Ano de 2021 promete ser ainda mais solar

Previsão é que o mercado continue crescendo e seja a força motriz da recuperação econômica pós-Covid-19
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Em 2020, o setor de energia solar foi impactado por alguns motivos: a escalada do dólar, que fez o valor do investimento aumentar substancialmente; a queda da oferta, em funções das explosões na fábrica da GCL-Poly e o incêndio em duas caldeiras na Daqo, ambas localizadas em Xinjiang, na China; e as graves inundações no sudeste chinês, que forçaram o fechamento de uma instalação da Tongwei, causando impacto no suprimento de polissilício.

Ademais, por conta da pandemia da Covid-19, o mercado também enfrentou algumas dificuldades. Entre elas, a quebra no ritmo de fabricação e a baixa disponibilidade de transporte marítimo foram alguns dos fatores que as empresas precisaram driblar para conseguir entregar seus equipamentos.

No entanto, o segmento se mostrou resiliente e os distribuidores, integradores e instaladores, por exemplo, graças ao planejamento prévio, garantiram o fluxo de entrega de materiais.

O setor se movimentou, e com muito trabalho a capacidade instalada continuou crescendo no Brasil. Dados da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) apontaram que entre janeiro e outubro deste ano o país atingiu cerca de 1.800 MW de potência em GD (geração distribuída) fotovoltaica, uma alta de 60% em relação aos 1.100 MW registrados no mesmo período do ano passado.

Além disso, a GD alcançou neste mês, somando a totalidade dos números no país, a marca de 4 GW de potência. Segundo a ANEEL, são mais de 411 mil UCs (Unidades consumidoras) recebendo créditos, mais de 330 mil usinas fotovoltaicas instaladas em mais de 5 mil cidades brasileiras.

Portanto, robustez e resiliência são características que marcam esse segmento, sendo uma fonte progressiva de empregos e que vem demonstrando uma rápida recuperação econômica frente à pandemia.

E para 2021, quais são as perspectivas? O Canal Solar conversou com alguns dos profissionais em destaque do setor que apontaram que “o futuro será cada vez mais solar”.

“O ano de 2021 promete no setor solar fotovoltaico. Com a tecnologia ainda mais difundida, o payback mais do que comprovado e os preços ficando mais acessíveis, mesmo com a alta do dólar, a previsão é de uma explosão de demanda para o próximo ano”, disse Lucas Freitas, CEO da Genyx.

“Contribuem para esse cenário uma previsão de taxa de juros baixa, aumento das linhas de crédito para financiamento e pouca probabilidade de alteração da norma no curto prazo, apesar de existir muita discordância sobre prazo por diversas partes envolvidas nas negociações. Cada vez mais o mercado atrai mão-de-obra qualificada e abre espaço para formação de novos profissionais. Vemos o setor no ano que vem como uma das forças motrizes da recuperação econômica pós coronavírus”, acrescentou Freitas.

Ronaldo Koloszuk, presidente do Conselho de Administração da ABSOLAR (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), comentou também que as perspectivas para o próximo ano são de crescimento acelerado nos projetos, justamente pela alta atratividade econômica e ambiental da energia fotovoltaica na geração distribuída, contribuindo assim para o desenvolvimento sustentável do país na superação da crise imposta pela pandemia.

“Nos últimos sete anos, a geração solar distribuída teve um crescimento médio de 231% ao ano no Brasil, com geração de emprego e renda e atração de capital privado. O investimento na tecnologia fotovoltaica viabilizou uma redução de mais de R$ 4,7 bilhões no bolso dos consumidores, recursos que foram reinjetados na economia local desde 2012. Isso acontece pela liberação de renda – dinheiro economizado na conta de luz de quem possui sistema solar e usado por este consumidor na compra de outros produtos, na sua região”, apontou Koloszuk.

Crescimento exponencial e novas tecnologias

Segundo Aldo Teixeira, presidente da Aldo Solar, mesmo em função do coronavírus, o Brasil teve um ano histórico no que se refere ao crescimento da adesão à solar. “Levamos sete anos para atingir 2 GW de potência em geração distribuída, de 2012 a 2019, e agora dobramos esse montante, chegando ao marco de 4 GW. Esse número demonstra que o país vem abraçando a energia fotovoltaica e que estamos no caminho certo para crescer exponencialmente também em 2021”.

