O futuro do setor elétrico brasileiro será cada vez mais descentralizado, mas o modelo atual de planejamento e regulação ainda precisa acompanhar essa transformação. A avaliação é de José Vanderley Marangon, diretor-presidente da MC&E (Marangon Consultoria & Engenharia) e professor titular da UNIFEI (Universidade Federal de Itajubá).
O docente defendeu uma maior integração dos recursos energéticos distribuídos durante o painel “O setor elétrico em transformação: estamos preparados para o futuro?”, realizado no Canal Conecta VI, evento do Canal Solar, que está sendo realizado em São Paulo (SP) nesta segunda-feira (19) e terça-feira (20).
“Para mim, o futuro é distribuído, e a gente tem que trabalhar rapidamente para que isso aconteça”, afirmou Marangon, ao destacar que a expansão da geração solar e o desenvolvimento de tecnologias de armazenamento estão modificando a forma como a eletricidade é produzida, distribuída e consumida no país.
O debate também reuniu João Carlos de Oliveira Mello, CEO da Tymos Energia; Bianca Wolf, sócia da área de Energia e Regulatório da TAGD; e Helder Sousa, diretor de Regulação da TR Soluções, com participação de Bernardo Marangon.
Na avaliação do professor, o setor elétrico brasileiro ainda mantém uma estrutura tradicionalmente centralizada, construída a partir de grandes empreendimentos de geração e de um fluxo de energia direcionado ao consumidor final.
Esse modelo, entretanto, passou a enfrentar novos desafios com a expansão da geração distribuída, que ampliou a autonomia dos consumidores e modificou a dinâmica de operação das redes elétricas. “Estão dando soluções centralizadas para problemas distribuídos”, criticou Marangon.
Segundo ele, o armazenamento distribuído pode contribuir para enfrentar problemas associados à concentração da geração solar durante o dia e à necessidade de maior flexibilidade do sistema elétrico.
O professor também destacou o papel que integradores e instaladores poderão assumir nesse novo cenário, especialmente com o avanço das baterias, da mobilidade elétrica e da gestão de recursos energéticos distribuídos.
“Vocês que são instaladores, vocês que vão ser os futuros agregadores”, afirmou, ao apontar oportunidades para profissionais que atuam diretamente com consumidores e sistemas de geração distribuída.
Falta de governança dificulta adaptação do setor
A necessidade de mudanças no planejamento também foi destacada por João Carlos de Oliveira Mello, CEO da Tymos Energia, que atribuiu parte dos desafios atuais à falta de articulação entre os agentes responsáveis pela operação, regulação e expansão do sistema elétrico.
Para o executivo, as tecnologias necessárias para lidar com a descentralização já estão disponíveis. O principal obstáculo, no entanto, está na capacidade institucional de implementar soluções e antecipar os impactos das transformações em curso.
João Carlos também questionou a demora do setor em se preparar para o crescimento da micro e minigeração distribuída, segmento que ganhou escala nos últimos anos e passou a exigir maior coordenação entre os diferentes níveis do sistema.
“Se faltasse tecnologia para resolver esse problema, era um problema que a gente tinha que estudar. Mas não é problema de tecnologia, é problema de vontade de fazer”, afirmou.
Tarifas e investimentos nas redes pressionam o setor
Além das mudanças operacionais e regulatórias, o painel abordou os impactos econômicos da transformação do setor elétrico, especialmente sobre as tarifas pagas pelos consumidores.
Helder Sousa, diretor de Regulação da TR Soluções, apresentou uma projeção de aumento médio de 8,5% nas tarifas de energia elétrica em 2026.
Segundo o profissional, metade dessa variação projetada está associada à CDE (Conta de Desenvolvimento Energético), encargo utilizado para custear diferentes políticas públicas e subsídios do setor elétrico.
Sousa também destacou que os custos relacionados à infraestrutura de distribuição deverão ganhar maior representatividade na composição das tarifas nos próximos anos.
Na avaliação apresentada, a parcela associada à energia tende a apresentar comportamento mais moderado, enquanto os investimentos necessários para modernizar e fortalecer as redes devem exercer maior pressão sobre os custos de distribuição.
Entre os fatores apontados estão a necessidade de melhorar os indicadores de qualidade do fornecimento, atender às exigências relacionadas às concessões e ampliar a resiliência das redes diante de eventos climáticos extremos.
Armazenamento também enfrenta desafios regulatórios
A expansão das baterias foi outro ponto abordado no debate, especialmente em relação às regras para contratação de sistemas de armazenamento por meio de leilões de reserva de capacidade.
Bianca Wolf, sócia da área de Energia e Regulatório da TAGD, destacou as discussões envolvendo a definição de quem deverá arcar com os custos associados à contratação desses sistemas.
Segundo ela, a legislação estabeleceu um tratamento diferente para o armazenamento em baterias em comparação com outras modalidades de contratação de reserva de capacidade.
Enquanto determinados encargos são compartilhados entre os usuários finais do sistema, a opção legislativa para o armazenamento foi atribuir o custo à geração, o que provocou questionamentos entre diferentes agentes do mercado.
A especialista ressaltou a importância da realização do leilão, mas reconheceu a existência de debates jurídicos e regulatórios em torno do modelo estabelecido.
As discussões evidenciam um dos desafios apontados ao longo do painel: a necessidade de construir regras capazes de acompanhar a evolução tecnológica do setor, garantindo previsibilidade aos investimentos e maior integração dos novos recursos ao sistema elétrico.
Setor precisa acompanhar a descentralização
As avaliações apresentadas durante o Canal Conecta apontaram para um desafio comum: adaptar a estrutura regulatória, o planejamento e os investimentos do setor elétrico a um sistema com participação crescente dos consumidores na geração e na gestão da energia.
Nesse cenário, o avanço da geração distribuída deixa de ser apenas uma mudança na matriz de geração e passa a exigir uma revisão mais ampla da forma como o sistema elétrico brasileiro é planejado e operado.
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