Financiar um sistema solar ficou mais caro. A Selic chegou a 15% ao ano, o maior patamar desde julho de 2006, e muita gente apostou que o consumidor iria adiar a decisão.
Não foi o que aconteceu: a energia solar instalada pelos próprios consumidores já beneficia quase 7 milhões de unidades consumidoras e cerca de 21 milhões de pessoas no Brasil.
A razão não está nos juros, e sim na conta de luz. O brasileiro convive com uma energia cara, que sobe sem previsibilidade, que muda de preço conforme a cor da bandeira do mês e que, em muitos lugares, simplesmente falta quando mais se precisa. São essas dores que tornam a energia solar mais atraente a cada dia, mesmo com o crédito alto.
Uma conta que sobe sem aviso
Poucos consumidores sabem dizer quanto vão pagar de energia no ano que vem. Os reajustes acontecem em datas diferentes para cada distribuidora, com percentuais diferentes para cada região, e mudam de patamar conforme custos que o consumidor não controla e nem enxerga.
2026 mostra bem essa bagunça. Até o fim de abril, a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) já havia aprovado 14 reajustes, atingindo mais de 40 milhões de unidades consumidoras. Em Roraima, a conta subiu em média 24% logo em janeiro.
No Rio de Janeiro, os clientes da Enel Rio tiveram reajuste de 15,6%. No interior de São Paulo, a CPFL Paulista subiu 12,13% e a CPFL Santa Cruz, 15,12%. Enquanto isso, em outras regiões, os reajustes ficaram abaixo de 5%. A mesma energia, com aumentos completamente diferentes dependendo do endereço.
A diferença também aparece entre os tipos de consumidor. Na Bahia, por exemplo, o reajuste de 2026 foi de 10,21% para quem está em alta tensão, como indústrias, e de 3,93% para as residências.
E a própria ANEEL revisou para cima, três vezes ao longo de 2026, a previsão de aumento médio da conta de luz no país, que agora deve ficar perto do dobro da inflação.
Dentro da conta, o consumidor ainda paga uma série de subsídios e encargos que somaram R$ 56 bilhões entre setembro de 2025 e agosto de 2026, segundo a Agência.
Não é um problema recente. Segundo a Abraceel (Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia), a tarifa de energia quase triplicou entre 2010 e 2024, enquanto a inflação do período ficou em pouco mais que o dobro. Em 2025, a energia elétrica foi o item que mais pesou na inflação no acumulado de janeiro a julho, segundo o IBGE.
A bandeira muda de cor, e a conta muda junto
Além do reajuste anual, a conta de luz tem uma cobrança extra que muda todo mês: as bandeiras tarifárias. Na bandeira verde, não há acréscimo. Na amarela e na vermelha, cada 100 kWh consumidos ficam mais caros, e na vermelha patamar 2, a mais cara, o adicional é de R$ 7,87.
Em 2025, o consumidor passou meses na bandeira verde, entrou na vermelha em junho, subiu para o patamar mais caro em agosto e setembro e voltou à vermelha patamar 1 em outubro e novembro. Em 2026, a história se repetiu.
O ano começou com bandeira verde, mas a amarela voltou em maio e ficou cinco meses seguidos, até setembro. Só em outubro a conta voltou ao verde. Para uma família, um comércio ou uma indústria, é impossível planejar o orçamento com um custo que muda de cor conforme a chuva.
A confusão chega ao ponto de a própria regra falhar. Em setembro de 2024, a ANEEL anunciou a bandeira vermelha patamar 2 e, dias depois, recuou para o patamar 1 após a descoberta de um erro nos dados usados no cálculo. O consumidor que já havia recebido a conta mais cara teve de esperar a devolução nas faturas seguintes.
Pagar caro e ainda ficar no escuro
Se a energia fosse cara, mas confiável, o problema seria só financeiro. Não é o caso. A qualidade do fornecimento virou uma das maiores queixas do consumidor brasileiro.
Em dezembro de 2025, um vendaval deixou 4,4 milhões de imóveis da Grande São Paulo sem energia, e o fornecimento só voltou para todos seis dias depois.