Teixeira ressaltou ainda que, para o próximo ano, a expectativa é que os números aumentem e atinjam mais 4 GW em potência instalada, dobrando o volume registrado até este ano. “Vislumbramos também a adoção de tecnologias que trarão ainda mais inovação para o mercado e fomentarão o crescimento tão almejado pelo setor”, enfatizou.

No que se refere às tecnologias para painéis fotovoltaicos, o executivo relatou que novos modelos chegarão ao mercado nacional trazendo benefícios para toda a cadeia. “É o caso de módulos como o Vertex S, da Trina, e Tiger Pro, da Jinko, que trazem alta geração de energia. Esses painéis chegarão ao mercado com custo próximo aos modelos da geração anterior, mas serão mais eficientes, com maior potência e tamanho bastante reduzido”.

“Já as placas menores, feitas para geração distribuída, também deverão baratear custos com frete internacional e doméstico, pois irá caber muito mais watt-pico no mesmo contêiner ou no mesmo palete. Como exemplo, para gerar 1 MW, usando os módulos policristalinos disponíveis no mercado hoje, seriam necessários quase 3 mil painéis e 4 contêineres e meio. Com os novos modelos para atingir 1 MW só seriam necessários 2.270 painéis e 2,7 contêineres, reduzindo também custos com estrutura, cabeamento e conectores”, concluiu Aldo.

Início de 2021 será desafiador, mas setor segue crescendo

Para Leandro Martins, presidente da Ecori, o início de 2021 será desafiador para o setor porque ainda estaremos enfrentando o problema da pandemia mundialmente. “Existirá demanda retraída de fornecimento, o que significa que os fornecedores terão dificuldades para embarcar nas datas e quantidade combinadas. Isso veremos muito no primeiro trimestre”.

“A expectativa é que a partir do segundo trimestre começaremos a ver uma normalização em relação aos problemas que ainda veremos no trimestre anterior. Talvez vejamos inclusive uma adequação de preços dos equipamentos fotovoltaicos”, acrescentou o executivo.

“Existirá uma correria muito grande para atender a demanda retraída. Então, segundo, terceiro e quarto trimestres teremos muitas atividades. Acredito que a GD vai bater mais 5 GW em todo ano de 2021, somados aos mais de 4 GW acumulados até o final deste ano. Podemos, inclusive, ultrapassar a marca total de 10 GW ainda em 2021. Nós da Ecori, por exemplo, temos a expectativa de crescimento de 200% em faturamento, em relação a 2020”, concluiu.

Alberto Cuter, gerente geral da Jinko Solar na América Latina, também destacou a expansão do mercado brasileiro de GD. “O setor tem apresentado nos últimos três anos níveis de crescimento entre os mais elevados do mundo. Graças a empresas bem preparadas como Aldo Solar, PHB, Fortlev, Golden, as perspectivas de aumento são muito positivas. Não fiquem surpresos se no próximo ano comemorarmos o dobro da capacidade instalada”, enfatizou.

Ainda sobre as perspectivas para o próximo ano, Derek Wang gerente de vendas da Znshine Solar, comentou que, diante do cenário de crise econômica decorrente da pandemia de Covid-19, as inadimplências do setor elétrico aumentaram e as demandas por energia caíram, mas os custos de manutenção de geração se mantiveram.

“A tendência desse custo de energia é aumentar cada vez mais, o que significa que no futuro a procura por geração fotovoltaica vai ser muito grande (isso já em 2021), pois a TIR (taxa interna de retorno) e o payback vão ser cada vez mais favoráveis aos investidores e consumidores. Isso também reflete na expansão das linhas de produção de vários fabricantes, inclusive a Znshine Solar”, disse Wang.

