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Qual o impacto das chuvas no sistema elétrico brasileiro?

Especialista da Climatempo discorre sobre como a climatologia impacta o setor e destaca a importância da complementariedade

Autor: 28 de janeiro de 2022Setor Elétrico
Qual o impacto das chuvas no sistema elétrico brasileiro?

Mais de 60% da energia gerada, produzida é via hidrelétrica. Foto: Envato Elements

“Temos uma real dependência da matriz energética em relação à água da chuva”, esta é a análise de Pedro Regoto, especialista em clima da Climatempo.

Durante o webinário Impacto das chuvas no sistema elétrico brasileiro, promovido pelo Canal Solar nesta terça-feira (25), ele discorreu sobre a complementariedade das fontes renováveis e como a climatologia influencia no setor.

“Hoje, mais de 60% da nossa energia gerada, produzida é via hidrelétrica. Quando temos períodos de seca mais prolongados, períodos não tão úmidos, a geração de eletricidade acaba sendo mais prejudicada”, disse.

“A partir de 2011 estamos vindo de uma tendência negativa no armazenamento da energia dos principais reservatórios, principalmente do submercado Sudeste e Sul do Brasil. Então, desde lá não conseguimos mais recuperar o nível dos reservatórios para patamares tão próximos daquele ano e patamares superiores”, explicou Regoto.

“A gente só vem caindo ao longo do tempo. Passamos por algumas crises, por alguns verões péssimos, como o de 2014 e 2015, onde tivemos grandes secas, principalmente em janeiro. E sabemos que período úmido prejudicado não tem mistério, não tem muito o que fazer, justamente porque a nossa matriz é, sobretudo, hidrelétrica, depende exclusivamente da água. Se a água não cai no lugar ou período certo, a nossa matriz é realmente impactada”, ressaltou.

Ainda neste contexto de crise, o especialista comentou que em 2021 o país passou por um verão que não foi muito positivo para o setor. “Aumentou o nível, mas não satisfatoriamente. E aí viemos com anomalias negativas, chuvas abaixo da média na maior parte do primeiro semestre para o Centro-Sul de uma forma geral”.

“Ou seja, tivemos um desbalanço de energia no Sudeste durante o período úmido, e também um desbalanço de aumento de reservatório no Sul do Brasil a partir de julho. Isso nos proporcionou esse cenário de crise no qual ainda estamos passando”, acrescentou.

Leia mais: O que acontece quando um reservatório opera no volume morto?

Fontes renováveis

Quando falamos da complementariedade das fontes renováveis, isto é fundamental no cenário brasileiro, pois, segundo Regoto, o Brasil é muito agraciado por ter climas de Norte a Sul, similares em algumas maneiras, distintas em outras, que acabam se complementando, como a hídrica, eólica e solar.

“Nos meses do verão temos um incremento maior de precipitação das chuvas e, por consequência, uma maior geração de energia via hidrelétricas. Assim, maior parte das bacias hidrográficas pertencentes ao Norte, Centro-Oeste e Sudeste recebem essa chuva mais volumosa e constante”, apontou.

“A irradiância solar acaba atuando também significativamente nos meses de verão, pois o sol está mais posicionado no Hemisfério Sul, favorecendo a chegada dessa energia de uma forma bem proveitosa”, esclareceu.

Referente a eólica, na visão dele, os ventos não são muito interessantes nos meses de verão. O Sudeste é ‘pobre’ de vento, o Nordeste recebe intensidade interessante, mas de forma bem pontual, e o Sul também de forma pontual.

Na medida que o país vai avançando para o outono e inverno, a precipitação vai diminuindo na maior parte das bacias hidrográficas, “então a gente perde este poder de geração por meio das hidrelétricas”.

“A irradiância solar, conforme estamos avançando em direção ao inverno no meio do ano, também decai consideravelmente, exceto na faixa bem equatorial, sobretudo grande parte do Centro-Oeste e Nordeste, onde sabemos que tem uma variabilidade baixa dessa irradiância. Os ventos começam a se fortalecer, justamente, neste período”, explicou.

“Quando falamos do meio do ano no inverno, perdemos este poder de gerar energia por meio das hidrelétrica e perdemos também pela irradiância solar. Portanto, as usinas fotovoltaicas acabam gerando um pouco menos pois o sol já está lá no Hemisfério Norte”, comentou.

