O setor elétrico brasileiro vive uma transformação histórica. Nos últimos anos, o país expandiu significativamente sua capacidade de geração, impulsionado principalmente pelas fontes renováveis, como a solar e a eólica.
No entanto, os desafios atuais já não estão relacionados apenas à quantidade de energia produzida, mas à capacidade do sistema de utilizá-la de forma eficiente.
O recente Leilão de Reserva de Capacidade contratou aproximadamente 19 GW de potência, um marco importante para a segurança energética nacional. Ainda assim, o PEN 2026 (Plano da Operação Energética) elaborado pelo ONS, projeta risco de déficit de potência a partir de 2027.
À primeira vista, essa situação parece contraditória. Como um país que amplia sua capacidade instalada pode enfrentar falta de potência?
A resposta está na flexibilidade do sistema elétrico. Energia disponível não significa energia disponível no momento certo. A geração solar exemplifica esse desafio.
Durante o período de maior insolação, entre o final da manhã e o início da tarde, o Brasil produz enormes volumes de energia. Em diversas regiões, essa geração supera a demanda local e a capacidade das linhas de transmissão.
O resultado é o chamado curtailment: a redução compulsória da geração determinada pelo ONS (Operador Nacional do Sistema)
Em outras palavras, usinas plenamente aptas a produzir energia são obrigadas a reduzir sua geração por limitações operacionais ou de transmissão.
Enquanto isso, poucas horas depois, no início da noite, quando a geração fotovoltaica praticamente desaparece, o consumo aumenta significativamente. Nesse momento, o sistema precisa recorrer às hidrelétricas, termelétricas e demais fontes capazes de responder rapidamente ao aumento da demanda.
O problema, portanto, não é a falta de energia. O problema é a falta de mecanismos capazes de deslocar essa energia para o momento em que ela realmente é necessária.
A importância das baterias é nesse contexto que ganha relevância o esperado leilão de sistemas de armazenamento por baterias, pois as baterias deixam de ser apenas uma inovação tecnológica para se tornarem um elemento estratégico da segurança energética brasileira.
Ao armazenar o excedente gerado durante o dia e disponibilizá-lo no horário de ponta, elas contribuem para: reduzir o curtailment; aumentar a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional; otimizar o uso das redes de transmissão; diminuir a necessidade de despacho de usinas termelétricas; proporcionar maior eficiência econômica aos investimentos em geração renovável.
Não se trata apenas de armazenar energia. Trata-se de agregar flexibilidade, atributo que passa a ser tão valioso quanto a própria geração.
O desafio regulatório hoje é enorme e o setor enfrenta um momento decisivo uma vez que a expansão das fontes renováveis exige uma evolução do modelo regulatório brasileiro. Será necessário estabelecer critérios claros para remunerar serviços ancilares, armazenamento, resposta da demanda e demais recursos que agreguem flexibilidade ao sistema.
Será de fundamental importância o aperfeiçoamento dos mecanismos relacionados ao tratamento do curtailment, garantindo maior previsibilidade jurídica aos investidores e preservando a segurança regulatória necessária para novos projetos.
A transição energética não se encerra com a expansão das fontes renováveis. Ela exige um ambiente regulatório moderno, capaz de reconhecer que a confiabilidade do sistema depende tanto da produção quanto da disponibilidade da energia no instante em que ela é demandada.
Um novo paradigma para o setor elétrico está posto: a construção de um sistema elétrico mais inteligente, resiliente e flexível e não apenas construir mais Usinas.
O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo e reúne condições excepcionais para liderar a transição energética global, mas neste novo cenário energético, a pergunta deixará de ser “quanto conseguiremos gerar?” e passará a ser “como garantir que essa energia esteja disponível quando a sociedade realmente precisar dela?” E é justamente essa resposta que definirá os próximos capítulos da regulação do setor elétrico brasileiro.
Brasil deixou de ter um problema de escassez de energia e passou a ter um problema de sincronização entre geração, transmissão e consumo.
A matriz elétrica está cada vez mais renovável, mas as regras de mercado e a infraestrutura ainda foram concebidas para um sistema predominantemente hidrelétrico.
Enquanto não houver uma combinação de: armazenamento em baterias, expansão da transmissão, tarifas horárias que incentivem o consumo nos períodos de excesso de geração, resposta da demanda e critérios claros para remuneração da flexibilidade, o país continuará convivendo com o paradoxo de desligar usinas solares ao meio-dia e acionar termelétricas no início da noite, mesmo dispondo de grande capacidade instalada. Esse é, hoje, um dos principais desafios estruturais do setor elétrico brasileiro.
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