Em 2017, quando publicou o PDE (Plano Decenal de Expansão de Energia) 2026, o governo brasileiro projetava que o país encerraria este ano com cerca de 13 GW de capacidade instalada fotovoltaica, somando geração centralizada e distribuída.
Nove anos depois, a realidade supera de longe as projeções iniciais: o Brasil chega à metade de 2026 com mais de 72 GW de capacidade solar operacional, um volume quase seis vezes maior do que o estimado pelo planejamento oficial da época.
Desse total, o país soma cerca de 50 GW em micro e minigeração distribuída, enquanto pouco mais de 22,5 GW provêm de grandes usinas solares centralizadas, segundo dados da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica).
A diferença evidencia a velocidade da expansão da fonte fotovoltaica no país ao longo da última década, impulsionada pela redução dos custos dos equipamentos, pela ampliação das linhas de financiamento, pelo avanço da geração distribuída e pelo aumento da busca dos consumidores por alternativas para reduzir gastos com energia elétrica.
Crescimento acima das projeções
Quando o PDE 2026 foi elaborado, o mercado solar brasileiro ainda estava em estágio inicial de desenvolvimento. A geração distribuída havia sido regulamentada poucos anos antes e os sistemas fotovoltaicos apresentavam custos significativamente superiores aos observados atualmente.
Além disso, a cadeia de fornecedores era mais limitada, o acesso ao crédito ainda era restrito e modelos de negócio hoje consolidados, como a geração compartilhada e as usinas remotas, ainda estavam em fase inicial de desenvolvimento.
Ao longo dos anos seguintes, a combinação entre avanços tecnológicos, ganhos de escala na indústria global e maior oferta de financiamento ampliou o acesso à energia solar em diferentes segmentos do mercado. Como resultado, a capacidade instalada cresceu em ritmo superior ao previsto nos estudos elaborados na década passada.
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Conta de luz impulsionou demanda
O avanço da fonte fotovoltaica também coincidiu com um período de forte atenção dos consumidores aos custos de energia. Nos últimos anos, o país enfrentou crises hídricas, acionamento de usinas termelétricas, períodos de bandeiras tarifárias mais elevadas e reajustes nas tarifas de distribuição.
Nesse contexto, consumidores residenciais, comerciais, rurais e industriais passaram a buscar alternativas para reduzir a exposição aos aumentos da conta de luz e aumentar a previsibilidade dos gastos com energia.
A energia solar passou a ser vista não apenas como uma alternativa ambiental, mas também como uma ferramenta de gestão de custos, contribuindo para acelerar sua adoção em diferentes regiões do país.
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Expansão trouxe desafios para o sistema
O crescimento acelerado da geração solar também trouxe novos desafios para a infraestrutura elétrica brasileira. Grande parte das redes de transmissão e distribuição foi planejada em um cenário no qual a participação da fonte solar seria significativamente menor do que a observada atualmente.
Nos últimos anos, temas como inversão de fluxo em redes de distribuição, restrições de acesso, necessidade de reforços na transmissão e episódios de curtailment passaram a ocupar espaço crescente nas discussões do setor.
Os cortes de geração, especialmente em empreendimentos renováveis localizados em regiões com limitações de escoamento, tornaram-se um dos principais temas regulatórios e operacionais da indústria elétrica brasileira.
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Planejamento incorpora nova realidade
A evolução do mercado também passou a ser refletida nos estudos mais recentes de planejamento energético. Os novos planos decenais elaborados pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética) passaram a considerar cenários com participação mais elevada das fontes renováveis e maior necessidade de investimentos em infraestrutura para acomodar o crescimento da geração solar e eólica.
Temas como armazenamento de energia em baterias, flexibilidade operativa, resposta da demanda e modernização da rede elétrica ganharam relevância nas discussões sobre a expansão do sistema. A expectativa é que os investimentos previstos para a próxima década permitam ampliar a capacidade de integração das fontes renováveis e reduzir os gargalos observados atualmente.
A trajetória da energia solar ao longo dos últimos anos mostra como a tecnologia se consolidou de forma mais rápida do que o previsto nos estudos elaborados no início da década passada, tornando-se uma das principais fontes de expansão da matriz elétrica brasileira.
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