A economia na conta de luz e o prazo de retorno costumam orientar a decisão de instalar uma usina solar. Mas preservar esse investimento também depende de como o proprietário se prepara para enfrentar um vendaval, um incêndio, um dano elétrico ou roubo de equipamentos.
Além do custo de reposição, uma ocorrência pode interromper a geração, aumentar as despesas com energia e, em determinadas situações, provocar prejuízos a terceiros.
A proteção precisa começar antes de o sistema entrar em operação. Durante a montagem, os riscos envolvem os equipamentos, as estruturas que recebem os módulos e as pessoas que trabalham na instalação.
Depois, passam a incluir os eventos que podem comprometer o funcionamento da usina. Essa mudança exige atenção às modalidades de seguro, aos limites de indenização e às exclusões de cada apólice.
Segundo Alexandro Sanxes, superintendente de Riscos Técnicos da Sancor Seguros, parte dos problemas surge porque o consumidor não compreende exatamente o alcance da contratação.
“O que eu vejo é pouca informação ao cliente. Então o cliente acaba contratando uma coisa imaginando que teria cobertura em outra”, afirma. “A pessoa não vê aquilo como uma proteção, como uma ferramenta de transferência de risco para uma seguradora. Ela vê aquilo como um simples custo.”
Na avaliação de Sanxes, a tentativa de economizar na contratação pode reduzir as coberturas e deixar o proprietário exposto a despesas que não conseguiria absorver. Por isso, o preço precisa ser analisado junto com os riscos efetivamente transferidos à seguradora e com as condições para receber uma indenização.
O crescimento da carteira fotovoltaica da Sancor dá uma dimensão da expansão dessa proteção dentro da companhia. A importância segurada passou de R$ 875,3 milhões em 2024 para R$ 1,08 bilhão em 2025, avanço de 23,3%.
Até agosto de 2026, alcançou R$ 1,37 bilhão, valor 26,9% superior ao registrado no encerramento do ano anterior. A projeção é encerrar 2026 com crescimento superior a 30% na importância segurada. Os números não representam faturamento da seguradora nem indenizações pagas.
De acordo com Sanxes, o levantamento considera a carteira vigente nos períodos informados e reúne quatro modalidades associadas aos projetos fotovoltaicos: Riscos de Engenharia, Riscos Diversos, Responsabilidade Civil e Garantia.
Segundo ele, os números são reflexo da combinação entre o aumento de usinas instaladas no país com a ampliação das soluções oferecidas pela companhia.
Há diferenças entre os perfis atendidos: os sistemas residenciais se destacam em quantidade de usinas, enquanto os industriais têm maior peso no volume de prêmios, refletindo investimentos e projetos de maior porte.
Proteção começa na instalação
Nas grandes instalações em solo, ele lembra que o investimento envolve preparação do terreno, fundações, licenciamento e projeto, além dos equipamentos.
Essa diferença também aparece na avaliação dos riscos. Em uma usina em solo, a fixação precisa suportar os esforços provocados pelo vento. Nos telhados, é necessário avaliar a estrutura existente e sua capacidade de receber a carga dos equipamentos e resistir à ação do vento.
Sanxes relata um caso atendido pela Sancor em uma concessionária de caminhões, na qual o telhado colapsou durante a montagem do sistema. A empresa havia retirado os veículos e isolado a área de trabalho, evitando danos ao conteúdo do imóvel. Ainda assim, houve prejuízo na cobertura.
O episódio mostra a importância do gerenciamento de risco durante a execução. A proteção dos equipamentos depois de instalados não substitui a avaliação estrutural nem resolve, por si só, a exposição durante a obra.
Conforme explica o executivo, o seguro de Riscos de Engenharia atende a danos físicos decorrentes de acidentes ou falhas nessa etapa. O seguro Garantia tem outra função: está relacionado ao cumprimento das obrigações assumidas no contrato.
Sanxes exemplifica com o proprietário que compra uma usina e quer proteção diante do risco de o responsável abandonar o projeto ou não entregar o empreendimento conforme o combinado. Já o seguro de Riscos Diversos protege os equipamentos em operação, de acordo com os eventos e as condições contratuais.
“Mas no momento que ele vai comprar um kit, ele deveria, desde o momento da instalação até o momento da sua operação, se preocupar com a contratação de um seguro. Como eu falei aqui, a gente cita exemplos que no momento da montagem tiveram sinistro ou regiões que sofrem muito eventos de vendaval ou situações onde tem muito problema de roubo”, afirma.
A localização é um dos fatores que orientam essa análise. Na experiência da carteira da Sancor, os vendavais são a principal ocorrência na região Sul, onde a companhia concentra suas operações.
Em outras regiões, Sanxes destaca roubos de cabos e equipamentos. Segundo ele, o histórico do local e a incidência de eventos influenciam a precificação, as franquias e eventuais limitações de contratação.
O executivo também observa diferenças entre a exposição de instalações em solo e em cobertura. Sistemas em telhados podem sofrer mais com vendavais, enquanto usinas em solo, especialmente em áreas com cercamento mais vulnerável, podem facilitar o acesso para furtos e roubos. O risco, portanto, depende das condições de cada empreendimento.
Nas propriedades rurais, a continuidade do fornecimento acrescenta outra preocupação. Sanxes destaca atividades como a criação em granjas, nas quais uma falha de energia pode provocar perdas relevantes.
Segundo ele, há produtores que combinam sistemas fotovoltaicos com geradores a diesel e outras alternativas de apoio para reduzir a exposição às interrupções.
