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Início / Artigos / Artigo de Opinião / O Brasil não precisa apenas de mais energia: precisa de flexibilidade

O Brasil não precisa apenas de mais energia: precisa de flexibilidade

País deixou de ter um problema de escassez de energia e passou a ter um problema de sincronização entre geração, transmissão e consumo
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  • Foto de Marina Meyer Falcão Marina Meyer Falcão
  • 17 de julho de 2026, às 10:36
4 min 11 seg de leitura
O Brasil não precisa apenas de mais energia: precisa de flexibilidade
Foto: Magnific

O setor elétrico brasileiro vive uma transformação histórica. Nos últimos anos, o país expandiu significativamente sua capacidade de geração, impulsionado principalmente pelas fontes renováveis, como a solar e a eólica.

No entanto, os desafios atuais já não estão relacionados apenas à quantidade de energia produzida, mas à capacidade do sistema de utilizá-la de forma eficiente.

O recente Leilão de Reserva de Capacidade contratou aproximadamente 19 GW de potência, um marco importante para a segurança energética nacional. Ainda assim, o PEN 2026 (Plano da Operação Energética) elaborado pelo ONS, projeta risco de déficit de potência a partir de 2027.

À primeira vista, essa situação parece contraditória. Como um país que amplia sua capacidade instalada pode enfrentar falta de potência?

A resposta está na flexibilidade do sistema elétrico. Energia disponível não significa energia disponível no momento certo. A geração solar exemplifica esse desafio.

Durante o período de maior insolação, entre o final da manhã e o início da tarde, o Brasil produz enormes volumes de energia. Em diversas regiões, essa geração supera a demanda local e a capacidade das linhas de transmissão.

O resultado é o chamado curtailment: a redução compulsória da geração determinada pelo ONS (Operador Nacional do Sistema)

Em outras palavras, usinas plenamente aptas a produzir energia são obrigadas a reduzir sua geração por limitações operacionais ou de transmissão.

Enquanto isso, poucas horas depois, no início da noite, quando a geração fotovoltaica praticamente desaparece, o consumo aumenta significativamente. Nesse momento, o sistema precisa recorrer às hidrelétricas, termelétricas e demais fontes capazes de responder rapidamente ao aumento da demanda.

O problema, portanto, não é a falta de energia. O problema é a falta de mecanismos capazes de deslocar essa energia para o momento em que ela realmente é necessária.

A importância das baterias é nesse contexto que ganha relevância o esperado leilão de sistemas de armazenamento por baterias, pois as baterias deixam de ser apenas uma inovação tecnológica para se tornarem um elemento estratégico da segurança energética brasileira.

Ao armazenar o excedente gerado durante o dia e disponibilizá-lo no horário de ponta, elas contribuem para: reduzir o curtailment; aumentar a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional; otimizar o uso das redes de transmissão; diminuir a necessidade de despacho de usinas termelétricas; proporcionar maior eficiência econômica aos investimentos em geração renovável.

Não se trata apenas de armazenar energia. Trata-se de agregar flexibilidade, atributo que passa a ser tão valioso quanto a própria geração.

O desafio regulatório hoje é enorme e o setor enfrenta um momento decisivo uma vez que a expansão das fontes renováveis exige uma evolução do modelo regulatório brasileiro. Será necessário estabelecer critérios claros para remunerar serviços ancilares, armazenamento, resposta da demanda e demais recursos que agreguem flexibilidade ao sistema.

Será de fundamental importância o aperfeiçoamento dos mecanismos relacionados ao tratamento do curtailment, garantindo maior previsibilidade jurídica aos investidores e preservando a segurança regulatória necessária para novos projetos.

A transição energética não se encerra com a expansão das fontes renováveis. Ela exige um ambiente regulatório moderno, capaz de reconhecer que a confiabilidade do sistema depende tanto da produção quanto da disponibilidade da energia no instante em que ela é demandada.

Um novo paradigma para o setor elétrico está posto: a construção de um sistema elétrico mais inteligente, resiliente e flexível e não apenas construir mais Usinas.

O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo e reúne condições excepcionais para liderar a transição energética global, mas neste novo cenário energético, a pergunta deixará de ser “quanto conseguiremos gerar?” e passará a ser “como garantir que essa energia esteja disponível quando a sociedade realmente precisar dela?” E é justamente essa resposta que definirá os próximos capítulos da regulação do setor elétrico brasileiro.

Brasil deixou de ter um problema de escassez de energia e passou a ter um problema de sincronização entre geração, transmissão e consumo.

A matriz elétrica está cada vez mais renovável, mas as regras de mercado e a infraestrutura ainda foram concebidas para um sistema predominantemente hidrelétrico.

Enquanto não houver uma combinação de: armazenamento em baterias, expansão da transmissão, tarifas horárias que incentivem o consumo nos períodos de excesso de geração, resposta da demanda e critérios claros para remuneração da flexibilidade, o país continuará convivendo com o paradoxo de desligar usinas solares ao meio-dia e acionar termelétricas no início da noite, mesmo dispondo de grande capacidade instalada. Esse é, hoje, um dos principais desafios estruturais do setor elétrico brasileiro.

As opiniões e informações expressas são de exclusiva responsabilidade do autor e não obrigatoriamente representam a posição oficial do Canal Solar.

baterias Curtailment ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) setor elétrico
Foto de Marina Meyer Falcão
Marina Meyer Falcão
Presidente da Comissão de Direito de Energia da OAB /MG. Professora da PUC em Pós Graduação de Energia Solar. Secretária de Assuntos Regulatórios e Diretora Jurídica no INEL. Advogada especialista em Direito de Energia. Diretora Jurídica da Energy Global Solution. Co-Autora de três livros em Direito de Energia. Membro da Câmara de Energia, Petróleo e Gás da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais. Ex-superintendente de Políticas Energéticas do Estado de Minas Gerais.
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