A ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) elevou de 8,6% para 9,4% a projeção de aumento médio das tarifas de energia elétrica no Brasil em 2026. A nova estimativa permanece acima das projeções de inflação consideradas pela agência para o ano, de 5% para o IPCA e de 4,4% para o IGP-M.
Esta é a segunda revisão para cima realizada pela agência neste ano. Na primeira edição de 2026 do InfoTarifas, publicada em março, a estimativa era de 8%. Em junho, passou para 8,6% e, agora, alcançou 9,4%.
Segundo a ANEEL, a revisão mais recente está relacionada a uma combinação de fatores, entre eles mudanças nas projeções de inflação, custos de energia e componentes financeiros considerados nos processos tarifários.
O percentual de 9,4%, no entanto, representa um efeito tarifário médio nacional e não significa que todos os consumidores terão esse reajuste. O resultado varia de acordo com cada concessionária e seu respectivo processo tarifário.
O boletim mostra essa diferença: 16% do mercado está em concessionárias com efeito médio projetado de 17,6%, enquanto 5% está em áreas com efeito médio de 0,7%.
Componentes financeiros pressionam projeção
Os componentes financeiros representam a maior parcela do efeito tarifário projetado para 2026, com impacto agregado de 4,7%.
Entre os fatores está a CVA Energia, mecanismo utilizado para compensar diferenças entre os custos de compra de energia considerados nas tarifas e os valores efetivamente realizados.
Segundo a ANEEL, os custos associados à CVA Energia e à sobrecontratação tiveram comportamento mais severo do que o estimado em março. Com isso, o efeito conjunto desses componentes passou de 1,3% para 3,5%, uma diferença de 2,2 pontos percentuais.
O movimento está relacionado aos custos dos CCEARs (Contratos de Comercialização de Energia no Ambiente Regulado) por disponibilidade diante de um regime hidrológico mais desfavorável no período analisado. Por outro lado, alguns componentes contribuíram para conter o aumento projetado.
Recursos de UBP ajudam a conter alta
Entre os principais fatores de redução estão os recursos provenientes da repactuação das obrigações de UBP (Uso de Bem Público) das usinas hidrelétricas.
Na estimativa considerada pelo InfoTarifas, aproximadamente R$ 5,2 bilhões foram incorporados ao cálculo, produzindo redução de 1,9% no efeito tarifário médio nacional. Esses recursos não estavam contemplados na projeção publicada em março.
Em processo específico, a ANEEL aprovou preliminarmente a distribuição de aproximadamente R$ 5,5 bilhões às distribuidoras localizadas nas áreas de atuação da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) e da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), com o objetivo de promover modicidade tarifária aos consumidores do mercado regulado.
A agência também homologou o ETLEP (Efeito Tarifário Limite Equilibrado) em 6,53%. O mecanismo é utilizado para promover uma distribuição mais equilibrada dos benefícios entre as 22 concessionárias contempladas e reduzir diferenças entre as áreas de concessão.
Ao final do ano, a ANEEL deverá consolidar os valores arrecadados e definir os montantes definitivos destinados a cada distribuidora. Eventuais diferenças em relação aos valores preliminares serão ajustadas nos processos tarifários de 2027.
Diferimentos reduzem impacto em 0,8%
Outro fator que ajudou a conter a projeção foram diferimentos concedidos a três distribuidoras. O cálculo considera R$ 812 milhões da CPFL Paulista, R$ 21 milhões da Energisa Mato Grosso do Sul e R$ 1,3 bilhão da Copel. Segundo a ANEEL, esses diferimentos reduziram o efeito tarifário médio em 0,8% e não estavam previstos na estimativa inicial.
Também houve mudança na devolução de créditos de PIS/Cofins. A previsão caiu de R$ 6,5 bilhões para R$ 5,3 bilhões, diminuindo o potencial de redução do efeito tarifário médio de 2,4% para 1,9%.
Contratos de capacidade elevam encargos
A entrada em vigor dos contratos firmados nos LRCAPs (Leilões de Reserva de Capacidade) de 2026 também deverá aumentar o ERCAP (Encargo de Reserva de Capacidade), utilizado para remunerar recursos contratados para garantir o atendimento ao sistema elétrico em períodos de elevada demanda ou menor disponibilidade de geração.
Em junho, o encargo totalizou R$ 192 milhões. Com o início dos novos contratos, a ANEEL estima desembolsos mensais próximos de R$ 650 milhões até dezembro de 2026, resultando em custo anual de aproximadamente R$ 3,7 bilhões e adicionando cerca de 0,3% ao efeito tarifário médio nacional.
A tendência é de crescimento no próximo ano. Até o final de 2027, o valor mensal poderá superar R$ 1 bilhão, com impacto anual estimado em R$ 9,3 bilhões.
Os custos do encargo são compartilhados pelos consumidores dos mercados regulado e livre. Uma exceção prevista no boletim são as contratações de sistemas de armazenamento por baterias, cujos pagamentos serão custeados exclusivamente pelos geradores.
Transmissão responde por 0,9%
Os custos de transmissão respondem por 0,9% do efeito tarifário projetado para 2026. Segundo a ANEEL, o movimento está relacionado ao aumento dos custos da Rede Básica e de Fronteira e das RAPs (Receitas Anuais Permitidas) das transmissoras.
Para o ciclo 2026/2027, a RAP do segmento alcançou R$ 55 bilhões, alta de 9,43% em relação ao período anterior. O aumento decorre da atualização contratual das receitas, das revisões tarifárias realizadas em 2026 e da incorporação de novas instalações ao SIN (Sistema Interligado Nacional).
Apesar da elevação da receita das transmissoras, a ANEEL estima impacto médio de aproximadamente 1,1% para os consumidores finais.
Tarifa residencial chega a R$ 998/MWh
O InfoTarifas também mostra que a tarifa residencial B1 alcançou R$ 998/MWh em 2026, antes da incidência de tributos.
Na composição média apresentada pela ANEEL, a energia representa 40,9% do valor, seguida pela distribuição, com 31,1%; encargos setoriais, com 20,9%; e transmissão, com 7,1%. Sobre esses valores ainda incidem ICMS e PIS/Cofins.
O boletim aponta ainda que os subsídios contabilizados entre setembro de 2025 e agosto de 2026 somaram R$ 56,26 bilhões.
Além da projeção para este ano, a ANEEL destaca que a implementação da Reforma Tributária deverá exigir uma revisão dos mecanismos tarifários utilizados no setor elétrico.
A transição para CBS e IBS poderá afetar receitas reguladas, investimentos, custos operacionais, encargos e procedimentos de faturamento.
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