Em 2025, energia limpa supriu sozinha todo o crescimento global da demanda elétrica e renováveis ultrapassaram o carvão pela primeira vez em 100 anos. Enquanto China e Índia reduziram fósseis e Chile, Austrália e Califórnia integraram baterias em escala, o Brasil — líder histórico em matriz limpa — expandiu térmicas a gás para compensar a hidro em declínio. A janela do storage está aberta. Por quanto tempo?
1. O fechamento de um ciclo de 100 anos
A leitura mais importante do Global Electricity Review 2026 da Ember não está nos números recordes — está no que eles fecham. Em 2025, fontes de baixo carbono cresceram rápido o suficiente para absorver, sozinhas, todos os 849 TWh de aumento na demanda global de eletricidade. Foi o primeiro ano fora de recessão, pandemia ou condições climáticas excepcionais em que isso ocorreu — e o FMI estima crescimento econômico global de 3,2%, em linha com a média da década anterior. Não é desaceleração. É desacoplamento estrutural.
Junto disso, dois marcos. Renováveis (33,8%) ultrapassaram o carvão (33,0%) na geração global pela primeira vez em 100 anos de era moderna do setor elétrico. E a participação do carvão caiu abaixo de um terço pela primeira vez na história.
Os cenários da IEA (STEPS) e da BNEF (ETS) projetam um platô do fóssil até o início dos anos 2030, seguido de declínio de 10% a 20% até 2035. Mesmo em um cenário agressivo de demanda crescendo 4% a.a. — puxada por eletrificação, data centers e cooling — com a energia limpa mantendo o ritmo recente de 7,6% a.a., a geração fóssil cresceria apenas marginalmente até a virada da década.
Em outras palavras: a curva de maturação do produto “geração elétrica baseada em combustível fóssil” cruzou seu platô. Ainda não estamos vendo declínio absoluto. Já vivemos no teto.
2. A virada acontece onde menos se esperava
Por duas décadas, a expectativa prevalente foi que a transição energética seria liderada pela Europa e pelos Estados Unidos, com a Ásia em desenvolvimento puxando a média global para baixo. 2025 inverteu essa premissa.
A China reduziu sua geração fóssil em 56 TWh (-0,9%) — primeira queda desde 2015 — mesmo com a demanda crescendo 5%. O grande feito: solar cresceu 336 TWh em um único ano (+40% sobre 2024) e atendeu sozinha dois terços do aumento da demanda chinesa. Em 2025, a China instalou 378 GW(DC) de solar — mais do que toda a capacidade solar acumulada dos Estados Unidos — e respondeu por 58% das adições solares globais.
A Índia reduziu fósseis em 52 TWh (-3,3%). Mais relevante que o número agregado é o ponto estrutural que a Ember dedica uma seção inteira para defender: a Índia não vai repetir o modelo carbono-intensivo da China.
Quando a China cruzou o patamar de PIB per capita atual da Índia — US$ 10 mil, em 2010 — a energia solar custava dez vezes mais que hoje. A Índia chega a esse patamar com solar+bateria já mais baratas que carvão novo em leilões 24/7. A consequência: a Ember projeta que a Índia atinja o pico do carvão a menos de um terço do pico chinês registrado em 2024.
Esse é o ponto que merece destaque. O argumento histórico do carvão como “energia de base mais barata” deixou de ser técnico. Virou inércia política.
3. Baterias: a tecnologia que destrava a segunda fase
Aqui está o eixo mais relevante do relatório — e o que justifica chamar 2025 de inflexão, não de mais um ano de crescimento solar. O preço do pack de baterias para armazenamento estacionário caiu para US$ 70/kWh em 2025, uma queda de 45% em um único ano, após já ter caído 40% em 2024. A capacidade global instalada cresceu 46%, chegando a aproximadamente 250 GWh.
O número que muda o jogo: solar despachável com bateria chegou a US$ 76/MWh em outubro de 2025 — mais barato e mais rápido de construir do que uma térmica a gás nova, especialmente em países dependentes de GNL importado. Na Índia, solar+bateria fornecendo energia 24/7 com mais de 95% de disponibilidade já está abaixo da tarifa de novas térmicas a carvão. Não é uma projeção. É uma realidade de leilão de 2025.