Porém, de acordo com o especialista da Climatempo, o país ganha pelo lado eólico. “É esse período que chamamos das boas safras de vento. Nordeste, Sudeste e Sul, sobretudo a parte continental do Nordeste, recebe uma quantidade de vento muito interessante. Bahia, Ceará e Piauí, por exemplo, recebem esses bons ventos que favorecem a geração de energia por meio das eólicas. Justamente por nosso sistema ser interligado de forma nacional, conseguimos ter essa complementariedade de fontes renováveis”, destacou.

Para Pedro Regoto, é importante ressaltar que as análises devem ser feitas mediante aos fatores climáticos que acabam impactando o regime de ventos e chuvas, principalmente. Temos diversos fatores, talvez o mais conhecido seja El Niño e La Niña, o resfriamento das águas do pacífico equatorial.

“São fenômenos que não estão ocorrendo em cima de nós, não ocorrem de forma local, chamamos padrões de ‘teleconexões’, padrões que influenciam remotamente o globo. Cada evento deste pode impactar de forma a aumentar e diminuir as chuvas e ventos em determinadas regiões do Brasil”, disse.

Chuvas extremas

Ao longo do webinário, foi discutido também o impactos das chuvas extremas. “O padrão está sendo modificado ao longo do tempo. Quando falamos de extremo, pode ser muita ou pouca chuva. Aí alguns pensam: muita chuva é bom pois vamos gerar bastante energia através dessa chuva em excesso. Entretanto, tudo que é extremo, na maioria das vezes não é positivo”.

“Vou citar um caso que é trágico, mas é didático, como a chuva que ocorreu em dezembro no norte de Minas Gerais e Sul da Bahia. Algumas empresas tiveram dificuldades para fazerem o atendimento na rede de distribuição elétrica, já que árvores caíram nas estradas impedimento a passagem destes profissionais e, assim, muitas quedas de eletricidade ocorreram. As equipes tiveram que ser acionadas, mas pelas estradas estarem comprometidas acabou complicando”, exemplificou.

“Além deste caso, uma empresa teve um problema sério na sua gestão de uma PCH (Pequena Central Hidrelétrica). A mesma teve que tomar mediadas de drenagem para restabelecer o funcionamento, justamente por passar por uma cota de inundação. Fora que não estamos falando só eventos extremos como chuvas, e sim também de ventos e descargas atmosféricas, que estão atrelados a queda de torres de transmissão. Isto afeta não só a vida das empresas como de todo mundo”, ressaltou.

Previsão de chuva para os próximos meses

Com relação à previsão para os próximos 3 meses, a Climatempo indicou que para fevereiro a expectativa é de ainda ter uma condição interessante de precipitação nas chuvas próximas e levemente acima da média em boa parte do Centro-Sul brasileiro.

“Estou falando do coração do Sudeste, da bacia do Paranapanema, boa parte da bacia do Paraná e as bacias englobadas no subsistema Sul. O Nordeste, sobretudo a bacia do São Francisco, não deve receber altos volumes de precipitação como recebeu muito em dezembro. Já o Norte será marcado por um evento mais seco”, pontuou.

Referente a março, ele enfatizou que a ideia é que essas chuvas comecem a subir mais para o Centro-Norte, saindo do Sul e Sudeste. “É um março com uma caraterística parecida com dezembro de 2021, aonde esperamos que a chuva fique abaixo da média em boa parte do Centro-Sul e próximo, acima da média em boa parte do Nordeste, na bacia do São Francisco, e nas bacias do Norte do Brasil. Só que o Norte, a ideia é que nem todas as bacias que pertencem a esse subsistema devam receber altos volumes”.

“Por fim, falando de abril, a chuva continua se deslocando ao Centro-Norte. Quando chega em abril há um deslocamento de uma faixa de precipitação mais intensa, pegando mais o Nordeste. Aí, realmente, a previsão é de que o submercado do Norte receba volumes acima da média. E quando falamos de Centro-Sul brasileiro, a nossa expectativa é que recebam menos volume de chuva do que o esperado”, concluiu.

Mateus Badra

Mateus Badra

Atuou como produtor, repórter e apresentador na Bandeirantes e no Metro Jornal. Acompanha o setor elétrico brasileiro há mais de dois anos, atuando nas editorias de Mercado e Tendências, Mobilidade Urbana, P&D e Equipamentos. Jornalista graduado pela PUC-Campinas.

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