O avanço da IA (inteligência artificial), dos data centers, das redes móveis e da automação industrial impõe um desafio que vai além da construção de novas instalações. É preciso garantir que energia elétrica e telecomunicações estejam disponíveis simultaneamente, nos locais e prazos necessários.
Essa é a avaliação apresentada pela ABINEE (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica) em um documento, terceiro da série “Soluções Integradas”, que destaca a necessidade de conciliar investimentos, tecnologia e segurança jurídica, premissa que faz bastante sentido ante um governo nacional que ganha mais quatro anos a partir de 2027.
Um data center, por exemplo, aponta a entidade, precisa de fornecimento elétrico confiável e de conexões de alta capacidade para processar e transmitir grandes volumes de dados. Mesmo que o país tenha geração de energia suficiente no conjunto, isso não garante que uma instalação consiga conectar-se à rede elétrica perto de onde pretende operar, assinala.
A disponibilidade de linhas de transmissão, subestações, fibra óptica e cobertura de telecomunicações também condiciona a implantação desses empreendimentos, afirma a associação.
Regras diferentes
A ABINEE chama atenção para a distinção entre os mecanismos de autorização nos dois setores. Nas telecomunicações, o espectro de radiofrequências — as faixas de ondas utilizadas para transmitir sinais móveis — é um recurso público limitado, cujo uso depende de autorização da ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações).
Portanto, os chamados leilões de frequências não representam a venda definitiva desse recurso, mas a concessão de direitos de uso por prazo determinado e sob condições estabelecidas. No setor elétrico, por sua vez, a expansão da transmissão ocorre por meio de concessões de serviço público. Os contratos definem responsabilidades de implantação, operação e manutenção das instalações.
As características técnicas das frequências também influenciam os investimentos. A faixa de 700 MHz, por exemplo, favorece a cobertura de áreas extensas e a penetração do sinal em ambientes fechados. Frequências mais altas podem oferecer maior capacidade de transmissão de dados, mas normalmente exigem mais antenas e infraestrutura próxima aos usuários.
Baterias e conexão à rede
O armazenamento de energia acrescenta outra dimensão ao planejamento elétrico. Baterias permitem guardar eletricidade para utilizá-la em outro momento e podem oferecer resposta rápida às necessidades do sistema, ampliar a flexibilidade operacional e contribuir para a segurança do abastecimento.
O estudo da ABINEE destaca a estruturação dos primeiros LRCAP (Leilões de Reserva de Capacidade na forma de Potência) dedicados a baterias. A contratação, contudo, não depende apenas da tecnologia ou da potência instalada, pois é necessário avaliar onde há capacidade disponível na rede para receber os novos sistemas.
Essa questão também vale para grandes consumidores. A expansão dos data centers e da infraestrutura de inteligência artificial pode concentrar uma demanda elevada em determinadas localidades, exigindo reforços na rede elétrica e soluções de conectividade redundantes — ou seja, caminhos alternativos para manter os serviços funcionando em caso de falha.
Regras coordenadas
Para a entidade, a convergência entre energia e telecomunicações não exige unificar as normas dos dois setores, que possuem características e autoridades próprias. O desafio é evitar que exigências desenhadas separadamente provoquem atrasos, custos adicionais ou dúvidas sobre quais regras se aplicam a uma nova atividade.
Uma bateria instalada em um sistema elétrico, por exemplo, está sujeita a requisitos diferentes daqueles aplicáveis a um equipamento usado como reserva de energia em uma estação de telecomunicações. Da mesma forma, veículos elétricos dependem tanto da infraestrutura de recarga quanto de sistemas digitais para autenticação, controle e cobrança.
A ABINEE defende previsibilidade regulatória, coordenação entre instituições e regras compatíveis com a evolução tecnológica. Exigências excessivamente rígidas podem envelhecer rapidamente, enquanto a ausência de parâmetros claros também desestimula investimentos.
Oportunidade
A integração das infraestruturas abre espaço para fabricantes e fornecedores brasileiros de transformadores, cabos, painéis elétricos, baterias, conversores, antenas, servidores, sensores e sistemas de automação. A expansão também demanda engenharia, software, integração de equipamentos e serviços especializados.
Segundo o documento, as decisões sobre leilões e investimentos devem ser avaliadas não apenas pela arrecadação ou pelos vencedores, mas pelos efeitos sobre a capacidade de conexão, a cobertura e a implantação de novas tecnologias.
O objetivo é fazer com que a ampliação das redes de energia e telecomunicações contribua também para o desenvolvimento industrial do país. A íntegra do documento da ABINEE pode ser obtida clicando neste link.
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