O Brasil atravessa uma crise inédita no setor elétrico: não falta energia — sobra. O diagnóstico foi apresentado pelo ex-presidente da Petrobras e ex-senador Jean Paul Prates durante entrevista ao programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan.
Segundo ele, a rápida expansão das fontes renováveis, especialmente da GD (geração distribuída) solar, criou uma nova dinâmica no sistema elétrico que ainda não foi plenamente absorvida pelo planejamento energético nacional.
Nesse contexto, Prates afirmou que o atraso na realização do leilão de baterias, considerado estratégico para garantir estabilidade e armazenamento da energia gerada, representa um erro grave. “É uma crise um pouco silenciosa. Não é uma crise de falta de energia. Esse é o ponto”, disse ele.
Para o ex-presidente da Petrobras, o principal fator por trás dessa nova realidade é o crescimento acelerado da GD solar no país, cuja potência instalada nesse segmento já supera 43 GW – volume equivalente a várias grandes hidrelétricas.
De acordo com Prates, esse crescimento não foi devidamente incorporado ao planejamento energético, já que a GD historicamente nunca teria sido tratada pelos órgãos competentes do Governo Federal como uma nova fonte de geração.
“Isso que a gente tá vendo, esse movimento que a gente acha pequeno – cada um colocando seu painel na sua casa – hoje representa 43 GW que não estavam na previsão de nenhum órgão de energia”, comentou.
Crise energética “ao contrário”
O ex-senador classificou o momento atual como uma crise energética reversa, uma vez que o sistema elétrico brasileiro foi historicamente estruturado para lidar com escassez, mas não com excesso de produção em horários específicos.
“Há pelo menos três anos nós vivemos uma crise contrária. É uma crise de oferta sobressalente, que não consegue encontrar escoamento”, afirmou.
Apesar do diagnóstico, Prates ressaltou que a situação é plenamente administrável do ponto de vista técnico. Segundo ele, o problema central não é tecnológico, mas de coordenação entre políticas públicas, expansão da geração e modernização da rede elétrica.
Na avaliação do ex-presidente da Petrobras, a variabilidade das fontes renováveis pode ser gerenciada por meio de redes digitalizadas, sistemas inteligentes de operação e mecanismos tarifários mais flexíveis.
Ele afirma que, em diversos países, tarifas dinâmicas já incentivam o consumo nos períodos de excesso de geração, chegando a zerar o preço da energia em determinados horários.
Ainda assim, ele considera que a ausência de armazenamento em larga escala limita a capacidade do sistema de aproveitar essa abundância energética. “Todo mundo sabe que precisamos estabilizar a nossa geração com o uso de baterias”, afirmou.
Segundo Prates, sem esses sistemas o operador é obrigado a recorrer a fontes térmicas mais caras mesmo quando há energia renovável disponível. “Por que se esperou tanto, quando na verdade você tem tanto recurso renovável?”, criticou.
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