Foi o terceiro grande blecaute na região desde 2023, e a própria ANEEL classificou como insatisfatória a atuação da distribuidora. A falta de luz comprometeu até o bombeamento de água em vários bairros. O país também viveu apagões que atingiram vários estados ao mesmo tempo, em agosto de 2023 e em outubro de 2025.
O problema seguiu em 2026. Em julho, o centro de São Paulo voltou a ficar às escuras após o desligamento de um circuito da distribuidora.
Em setembro, a Justiça reconheceu falhas no atendimento durante o apagão de dezembro, enquanto a ANEEL analisa a continuidade do contrato da concessionária. E especialistas avaliam que 2026 tem alta probabilidade de novas interrupções localizadas, causadas por tempestades, ondas de calor e redes sobrecarregadas.
E os grandes apagões são só a parte visível. No dia a dia, quedas rápidas, oscilações e picos de tensão queimam eletrodomésticos, param máquinas, estragam alimentos refrigerados e interrompem o trabalho de quem depende de energia para produzir.
Todo consumidor sente
Na casa. A família paga integralmente cada reajuste e cada bandeira, e é quem mais sofre quando a luz cai: comida estragada na geladeira, aparelhos queimados, trabalho remoto interrompido.
Para quem tem telhado, as placas solares transformam uma despesa que só cresce em patrimônio. Para quem mora de aluguel ou em apartamento, a energia solar por assinatura garante desconto sem obra e sem financiamento.
No comércio. Para lojas, clínicas, restaurantes e supermercados, a energia sai direto da margem de lucro e não pode ser renegociada. Uma queda de energia significa porta fechada, freezer desligado e cliente perdido. Como o comércio consome mais durante o dia, quando o sol está gerando, a energia solar se encaixa naturalmente na rotina do negócio.
Na indústria. Mesmo quem já negocia energia diretamente com fornecedores continua pagando pelo uso da rede e pelas taxas cobradas de todos os consumidores, que seguem subindo.
Em 2026, os reajustes para a alta tensão ficaram, em várias regiões, bem acima dos aplicados às residências. E nem o mercado livre ficou imune à bagunça: em julho, uma crise entre comercializadoras de energia, com rombo de mais de R$ 6 bilhões, deixou empresas com o contrato de fornecimento cortado de uma hora para outra, obrigadas a procurar outro fornecedor às pressas.
E uma parada de linha por falta de energia custa muito mais do que a própria conta. A usina solar própria reduz a dependência da rede, e as baterias garantem continuidade nos momentos críticos.
No campo. O produtor rural perdeu, a partir de 2019, os descontos que tinha na conta de luz, e ainda convive com redes longas e sujeitas a falhas. Uma queda de energia pode significar leite perdido, aves sem ventilação ou irrigação parada no pior momento. No campo, as placas solares reduzem o custo, e as baterias protegem a produção.
Por que o crédito caro não muda a decisão?
A conta que o consumidor faz é simples. De um lado, está o investimento ou a parcela do sistema solar. Do outro, uma conta de luz que sobe sem aviso, muda de preço todo mês e ainda pode deixá-lo no escuro. O crédito caro pesa no primeiro lado. Todas as dores da energia pesam no segundo, e pesam mais a cada ano.
Por isso a energia solar continua atraente mesmo com juros altos. Ela traz previsibilidade para um custo que hoje é imprevisível, reduz a exposição às bandeiras e, com baterias, protege contra a falta de energia.
E para quem não quer ou não pode investir, a energia solar por assinatura tira o crédito da equação: o consumidor não gasta nada para começar e passa a pagar menos pela mesma energia.
O brasileiro não está instalando energia solar porque o dinheiro ficou barato. Está instalando porque cansou de pagar caro por uma energia que sobe sem explicação, muda de preço conforme a cor da bandeira e falta quando mais se precisa.
Enquanto essas dores continuarem, e nada indica que vão acabar tão cedo, todo consumidor de energia, seja em casa, no comércio, na indústria ou no campo, terá na energia solar uma forma de retomar o controle. O crédito mais caro muda a forma de pagar. Não muda a vontade de se livrar da conta de luz.
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