Com colaboração de Henrique Hein
A possibilidade de formação de um novo episódio de El Niño em 2026 passou a ser acompanhada com atenção pelo setor elétrico brasileiro diante dos potenciais impactos sobre consumo de energia, geração hidrelétrica e segurança operativa do sistema.
Um levantamento da Nottus, empresa especializada em inteligência climática e consultoria meteorológica para o mercado corporativo, indica que o fenômeno pode elevar o risco de eventos extremos nos próximos meses, especialmente em um cenário de temperaturas globais mais elevadas.
Segundo a análise, após o enfraquecimento das condições de La Niña no início de 2026, modelos meteorológicos já apontam uma rápida transição para neutralidade climática, com possibilidade de evolução para El Niño entre maio e julho.
Para o setor elétrico, o principal impacto esperado está relacionado ao aumento das temperaturas nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do país.
Ondas de calor mais frequentes e prolongadas tendem a elevar significativamente o consumo de energia elétrica, impulsionado principalmente pelo uso intensivo de equipamentos de refrigeração.
O cenário pode pressionar a operação do SIN (Sistema Interligado Nacional) em períodos de carga elevada, exigindo maior coordenação entre geração, transmissão e despacho termelétrico.
Nos últimos eventos climáticos associados ao El Niño, o Brasil registrou sucessivos recordes de demanda de potência, especialmente durante episódios extremos de calor.
Além da pressão sobre o consumo, o fenômeno também pode trazer impactos relevantes para a geração hidrelétrica. A redução das chuvas em parte das regiões Norte e Nordeste pode comprometer afluências e reservatórios importantes para o sistema, diminuindo a disponibilidade de geração hídrica justamente em momentos de maior demanda.
A combinação entre temperaturas elevadas e menor previsibilidade hidrológica amplia os desafios para o planejamento energético e reforça a necessidade de monitoramento climático contínuo por parte dos agentes do setor.
Segundo Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus, os efeitos do El Niño precisam ser analisados dentro de um contexto de mudanças climáticas e aumento da frequência de extremos meteorológicos.
“O principal ponto não é apenas a intensidade do El Niño, mas o fato de que os eventos climáticos potencializam impactos sobre infraestrutura, consumo e operação energética”, afirma.
Armazenamento em destaque
Nesse contexto, profissionais do mercado avaliam que o avanço dos eventos climáticos extremos e o aumento da pressão sobre o sistema elétrico tendem a acelerar a busca por soluções capazes de ampliar a previsibilidade energética e reduzir a exposição às oscilações tarifárias, ainda mais em um cenário em que a conta de luz acumula reajustes acima da inflação.
O movimento já começa a ser percebido no mercado de geração distribuída e armazenamento, principalmente entre consumidores corporativos mais sensíveis a custos operacionais, demanda de ponta e riscos de interrupção no fornecimento de energia.
Segundo Jacques Hulshof, CEO da TTS Energia, esse cenário está mudando a forma como as empresas encaram o consumo de eletricidade, especialmente em segmentos industriais, logísticos, comerciais e do agronegócio.
“Cada novo reajuste na conta de luz impacta diretamente a competitividade das empresas, aumenta custos operacionais e reduz a previsibilidade financeira. Por isso, temos observado um crescimento consistente na busca por soluções de energia solar associadas a sistemas de armazenamento em baterias, capazes de reduzir a exposição às bandeiras tarifárias e dar mais autonomia energética ao consumidor corporativo”, afirma.
Segundo o executivo, os projetos híbridos de geração fotovoltaica e baterias ganham ainda mais relevância diante do aumento do custo da energia nos horários de ponta e da necessidade de maior estabilidade operacional.
“As baterias deixam de ser apenas uma tecnologia complementar e passam a exercer papel estratégico para empresas que querem gerenciar melhor seu consumo, reduzir picos de demanda, evitar custos elevados e garantir continuidade operacional em momentos críticos do sistema elétrico”, acrescenta Hulshof.
Somente entre janeiro e abril de 2026, aproximadamente 50% de todos os pedidos e cotações recebidos pela TTS Energia envolveram projetos com baterias combinadas com painéis solares, sendo que cerca de 25% correspondem a sistemas exclusivamente de armazenamento.
Na comparação entre o quarto trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou crescimento de aproximadamente 300% nas consultas por projetos do gênero.
Para o CEO da empresa, o armazenamento energético deve ganhar protagonismo nos próximos anos no Brasil, acompanhando uma tendência global de modernização da infraestrutura elétrica e descentralização da geração de energia.
“O consumidor corporativo está cada vez mais atento não apenas à economia na conta de luz, mas também à resiliência energética do seu negócio. Em um cenário de tarifas voláteis e maior pressão inflacionária, investir em energia solar com baterias passa a ser uma decisão estratégica e não apenas ambiental”, conclui Hulshof.
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