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Órigo suspende construção de usinas solares e aposta em eficiência para crescer

Com cerca de 840 MWp instalados, companhia reduz estrutura operacional e prepara expansão no mercado livre de energia

Canal Solar - Órigo suspende construção de usinas solares e aposta em eficiência para crescer

Aurélio Bustilho, CEO da Órigo Energia. Foto: Divulgação

A Órigo Energia suspendeu os investimentos na construção de novas usinas solares e passou a concentrar sua estratégia de crescimento na eficiência operacional, na digitalização e na ampliação de produtos oferecidos aos consumidores. A decisão ocorre após um período de expansão acelerada da companhia.

Em entrevista, o CEO da Órigo Energia, Aurélio Bustilho, explicou que o cenário de juros elevados e a maior competição no segmento de geração distribuída compartilhada levaram a empresa a rever suas prioridades.

Atualmente, a companhia possui cerca de 830 MWp de capacidade instalada, distribuídos em aproximadamente 430 usinas solares em 14 estados brasileiros. “Nós realmente paramos de construir. Com o Brasil com a taxa de juros do jeito que está, não faz muito sentido. Mais para frente podemos voltar a isso, mas hoje não”, afirmou.

Segundo o executivo, a companhia atravessa um período de reorganização, após anos de crescimento sustentado pela construção de ativos e pela expansão da força comercial. A estratégia agora é melhorar o aproveitamento da energia produzida, reduzir perdas e tornar a operação mais eficiente.

Uma das principais mudanças ocorreu na estrutura de vendas. A Órigo chegou a contar com aproximadamente 1.500 funcionários, incluindo quase 800 vendedores que atuavam principalmente no modelo porta a porta. Atualmente, o quadro está reduzido a menos de 500 profissionais.

A empresa também fechou três sedes e passou a concentrar suas atividades administrativas, buscando reduzir despesas e simplificar a gestão. “Começamos a perceber que essa forma de vender não era sustentável. O custo de aquisição ficava bastante alto. Então, passamos a migrar para uma jornada mais digital”, explicou Bustilho.

A transformação envolve a adoção de ferramentas de inteligência artificial e análise de dados para melhorar a alocação dos créditos de energia, identificar padrões de consumo e reduzir o cancelamento de contratos.

A companhia também está ampliando os canais de contratação digital, permitindo que consumidores adquiram seus produtos sem a necessidade de interação com vendedores.

Apesar da suspensão de novos projetos, Bustilho não descarta a possibilidade de crescimento por meio de aquisições ou parcerias. Segundo ele, as dificuldades financeiras enfrentadas por empresas do segmento podem abrir espaço para movimentos de consolidação.

“O mercado está com muitas empresas que enfrentam dificuldades financeiras. Eventualmente, pode surgir a oportunidade de juntar forças com alguém, fazer M&A. Em algum momento isso vai chegar, mas hoje não é o meu foco”, afirmou.

Além das mudanças operacionais, a Órigo trabalha na reorganização de sua estrutura financeira, incluindo um processo de alongamento de dívidas e medidas para fortalecer o balanço.

Nova frente de crescimento

Paralelamente à reorganização do negócio de geração distribuída, a Órigo começou a estruturar uma operação voltada ao mercado livre de energia. A iniciativa faz parte da estratégia de diversificar as soluções oferecidas aos consumidores e aproveitar as oportunidades previstas com a abertura do mercado de baixa tensão.

Segundo Bustilho, a companhia já possui uma equipe dedicada à nova atividade e atende aproximadamente dez clientes em uma operação inicial que combina soluções de geração distribuída e mercado livre.

“Não consigo imaginar uma empresa de geração distribuída compartilhada sem ter uma atuação, ainda que inicial, como gestora de mercado livre. Os dois negócios podem se complementar muito bem”, afirmou.

A proposta é utilizar a carteira de consumidores atendidos pela Órigo para identificar oportunidades de migração ao mercado livre. Atualmente, a companhia atende cerca de 115 mil unidades consumidoras, sendo aproximadamente 70% residenciais e 30% pequenos negócios e pequenas indústrias.

De acordo com o executivo, a entrada no mercado livre não exigirá necessariamente novos investimentos em geração. A empresa poderá estabelecer parcerias para o fornecimento de energia e atuar na gestão dos contratos, aproveitando sua estrutura comercial e tecnológica.

“Não estou dizendo que vou ter posição em aberto, fazer trading. Posso ter uma plataforma e parceiros que forneçam energia. Como já tenho uma relação com o cliente, posso agregar margem a essa operação”, explicou.

Bustilho ressaltou, no entanto, que a atuação no mercado livre será inicialmente limitada e deverá crescer conforme a abertura do setor e o desenvolvimento das ferramentas digitais da companhia.

A estratégia também considera a possibilidade de oferecer diferentes soluções ao mesmo consumidor ao longo do tempo. Em determinados casos, a geração distribuída pode apresentar maior vantagem econômica no curto prazo, enquanto a migração ao mercado livre pode se tornar mais atrativa posteriormente.

Para Bustilho, o conhecimento acumulado sobre os hábitos de consumo e a relação direta com os clientes poderão representar vantagens competitivas diante da entrada de grandes grupos no mercado de baixa tensão.

Ambiente mais competitivo

A decisão de interromper novos investimentos também ocorre em um momento de maior competição no segmento de geração distribuída compartilhada.

Na avaliação do CEO, o setor passou por um período de forte expansão da oferta de projetos, enquanto o conhecimento dos consumidores sobre os benefícios e as características da energia por assinatura ainda é limitado.

Bustilho considera que a abertura do mercado livre poderá contribuir para ampliar esse conhecimento e estimular a procura por soluções de gestão e redução dos custos de energia.

O executivo também avalia que a demanda por eletricidade continuará crescendo no Brasil, impulsionada pela eletrificação da economia, pela expansão dos data centers e pela adoção de veículos elétricos.

Apesar das perspectivas de crescimento do consumo, ele considera que o ambiente atual não favorece novos investimentos em usinas de geração distribuída compartilhada.

“Não estou escutando ninguém construir nada hoje. Está todo mundo parado. Às vezes anunciamos a conexão de uma usina, mas ela já estava construída e a distribuidora atrasou tanto que só agora conseguimos conectar”, afirmou.

Nesse cenário, a estratégia da Órigo é aproveitar melhor os ativos existentes e ampliar a oferta de serviços. A companhia também analisa parcerias relacionadas ao armazenamento de energia, embora não pretenda investir diretamente na construção ou aquisição de sistemas de baterias.

Para Bustilho, o próximo ciclo de crescimento da empresa dependerá menos da expansão da capacidade instalada e mais da capacidade de oferecer soluções adequadas ao perfil de cada consumidor.

“Precisamos migrar desse foco de oferecer somente descontos na conta de luz para solucionar problemas dos clientes relacionados à eficiência, à redução de custos e ao consumo de energia”, concluiu.

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Wagner Freire
Sobre o autor
Wagner Freire

Wagner Freire é jornalista graduado pela FMU. Atuou como repórter no Jornal da Energia, Canal Energia e Agência Estado. Cobre o setor elétrico desde 2011. Possui experiência na cobertura de eventos, como leilões de energia, convenções, palestras, feiras, congressos e seminários.

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