2 de dezembro de 2021
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Mudanças climáticas: crise e adaptações no setor elétrico

Mudança na localização das chuvas já começa a afetar diretamente a geração de energia devido à matriz essencialmente hídrica do país

Mudanças climáticas: crise e adaptações no setor elétrico

Brasília - Lago da barragem de Santo Antonio do Descoberto, que abastece boa parte das cidades satélite da capital, está com o nível de água bem abaixo do esperado (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

O mundo vem trabalhando para descarbonizar o setor energético com o propósito de minimizar os efeitos do aquecimento global oriundo das emissões de CO2. Apesar de todo este esforço, o aumento da temperatura já é uma realidade e uma das principais consequências é a mudança no regime das variáveis climáticas como chuvas, ventos e temperatura.

No caso do setor elétrico brasileiro, a mudança na localização das chuvas já começa a afetar diretamente a geração de energia devido à matriz essencialmente hídrica do país. Esta mudança considerada como uma ameaça climática traz perturbações para um sistema planejado que continua considerando um histórico de vazões que não mais se realiza.

A busca por uma maior resiliência tem sido tema de pesquisa em várias áreas inclusive como a da ameaça sanitária que o mundo está vivendo. Uma forma sistematizada de atacar o problema de evento extremo que pode vir a se perpetuar como um novo normal passa pela aceitação de que a ameaça existe, pela sua quantificação e pela adoção de políticas e medidas para resistir ou adaptar à nova condição. Normalmente, resistir pode representar custos elevados e normalmente a preferência é pela adaptação.

Desde 2011, a Média de Longo Termo (MLT) na região sudeste não ultrapassa os 100% o que provoca a diminuição continua do nível dos nossos reservatórios. A primeira ação dos responsáveis pelo setor elétrico deveria ser acreditar e quantificar a diminuição futura das precipitações e depois buscar ações para tornar o sistema mais resiliente.

Em 2014 foi finalizado um trabalho coordenado pela APINE (P&D 10 Estratégico da ANEEL) em que foi mostrado que as garantias físicas sofreriam perdas de até 25 % em 2050. Este trabalho foi feito utilizando dados do modelo climático global (MCG) do Hardley Centre da Inglaterra com uma discretização feita para a América do Sul através do modelo regional ETA do INPE.

Os agentes do setor e do governo não quiseram escutar e diziam que os modelos globais não eram confiáveis. Outros estudos se sucederam como o projeto META do MME patrocinado pelo Banco Mundial em 2018 e recentemente um trabalho específico sobre a Bacia do Paraná patrocinado pelo PNUD junto com o MME. Estes estudos incluíram outros MGBs como o japonês MIROC, o inglês HadGEN2-ES e o canadense CanESM2 todos regionalizados pelo ETA.

Esses MCGs fazem parte do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) do relatório AR5 cujas funções são de simular as variáveis climáticas de toda a superfície do planeta calculando projeções dessas variáveis até 2100.

Os resultados ratificam as previsões feitas em 2014, ou seja, que o nível de precipitação das regiões Norte e Nordeste tendem a diminuir e na região Sul tendem a aumentar principalmente pela maior frequência do El Niño que representa o aumento de temperatura na região tropical do oceano Pacífico.

Na região Sudeste também há uma tendência de queda, mas a previsão é mais difícil devido ao efeito da ZCAS. Outro ponto que se observa na questão da sazonalização é a maior concentração de chuvas diminuindo o período úmido e aumentando o período seco dificultando a regularização dos rios. Como há dificuldade em construir grandes reservatórios por questões ambientais, a decisão por hidrelétricas para estabilização e aumento da oferta fica cada vez mais comprometida.

No caso da bacia do Paraná, o modelo inglês no cenário de aumento de temperatura de 4o C em 2100 (RCP 8.5) já aponta uma escassez estrutural de vazão da ordem de 40% para 2050. Com a indicação destas tendências das variáveis climáticas apontadas não apenas por um único MCG seria necessário um maior comprometimento para lidar com esta ameaça.

Buscar soluções combinadas inclusive com outros agentes que também fazem uso dos recursos hídricos se torna imperativo. Somente agora, a ANA convocou agentes, associações, o ONS, o MME, o MDR, para buscar soluções conjugadas para a escassez hídrica atual da bacia do Paraná.