Vale uma calibragem importante, porque a narrativa popular tende a confundir manufatura com integração. A China lidera a fabricação de baterias — capacidade industrial três vezes maior que a demanda global em 2024 — mas o deployment em rede que está reorganizando os mercados elétricos está acontecendo em outros lugares.
No Chile, a capacidade instalada de baterias dobrou em 2025, alcançando volume suficiente para teoricamente deslocar 76% da nova geração solar adicionada no ano. Na Austrália, no quarto trimestre de 2025, baterias foram price setter em 36% das horas do pico noturno (18h às 20h), o dobro do trimestre equivalente em 2024 — e os preços spot médios durante o pico caíram para cerca de US$ 100/MWh, menos da metade do nível de um ano antes. Na Califórnia, mais bateria do que solar é adicionada à rede desde 2021, e o aumento da geração solar de 2025 está sendo majoritariamente entregue no período noturno.
A China constrói a fábrica. Chile, Austrália e Califórnia constroem a operação. Globalmente, 14% da nova geração solar de 2025 já pode ser deslocada por baterias — eram 5% em 2022. O ponto inflexivo é que isso é apenas o começo: a adição de baterias ainda corre atrás do ritmo de implantação solar.
4. E o Brasil?
Aqui o relatório expõe uma camada incômoda para quem se acostumou a tratar o Brasil como exceção virtuosa. Os fatos do nosso 2025: a geração solar superou a geração fóssil pela primeira vez no Brasil — saltou de 17 TWh em 2021 para 89 TWh em 2025, crescimento de cinco vezes em quatro anos. O país teve o quarto maior crescimento mundial em solar e em eólica. E 87% do mix nacional é renovável — líder isolado no G20, vinte pontos percentuais à frente do segundo colocado, o Canadá.
Agora o que vem junto. A geração hidrelétrica caiu pelo terceiro ano consecutivo (-25 TWh em 2025, -6%), pressionada por secas recorrentes e por um parque novo predominantemente sem reservatórios para absorver variações. A resposta foi térmica a gás: a geração fóssil subiu 7,6% em 2025, puxada por +12% no gás. Estamos na contramão de China e Índia. E fizemos isso no ano em que solar despachável com bateria ficou mais barata que térmica a gás nova. Não houve aposta estrutural em armazenamento.
O risco estratégico é claro. A vantagem competitiva brasileira — partir de uma matriz historicamente limpa — está sendo simultaneamente erodida pela degradação climática do pilar hidrelétrico e mal aproveitada, porque a resposta institucional é térmica a gás, não armazenamento.
Cada nova usina a gás contratada hoje carrega um contrato de 25 a 30 anos. Estamos amarrando capacidade fóssil de longo prazo no exato momento em que o mundo demonstra que existe uma alternativa estrutural mais barata e mais rápida.
A pergunta para o nosso planejamento setorial não é se vamos comprar baterias chinesas — todo mundo vai. É se vamos integrá-las em escala na rede agora, enquanto somos a matriz mais limpa do G20, ou se vamos descobrir o storage só depois de consolidar duas décadas de térmicas a gás operando em base. A primeira opção mantém o Brasil como vitrine de uma transição que combina hidro, eólica, solar e armazenamento. A segunda transforma uma vantagem histórica em curiosidade arqueológica.
A inflexão global de 2025 não é apenas uma boa notícia para o clima. É um deadline silencioso para países que sempre se viram em “outra categoria”. O Chile, com um mix muito mais fóssil que o nosso, decidiu o que fazer com o storage. A pergunta que sobra é se o Brasil vai decidir antes que a janela feche.
Fonte
Ember (2026). Global Electricity Review 2026: Solar surge halts fossil generation rise as clean power meets all demand growth and renewables overtake coal. Capítulos 1, 2 e 4.7. Disponível em ember-energy.org.
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