment; descolamento entre submercados; retração de liquidez no Mercado Livre; e impossibilidade prática de recomposição da carteira em condições aderentes às curvas originalmente contratadas”, sustenta a empresa.
Empresa destaca histórico no ACL
Ao defender a necessidade da recuperação judicial, a Tradener também recorre ao histórico de atuação no Mercado Livre. A companhia afirma ter sido a primeira comercializadora de energia do ACL (Ambiente de Contratação Livre) no Brasil e destaca seus quase 28 anos de operação no setor.
Segundo a empresa, atualmente são cerca de 1,2 mil consumidores livres sob gestão, negociações superiores a 1 GW médio e presença em 23 estados brasileiros. A comercializadora também afirma gerar aproximadamente 200 empregos diretos e indiretos e ter recolhido cerca de R$ 1 bilhão em tributos nos últimos cinco anos.
A situação da Tradener se junta a outros casos de comercializadoras em dificuldade financeira nos últimos dois anos, como da IBS Energy, Electa, 2W Ecobank, Gold, Elétron, Boven Varejista e Trinity.
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