A situação vigente do suprimento explicitada na atual bandeira vermelha (patamar 2) logo na saída do período chuvoso denota uma situação muito crítica sinalizando possível racionamento ainda este ano ou no próximo dependendo apenas do comportamento da carga. Como estratégia para minimizar os problemas de suprimento energético, a busca por diversificação da matriz energética nacional e principalmente regional se torna imperativo para tornar o sistema eletro energético menos frágil.

Apesar das renováveis serem a solução para a emissão de gases de efeito estufa, elas trazem intermitência dificultando a operacionalidade do sistema elétrico. Desta forma, usinas despacháveis e armazenamento devem estar presentes em quantidades que variam em função do grau de penetração e regime das fontes renováveis.

Apesar das tecnologias de armazenamento estarem avançando, não se pode prescindir das usinas térmicas com baixa emissão como as de gás natural nesta transição energética rumo ao “zero carbono”.  Uma grande análise de custo e benefício deve ser feita com várias entidades de governo e da sociedade que transcendem o setor elétrico para precificar as restrições existentes na operação do sistema.

É nesta coordenação que o governo brasileiro tem falhado mesmo com todo o seu viés centralizador. Existem várias reformas em andamento no congresso onde interesses de grupos econômicos tentam impedir bons projetos de interesse nacional e regional na sua totalidade ou parcialmente.

A Lei do Gás é um exemplo que veio muito tardiamente e provavelmente já perdemos a janela de oportunidade do gás natural assim como perdemos a janela do petróleo. Existem projetos interessantes em discussão no congresso brasileiro no sentido de melhorar a democratização dos recursos como a PL 5829/20, ou PL da GD, que tem tido um embate forte iniciado pela ANEEL em 2019 para reformular a REN 482/12.

Esta PL consolida avanços importantes como a pulverização do investimento em geração, contribuição para o suprimento energético, contribuição para economia do baixo carbono, democratização a atuação do consumidor que busca maior conhecimento sobre a energia que consome se tornando parte responsável sobre o seu consumo.

A responsabilidade da gestão do setor passa aos poucos a ser descentralizada e regionalizada contribuindo para uma maior resiliência do sistema. Com um maior comprometimento do consumidor, a resposta da demanda começa a ganhar maior espaço na gestão dos recursos energéticos acabando com a ideia da baixa elasticidade do consumidor.

Os benefícios da GD ultrapassam os custos das distribuidoras principalmente neste momento de crise energética com a bandeira vermelha já acionada. A grande questão é a remuneração do tradicional monopólio da distribuição que não pode ser negligenciada, mas também não pode ser colocada como barreira à evolução desta fonte.

Como não teremos escassez de sol e vento, associações ao gás natural num primeiro momento e aos sistemas de armazenamento como baterias, usinas reversíveis, hidrogênio e ou outras tecnologias num segundo momento parece ser o caminho que se desenha principalmente porque o Brasil tem um potencial significativo para ambas as fontes primárias.

No caso da geração solar, seria interessante que o governo fomentasse o desenvolvimento de tecnologias no enriquecimento do silício, do hidrogênio verde e do Lítio/Sódio para as baterias, etc.

A dependência externa destas tecnologias se mostra catastrófica como ocorreu com a crise sanitária que estamos vivenciando onde apesar de toda tradição histórica brasileira em vacinas acabamos dependentes de insumos externos básicos para a sua produção.

Não podemos perder a janela das renováveis e o governo deve incentivar os investimentos estratégicos em GD e em toda cadeia produtiva associada. Ainda há tempo para aceitar a mudança climática e estabelecer ações de mitigação de seus impactos, mas não podemos continuar com a visão tradicional do setor pois a realidade já está se impondo.

José Wanderley Marangon Lima

José Wanderley Marangon Lima

Diretor presidente da Marangon Consultoria & Engenharia - MC&E. Doutorado em Engenharia Elétrica pela UFRJ. Atuou na Eletrobrás, onde participou e coordenou estudos de operação e planejamento de Sistemas Elétricos. Também trabalhou na ANEEL como assessor de diretor. Esteve no Ministério de Minas e Energia como integrante do grupo que elaborou o Novo Modelo Elétrico Brasileiro.

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