Durante muitos anos, as mudanças climáticas foram tratadas como um problema distante. Hoje, porém, elas já fazem parte da rotina da maior parte da população brasileira, mostra um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Aerah House.
O levantamento aponta que 54% dos brasileiros afirmam ter sido impactados diretamente por eventos ambientais ou climáticos nos últimos anos, enquanto 82% acreditam que fenômenos como ondas de calor, enchentes e secas já afetam a vida da população no país.
Os números ganham ainda mais relevância em um momento em que profissionais do setor elétrico acompanham de perto a possibilidade de formação de um novo episódio do El Niño, fenômeno climático associado ao aumento das temperaturas globais e capaz de provocar efeitos significativos no Brasil, como secas mais severas em algumas regiões, aumento das chuvas em outras e maior ocorrência de eventos extremos.
Mais do que revelar uma preocupação crescente com o clima, os dados ajudam a explicar uma tendência também observada em diversas pesquisas internacionais: quanto maior a percepção dos riscos climáticos, maior tende a ser o apoio da população a investimentos em energias renováveis e em soluções de adaptação e resiliência.
Percepção dos riscos climáticos aumenta apoio às renováveis
Um conjunto de pesquisas internacionais sugere que a percepção dos riscos associados às mudanças climáticas é um dos principais fatores que influenciam o apoio da população às energias renováveis.
Um dos estudos mais citados sobre o tema, publicado no periódico International Journal of Disaster Risk Science e intitulado “Public Perceptions and Support of Renewable Energy in North America in the Context of Global Climate Change“, concluiu que pessoas que reconhecem ou vivenciam os impactos climáticos tendem a apoiar com maior intensidade a expansão de fontes renováveis, como a energia solar e a eólica.
A mesma conclusão foi reforçada pelo estudo “Determining Feature Importance for Actionable Climate Change Mitigation Policies“, publicado em 2020, que identificou a percepção dos riscos climáticos como um dos fatores mais relevantes para explicar o apoio público a políticas de mitigação das mudanças climáticas e de incentivo às energias limpas.
A tendência também foi observada pela People’s Climate Vote 2024, considerada a maior pesquisa global sobre clima já realizada. O levantamento mostrou que 80% da população mundial deseja que os governos façam mais para enfrentar as mudanças climáticas, enquanto 72% defendem uma transição rápida dos combustíveis fósseis para fontes de energia limpa.
Outra pesquisa, desta vez do Pew Research Center apontam resultados semelhantes. Nos Estados Unidos, cerca de dois terços da população defendem que o país priorize investimentos em energias renováveis, como solar e eólica, em detrimento da expansão dos combustíveis fósseis.
Para os pesquisadores, esses dados sugerem que a crise climática deixou de ser percebida apenas como uma questão ambiental e passou a ser associada diretamente à segurança energética, ao custo de vida, à saúde pública e à estabilidade econômica.
Fontes limpas como ferramenta de proteção
Na avaliação de Fernanda Faria, sócia-fundadora do Instituto de Pesquisa Aerah House, a percepção da população brasileira sobre as mudanças climáticas mudou significativamente nos últimos anos.
“Os brasileiros não estão falando apenas sobre algo que pode acontecer no futuro. Eles estão falando sobre enchentes, secas, ondas de calor e outros eventos que já afetam seu cotidiano”, explica.
A pesquisa realizada pelo instituto também identificou que 72% dos entrevistados acreditam que o Brasil não está cuidando do meio ambiente como deveria, indicando uma crescente expectativa por ações concretas de adaptação e mitigação.
“A pesquisa mostra uma população que já vive sob pressão financeira, emocional e social. Quando surge a possibilidade de novos eventos climáticos extremos, isso tende a reforçar a percepção de instabilidade”, frisa Fernanda.
Nesse contexto, tecnologias ligadas à transição energética, como a energia solar e os sistemas de armazenamento, podem ganhar ainda mais relevância nos próximos anos. Afinal, à medida que eventos climáticos extremos passam a afetar diretamente a vida das pessoas, “maior tende a ser a busca por segurança, planejamento e proteção”, destaca a pesquisadora.
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