Se há alguns anos o petróleo era considerado um dos principais recursos estratégicos do planeta, hoje outro grupo de elementos químicos vem ganhando protagonismo na economia mundial: as chamadas terras raras.
Embora pouco conhecidas pelo público, elas estão presentes em diversas tecnologias utilizadas diariamente e desempenham um papel fundamental na transição energética, principalmente na fabricação de turbinas eólicas, motores de veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas de alta eficiência.
O interesse crescente por esses minerais fez com que países como China, Estados Unidos, União Europeia e Brasil passassem a tratar o tema como estratégico para o desenvolvimento industrial e a segurança energética.
O que são terras raras?
O termo “terras raras” reúne um grupo de 17 elementos químicos, composto pelos 15 lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Esses elementos possuem propriedades magnéticas, elétricas e ópticas, que permitem fabricar equipamentos menores, mais leves, mais resistentes e mais eficientes. Apesar do nome, eles não são necessariamente raros.
Segundo o MME (Ministério de Minas e Energia), muitos desses elementos são relativamente abundantes na crosta terrestre. O desafio está no fato de que normalmente aparecem dispersos em baixas concentrações, misturados a outros minerais, tornando sua identificação, extração e processamento mais complexos e caros.
A viabilidade econômica de uma jazida depende de fatores como concentração dos elementos, características geológicas, custos de beneficiamento, logística e demanda do mercado.
Qual a relação com a energia renovável?
Mesmo sem perceber, praticamente todas as pessoas utilizam produtos que contêm terras raras. Esses elementos estão presentes em equipamentos como smartphones; computadores; televisores; equipamentos médicos; fibras ópticas; sistemas militares; catalisadores industriais; motores elétricos e até turbinas eólicas.
Seu principal diferencial é permitir equipamentos mais compactos, leves e com maior desempenho energético. É justamente nesse ponto que as terras raras ganharam enorme importância nos últimos anos.
A expansão das fontes renováveis depende de tecnologias cada vez mais eficientes, e muitos desses equipamentos utilizam ímãs permanentes produzidos com elementos como neodímio, praseodímio, térbio e disprósio.
Energia eólica
Nas turbinas eólicas mais modernas, especialmente as de acionamento direto (direct drive), esses ímãs substituem sistemas mecânicos mais complexos. O resultado é uma turbina mais eficiente, com menor necessidade de manutenção e maior vida útil.
Com o crescimento da energia eólica offshore, a demanda mundial por esses elementos deve aumentar significativamente ao longo da próxima década.
Veículos elétricos
Ao contrário do que muitos imaginam, as baterias dos veículos elétricos normalmente não utilizam terras raras. O lítio, o níquel, o cobalto e o grafite continuam sendo os principais materiais dessas baterias.
As terras raras aparecem principalmente nos motores elétricos, responsáveis por transformar energia elétrica em movimento. Motores que utilizam ímãs permanentes de neodímio oferecem maior potência, melhor eficiência e menor peso, características importantes para ampliar a autonomia dos veículos.
Vale destacar que alguns fabricantes, como a Tesla, já vêm desenvolvendo motores com menor uso ou até sem terras raras, buscando reduzir a dependência desses materiais.
Armazenamento de energia
Nos sistemas de armazenamento (BESS), o uso de terras raras é bem menor do que em motores elétricos ou turbinas eólicas. As baterias de íons de lítio predominantes no mercado utilizam principalmente lítio, grafite, níquel, manganês, cobalto e ferro.
Entretanto, terras raras podem aparecer em componentes eletrônicos, sensores, sistemas de controle, inversores e equipamentos auxiliares responsáveis pela operação dos sistemas de armazenamento. Ou seja, embora não sejam protagonistas nas baterias, continuam presentes na infraestrutura tecnológica que integra esses sistemas.
Por que a China domina esse mercado?
A produção mundial de terras raras é altamente concentrada. Atualmente, a China responde pela maior parte da mineração e, principalmente, pelo processamento desses elementos, etapa considerada a mais complexa da cadeia produtiva.
Esse domínio transformou as terras raras em um tema geopolítico, com Estados Unidos, Japão e União Europeia investindo fortemente para diversificar fornecedores e reduzir sua dependência da indústria chinesa.
E qual é o papel do Brasil?
O Brasil possui um dos maiores potenciais de terras raras do mundo. Segundo o MME, grande parte desses elementos ocorre em depósitos de argilas iônicas, formados pelo intemperismo de rochas enriquecidas nesses minerais.
Nesses depósitos, os elementos ficam adsorvidos às partículas de argila, permitindo, em determinadas condições geológicas, uma extração potencialmente mais simples e com menor necessidade de beneficiamento quando comparada a outros tipos de jazidas.
Essa característica pode representar vantagens ambientais e econômicas, tornando o país um potencial fornecedor estratégico para a indústria global de tecnologias limpas.
Ainda assim, segundo o Ministério, o grande desafio brasileiro não está apenas na mineração, mas em desenvolver toda a cadeia de processamento e transformação industrial.
Hoje, grande parte do valor agregado das terras raras está justamente na separação, refino e fabricação de ímãs permanentes e componentes tecnológicos, que são etapas dominadas por poucos países.
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