O CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) decidirá, na próxima quarta-feira (13), se mantém ou altera os atuais parâmetros de aversão ao risco utilizados nos modelos de formação de preço da energia elétrica.
A definição pode impactar diretamente o custo da eletricidade para consumidores, indústrias e agentes do mercado livre em 2027.
Os preços de energia no Brasil são calculados por meio dos modelos computacionais Newave, Decomp e Dessem, que consideram fatores como nível dos reservatórios, previsão de chuvas, demanda e despacho de usinas.
Dentro desses cálculos, parâmetros como VMinOp e CVaR determinam o grau de aversão ao risco hidrológico adotado pelo sistema.
O VMinOp estabelece níveis mínimos de armazenamento dos reservatórios para reduzir o risco de esvaziamento ao fim do período seco. Já o CVaR é um mecanismo matemático que atribui maior peso aos cenários hidrológicos mais críticos, influenciando diretamente o despacho de termelétricas para preservação da água armazenada nas hidrelétricas.
Nos ciclos de 2025 e 2026 entrou em vigor o novo par de CVaR (15,40), o que significa que os 15% piores cenários hidrológicos passaram a ter peso de 40% nos modelos.
Além disso, desde janeiro de 2025 o Newave híbrido passou a representar as hidrelétricas de forma individualizada. Na avaliação de agentes do mercado, as duas mudanças ampliaram significativamente o conservadorismo dos modelos, pressionando os preços de energia para cima.
Crise de liquidez amplia pressão sobre modelos
O debate sobre os modelos de formação de preço ganhou força em meio à atual crise de liquidez do mercado livre de energia. Comercializadoras afirmam que os cenários prospectivos se tornaram mais imprevisíveis, dificultando estratégias de gestão e posicionamento de carteira.
A volatilidade recente dos preços levou empresas a recorrerem ao Judiciário para preservar operações e contratos em meio à deterioração da liquidez do mercado.
O tema também passou a mobilizar lideranças políticas. O deputado federal Arnaldo Jardim enviou, em 30 de abril, um ofício ao diretor-geral do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), Márcio Rea, alertando para os impactos econômicos da manutenção dos atuais níveis de aversão ao risco.
No documento, Jardim classifica o cenário como “quase surreal”, argumentando que o sistema opera com sobra estrutural de energia ao mesmo tempo em que os preços do mercado aumentam, afetando a competitividade da indústria e elevando custos para a economia brasileira.
Segundo o parlamentar, os efeitos econômicos decorrentes da adoção de critérios mais conservadores de risco hidrológico foram subestimados. “O mercado livre e todo o setor de comercialização estão sendo sufocados pelas consequências deste modelo”, afirma o deputado no ofício.
O parlamentar também critica o que considera uma concentração de ganhos nas grandes geradoras. De acordo com ele, os preços elevados do mercado de curto prazo têm incentivado agentes a liquidarem energia no mercado à vista, aproveitando o PLD elevado, enquanto consumidores e comercializadoras enfrentam dificuldade para contratar energia em condições competitivas.
Associações alertam para custo bilionário
Associações do setor também intensificaram a pressão sobre o CMSE. Entidades como ABEEólica, Abiape, Abraceel, Abrace Energia, Anace, Cogen e Frente Nacional dos Consumidores de Energia divulgaram um manifesto pedindo que a definição dos parâmetros para o ciclo 2026/2027 considere a atual situação do mercado.
Segundo as entidades, dependendo do modelo escolhido, o custo adicional com despacho térmico pode chegar a R$ 5,4 bilhões para um ganho estimado de apenas cerca de 2% no armazenamento dos reservatórios das hidrelétricas.
“A questão, portanto, não se resume a optar entre segurança energética e modicidade tarifária. O desafio consiste em garantir a segurança energética na medida adequada, adotando critérios técnicos, econômicos e sistêmicos que preservem a confiabilidade do suprimento sem impor custos desproporcionais à sociedade”, afirmam as associações no manifesto conjunto.
As entidades argumentam ainda que a manutenção dos atuais parâmetros já produz forte impacto no custo de operação do sistema elétrico, pressionando os preços do mercado livre para comércio e indústria e ampliando o risco de aumento tarifário para consumidores residenciais.
“Trata-se de transferência de renda de consumidores, que pagarão a conta, para geradores de energia”, afirmam.
Para Arnaldo Jardim, a elevada sensibilidade dos modelos à aversão ao risco faz com que pequenas alterações nas previsões hidrológicas provoquem movimentos desproporcionais no PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), referência para contratos futuros de energia.
“Na prática, o modelo atualmente adotado, por sua instabilidade, está favorecendo a retração da oferta de energia futura e, sem oferta, os preços simplesmente disparam”, diz o ofício.
O deputado também afirma que o excesso de conservadorismo acaba favorecendo grandes geradores em um mercado considerado concentrado, além de elevar o risco de acionamento das bandeiras tarifárias, com reflexos sobre inflação e custo de vida das famílias.
Os novos parâmetros de aversão ao risco foram debatidos na Consulta Externa nº 01/2026, realizada entre 24 de fevereiro e 10 de abril de 2026, no âmbito do Comitê Técnico do PMO (Programa Mensal da Operação Energética) e do cálculo do PLD, coordenado pelo ONS e pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica.
A decisão do CMSE, prevista para o próximo dia 13, deve se tornar um dos principais termômetros da direção regulatória do setor elétrico para 2027.
Todo o conteúdo do Canal Solar é resguardado pela lei de direitos autorais, e fica expressamente proibida a reprodução parcial ou total deste site em qualquer meio. Caso tenha interesse em colaborar ou reutilizar parte do nosso material, solicitamos que entre em contato através do e-mail: redacao@canalsolar.com.br.