No entanto, o executivo acredita que dois fatores serão gargalos para o setor nos próximos anos. “A produção de vidro vai continuar em shortage (escassez), provavelmente até Q3 e Q4 do ano que vem. Não há previsão para a normalização do fornecimento. Além disso, pelo fato do vidro se tratar de uma produção que gasta muita energia e ser uma indústria que polui muito o meio ambiente, o governo chinês está dificultando bastante na aprovação da instalação de novas fábricas e linhas, sem contar que a montagem de uma nova linha (forno) em si já demora muito tempo”, explicou.

“Ademais, não sabemos quando a pandemia vai passar e quando haverá uma vacina de alta confiabilidade. Fora a escassez do vidro, recebemos informações de que poderão faltar também outras matérias-primas, e tudo isso irá impactar no fornecimento do setor fotovoltaico”, concluiu.

Integradores demonstram confiança

Ricardo Rizzotto, proprietário da EOS Solar, relatou que se o país estiver vivendo uma situação melhor com relação à pandemia da Covid-19, o cenário vai ser muito bom para o setor fotovoltaico, desde que a cadeia produtiva consiga suprir a demanda, que está cada vez mais aumentando.

“As empresas que estão passando pela pandemia notaram que, se tivessem um sistema solar, certamente iriam ter menos custos fixos, pois energia ninguém deixa de pagar. Tenho certeza que o fotovoltaico não está fora da ideia de investimento das novas empresas. O cenário no futuro será muito promissor”, destacou.

Walber Junior, diretor comercial da Bellsol, também apontou que a solar é o esteio mais seguro para investimentos a médio e longo prazo e tem solidez no quesito segurança e retorno de investimento. “Estamos falando de payblacks que variam entre dois e oito anos dependendo da região do Brasil”.

Para ele, a fonte fotovoltaica tem se mostrado, desde 2012, quando teve seu marco regulatório, um excelente investimento e tem possibilitado empresários e pessoas físicas a fazerem outros aportes para melhorar a qualidade de vida e a saúde financeira de suas empresas e famílias.

“Em 2021, acredita-se, segundo os especialistas, que haja uma grande procura pela energia solar, mesmo com os entraves que a pandemia causou nos maiores centros de distribuição e produção, visando, por parte dos consumidores, uma busca pela liberdade energética e financeira”, comentou.

“Outro ponto relevante é a possibilidade forte que a solar tem de se trabalhar em conjunto com a mobilidade urbana, envolvendo os carros elétricos – outro mercado que vem crescendo exponencialmente no Brasil. Imagina você gerar a sua própria energia para seu uso domiciliar ou para a sua empresa e com a mesma energia abastecer o seu carro pessoal ou a frota de veículos da sua pessoa jurídica? É uma realidade que já está aí na porta. O ano de 2021 nos aguarda com o boom da tecnologia solar aliada à mobilidade urbana sustentável”, acrescentou Junior.

REN 482

Conforme noticiado pelo Canal Solar, a ANEEL tem 90 dias para apresentar um plano de ação para resolver o SCEE (sistema de compensação de energia elétrica) contido na REN 482 (Resolução Normativa n.º 482/2012) da agência. O prazo estabelecido pelo TCU (Tribunal de Contas da União) começou a contar a partir da data de publicação, no dia 18 de novembro.

Analisando este cenário e traçando as perspetivas para o futuro do setor, Bernardo Marangon, especialista em mercados de energia elétrica e diretor da Exata Energia, disse que a geração distribuída ganhou mais um capítulo de insegurança, agora por iniciativa do TCU, que deve acelerar as mudanças na REN 482.

“Teremos alguns meses de nebulosidade até que a ANEEL apresente o plano solicitado. Na minha opinião, acredito que o melhor caminho para solução deste problema seja a evolução do código de energia no Congresso”, apontou Marangon.

“Para o futuro, vamos ter muitos casos parecidos, a medida que a tecnologia desafia o status quo e as agências reguladoras e a legislação não conseguem acompanhar a velocidade deste movimento”, concluiu.

Com colaboração de Ericka Araujo

Imagem de Mateus Badra
Mateus Badra
Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como produtor, repórter e apresentador na TV Bandeirantes e no Metro Jornal. Acompanha o setor elétrico brasileiro desde 2020.

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