A aprovação da Lei 15.269/25 marca um passo decisivo para a transformação do setor elétrico brasileiro. Com ela, a abertura total do mercado de energia se aproxima de forma mais concreta, permitindo que todos os consumidores, inclusive residenciais e pequenos negócios, possam escolher seus fornecedores a partir de 2027.
Esse movimento altera de maneira profunda a dinâmica competitiva do setor, impondo uma agenda de transformação que vai muito além da esfera regulatória e alcança tecnologia, operação, atendimento e modelos de negócio.
Hoje, o Mercado Livre de Energia já responde por uma parcela significativa do consumo nacional, com mais de 80 mil unidades consumidoras e mais de 40% da eletricidade contratada fora do ambiente regulado. A abertura integral prevista pela Lei 15.269/25 tende a multiplicar esse universo, inserindo milhões de novos perfis de consumo no ambiente livre.
A migração deixa de ser um processo restrito a grandes consumidores industriais e comerciais e passa a incluir perfis mais heterogêneos, com comportamentos de carga diferentes e expectativas distintas quanto a preço, estabilidade, sustentabilidade e serviços agregados. Essa nova composição exigirá das empresas uma capacidade de gestão, previsibilidade e atendimento jamais observados no modelo atual.
A inteligência artificial como eixo central da transição
É nesse contexto que a inteligência artificial emerge não apenas como ferramenta de suporte, mas como protagonista da transformação. A complexidade inerente a um mercado livre massificado só se torna viável com tecnologias capazes de processar dados em grande escala, automatizar decisões e personalizar ofertas.
A IA viabiliza, por exemplo, a previsão precisa de demanda por cliente, por faixa horária e por sazonalidade, permitindo aos agentes ecossistêmicos reduzir riscos de exposição ao mercado de curto prazo e otimizar seus portfólios de compra e venda de energia.
Além disso, a IA habilita novas formas de interação com o consumidor, sobretudo num cenário em que a migração envolverá públicos que desconhecem os jargões e mecanismos do setor elétrico. Por meio de assistentes inteligentes, chatbots avançados e sistemas de recomendação, será possível explicar produtos, sugerir modalidades contratuais, realizar atendimentos 24 horas e esclarecer dúvidas complexas sem elevar exponencialmente o custo operacional.
A digitalização associada à IA também se mostra determinante para lidar com o volume crescente de contratos, documentação e exigências regulatórias do mercado livre. A contratação de energia envolve cláusulas complexas, indexadores diversos e regras específicas, o que torna inviável imaginar um aumento exponencial de contratos sem apoio de sistemas baseados em IA.
Essa tecnologia pode analisar riscos, ajustar contratos a parâmetros dinâmicos e garantir aderência às regras do setor de maneira contínua e auditável. Em paralelo, modelos de precificação dinâmica permitirão estruturar ofertas mais eficientes para diferentes perfis de consumo, considerando variáveis como custo de geração, disponibilidade de fontes renováveis, horários de pico, comportamento regional de carga e condições operativas do Sistema Interligado Nacional. Trata-se de um salto tecnológico que tende a aproximar o Brasil de mercados maduros, onde a IA já é elemento estruturante do ambiente competitivo.
Digitalização, novos modelos e o consumidor do futuro
A abertura também impulsiona uma transformação operacional dentro das empresas do setor. Para atender o novo consumidor do mercado livre, não bastará vender energia; será preciso ofertar soluções completas, combinando eficiência energética, geração distribuída, monitoramento de consumo, serviços financeiros e planos flexíveis, em um modelo muito mais próximo do conceito de “Energy as a Service”.
A digitalização da cadeia, do medidor inteligente ao faturamento, será condição mínima para competir em um mercado ampliado e de alta velocidade. Isso inclui reorganização interna, capacitação em ciência de dados, integração de sistemas e uma cultura voltada à experimentação contínua.
Nesse ambiente, a competição será intensa. A abertura prevista pela Lei 15.269/25 tende a atrair novos entrantes, como startups especializadas em tecnologia, fintechs de energia, agregadores de demanda e plataformas digitais que atuarão com propostas mais alinhadas às expectativas do consumidor moderno. Empresas tradicionais precisam se mover rapidamente para não perder espaço nesse novo ecossistema orientado por dados, experiência de usuário e modelos de negócio escaláveis.
Da regulação à vantagem competitiva
A massificação da IA no setor elétrico exigirá uma agenda de governança que contemple proteção de dados, ética algorítmica, transparência e segurança cibernética. Não se trata apenas de implementar tecnologia, mas de assegurar que seu uso seja compatível com a confiança que o consumidor final deposita na cadeia elétrica e com a complexidade regulatória brasileira.
Com a aprovação da Lei 15.269/25 e a perspectiva de abertura total do mercado de energia a partir de 2027, o setor elétrico entra em um novo capítulo. Empresas que desejam liderar esse ciclo precisam combinar visão regulatória, robustez tecnológica e capacidade de execução.
A inteligência artificial será o motor central dessa transformação, permitindo converter complexidade em eficiência, ampliar o relacionamento com o consumidor e construir vantagem competitiva sustentável em um mercado que, pela primeira vez na história, será realmente livre para todos.
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