Danos a terceiros também exigem cobertura
A necessidade de proteção também alcança terceiros. Uma placa que se desprende durante um vendaval pode atingir um veículo ou um imóvel vizinho. Esses prejuízos exigem atenção à cobertura de Responsabilidade Civil, que deve ser avaliada separadamente da proteção do próprio equipamento.
De acordo com Sanxes, nem todas as seguradoras incluem nessa modalidade os danos a terceiros decorrentes de eventos da natureza. Assim, a existência de um seguro para a usina não significa, automaticamente, que esse tipo de ocorrência esteja coberto.
O cuidado também envolve o acesso às instalações. Segundo o executivo, áreas sem isolamento ou sinalização adequada podem expor pessoas ao contato com equipamentos elétricos. Em projetos maiores, a engenharia da seguradora pode avaliar essas condições e indicar medidas para mitigar os riscos.
Os acidentes de trabalho durante a montagem são outra preocupação. Sanxes chama atenção para instalações em telhados e para a necessidade de equipamentos de proteção.
Ele explica que existem coberturas de Responsabilidade Civil do empregador e soluções voltadas à perda de renda de profissionais que precisam interromper suas atividades após um acidente. A contratação depende do perfil de quem executa o serviço e das condições da apólice.

Interrupção da geração pode ampliar o prejuízo
Mesmo quando o dano fica restrito à usina, a despesa pode ir além do reparo. Se o sistema deixar de produzir, o consumidor pode voltar a pagar uma parcela maior da conta de luz. Para quem depende da comercialização de energia, a interrupção também pode afetar o retorno financeiro do empreendimento.
Ao explicar a cobertura da Sancor para essas situações, Sanxes ressalta que a proteção está vinculada a um sinistro. Uma parada para manutenção, por exemplo, não se enquadra na mesma condição.
“Imagina que aconteceu um sinistro. Ocorreu, por exemplo, um vendaval, e ele ficou 60 dias para recompor a usina dele ao estado original que estava. Então, nesses 60 dias, eu vou medir qual era o potencial de geração dele e cobrir esse custo”, explica.
O cálculo considera a parcela atendida pela usina. Se o sistema supria metade do consumo e o restante já era comprado da concessionária, a proteção descrita pelo executivo considera os 50% associados à geração interrompida, e não a totalidade da conta.
Sanxes também diferencia a cobertura do custo da energia das penalidades contratuais. Segundo ele, a modalidade de despesas fixas da companhia contempla o pagamento da conta e a falta de entrega de energia nas condições contratadas, mas não indeniza multas pelo descumprimento de obrigações de fornecimento.
Há ainda a possibilidade de contratar despesas extraordinárias. O executivo exemplifica com o aluguel de um gerador a combustível para manter o fornecimento e evitar o agravamento das perdas ou uma multa. Nesses casos, a despesa precisa ser justificada conforme as condições da cobertura.
Exclusões e valor segurado merecem atenção
Tão importante quanto conhecer os eventos cobertos é entender as exclusões. Sanxes cita as microfissuras nos módulos, que podem comprometer a eficiência e gerar dificuldade para identificar em qual etapa o dano surgiu: transporte, descarga ou instalação.
Segundo ele, esse risco é excluído da proteção no caso da Sancor. A ressalva ajuda a distinguir dano indenizável de problemas que precisam ser tratados com fornecedores e responsáveis pela instalação. Também reforça a necessidade de documentação e de acompanhamento técnico ao longo do projeto.
Para dimensionar a importância segurada, Sanxes orienta considerar o custo dos projetos, dos equipamentos e da mão de obra de instalação. Além dos módulos, a proteção dos equipamentos pode incluir inversores, cabeamento, suportes e outros componentes ligados ao sistema.
Notas fiscais e fotografias ajudam a comprovar o investimento e a condição dos bens. Segundo o executivo, sistemas menores podem passar por uma inspeção feita pelo próprio cliente, com envio de imagens. Nos maiores, a avaliação pode incluir a visita de um engenheiro.
A definição técnica do projeto é outro cuidado. Sanxes observa que alguns consumidores compram um sistema esperando suprir todo o consumo, embora a capacidade contratada seja menor. Especificações claras permitem compreender o que está sendo adquirido e evitam confundir uma expectativa comercial com uma obrigação efetivamente assumida.
Baterias trazem novos desafios para o seguro
A chegada das baterias acrescenta novas questões à avaliação de risco. O executivo diz que a companhia acompanha a evolução dos equipamentos e dos projetos, mas considera que o mercado brasileiro ainda tem uma curva de aprendizado nos grandes sistemas de armazenamento.
“Para nós, a gente ainda está engatinhando nos megaprojetos de baterias, mas no residencial já evoluímos bastante”, afirma. Segundo ele, a experiência internacional, especialmente europeia, oferece referências para o desenvolvimento desse segmento.
Nesse processo, integradores, distribuidores e corretores têm papel importante na orientação do proprietário. “A gente tem feito um trabalho muito forte junto aos integradores e aos distribuidores. Eles são formadores de opinião no momento desta contratação”, diz.
A decisão sobre a proteção deve considerar quais prejuízos ele conseguiria absorver, quais riscos estão cobertos e quanto teria de desembolsar em franquias ou situações excluídas. Para quem investe em geração solar, compreender essas condições faz parte do mesmo planejamento que calcula a economia e o prazo de retorno da usina.
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