O uso de tecnologias para melhorar a operação das redes elétricas pode permitir a conexão de até 330 GW adicionais de geração, armazenamento e consumo sem reforços na infraestrutura existente. A estimativa é da IEA (Agência Internacional de Energia), em relatório sobre a modernização das redes diante do avanço da eletrificação.
Segundo o estudo, conectar esse mesmo volume apenas por meio da expansão das redes exigiria cerca de US$ 100 bilhões em investimentos. As ferramentas analisadas podem ser implementadas em meses, permitindo aliviar restrições enquanto novas linhas e instalações são construídas.
A agência avalia que há espaço para transportar mais energia pela infraestrutura já disponível. Para isso, os operadores precisam de informações mais precisas sobre as condições da rede e de recursos que permitam utilizar essa capacidade com segurança.
A análise considera três tecnologias: a definição dinâmica dos limites de capacidade, a otimização da configuração da rede e o controle avançado do fluxo de potência.
Na prática, essas soluções permitem ajustar a capacidade de transporte de linhas e transformadores conforme as condições meteorológicas, desviar fluxos de trechos congestionados e direcionar energia para caminhos com capacidade disponível.
Isso não elimina, porém, a necessidade de novas obras. “Essas soluções complementam a expansão das redes, em vez de substituí-la”, ressalta o relatório.
De acordo com a IEA, a capacidade liberada depende dos limites físicos da infraestrutura, do clima e das condições de operação. Em situações favoráveis, as tecnologias podem adiar ou evitar reforços específicos, mas não são suficientes para atender a todo o crescimento esperado da demanda.
Projetos à espera de conexão
O diagnóstico ocorre em um cenário de dificuldade para conectar novos empreendimentos. Em 2025, pelo menos 1.700 GW de projetos renováveis em estágio avançado e 600 GW de baterias de grande porte aguardavam acesso às redes.
Para a agência, a expansão da infraestrutura não acompanha o crescimento do consumo e as mudanças no setor energético. Entre os entraves, estão o licenciamento, gargalos na cadeia de fornecimento, escassez de profissionais e aumento dos custos dos equipamentos.
Segundo o relatório, atender à demanda prevista até 2035 exige ampliar a capacidade das redes em pelo menos 30%, o equivalente a adicionar ou substituir 25 milhões de quilômetros de linhas.
Na última década, a demanda por eletricidade cresceu aproximadamente duas vezes mais rápido que a demanda total por energia. Impulsionam esse movimento a eletrificação de atividades, a expansão industrial, o uso de sistemas de refrigeração e, em alguns mercados, os data centers.
Construir uma rede capaz de eliminar todo congestionamento, por outro lado, também teria um custo elevado. A IEA explica que isso exigiria dimensionar a infraestrutura para condições de pico que ocorrem apenas durante parte do tempo, deixando capacidade ociosa no restante do ano.
O estudo apresenta exemplos de ganhos obtidos com o uso dessas tecnologias. Nos Estados Unidos, a adoção de limites dinâmicos evitou US$ 64 milhões por ano em custos de congestionamento. Na Grã-Bretanha, o controle avançado do fluxo de potência acrescentou mais de 2 GW de capacidade de transferência.
A inteligência artificial também pode contribuir para identificar capacidade disponível, prever quando ela pode ser utilizada com segurança e simular o comportamento da rede diante de falhas.
Apesar dos resultados, a agência aponta dificuldades para transformar experiências pontuais em práticas rotineiras. “Os principais obstáculos à adoção mais ampla são institucionais e organizacionais”, afirma o documento, em tradução livre.
Entre os operadores consultados, 64% citaram a qualificação profissional e a preparação das organizações como barreiras relevantes. Disponibilidade e qualidade dos dados foram mencionadas por 60%, assim como questões de confiança. Os marcos regulatórios apareceram em 56% das respostas.
Regulação e acesso a dados
Na avaliação da IEA, as regras precisam permitir que os operadores comparem a construção de novas instalações com alternativas digitais e operacionais, considerando os custos e os benefícios de cada solução.
O relatório observa que, em muitos casos, os caminhos regulatórios para investir em infraestrutura física são mais claros do que aqueles disponíveis para adotar ferramentas digitais.
Nas redes de distribuição, a necessidade de melhorar os dados e o acompanhamento da operação cresce com a conexão de sistemas solares em telhados, veículos elétricos e bombas de calor. Muitos operadores, segundo a agência, ainda têm informações limitadas sobre partes de suas redes.
A adoção de inteligência artificial exige também validação, segurança cibernética e supervisão humana. Entre os operadores pesquisados, 70% utilizam amplamente a tecnologia na manutenção, enquanto apenas 23% a empregam na operação em tempo real, atividade que exige maior capacidade de explicar e auditar as decisões.
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